Estádio Moises Lucarelli: construído com o suor de seus torcedores

Um torcedor em especial foi a razão para o sonho ser possível

Por: Vinicius Falavigna, SP

Confesso que não lembro a primeira vez que visitei um estádio de futebol. Não tenho a memória muito boa e, por isto, algumas lembranças fogem. Entretanto, lembro da primeira emoção, do primeiro arrepio e da primeira boa impressão que tive do time de futebol que meu pai me ensinou a torcer.

E, deste dia, lembro do céu azul e ensolarado. Tenho claramente na cabeça quando liberaram a cabeceira dos visitantes, e um mundo de gente começou a “invadir” o espaço. Estava nas cadeiras sociais, bem ao centro do campo do estádio Moisés Lucarelli, em Campinas. Levantei-me, maravilhado, com a torcida gritando e vibrando. A cancha tomada de preto e branco. Dali em diante, foi só alegria. Cinco gols e o acesso de volta à primeira divisão do Paulistão, em 1999.

O texto que escrevo hoje é sobre o meu Templo do Futebol. Onde aprendi a gostar desse esporte e amar o time que escolhi para torcer. Talvez muitos não saibam, mas o Majestoso – como é conhecido pela torcida -, casa da Ponte Preta, não foi construído por empreiteiras gigantes, empresas multinacionais, com verba pública ou advinda do governo. Em uma época que o futebol ainda era mágico e do povão, Moysés Lucarelli, dirigente e apaixonado pelo seu time, mobilizou uma cidade inteira para erguer um sonho em preto e branco.

A construção do Majestoso

Na década de 40, a Macaca já vivenciava o dia a dia de um clube de futebol que era conhecido pelo estado de São Paulo. Porém, até então, jogava em campos “emprestados”, como o Estádio Júlio de Mesquita, localizado em uma famosa rua de Campinas e no Estádio Dr. Horácio Antônio da Costa, conhecido como Mogiana, que até hoje existe mas se mantém fechado e abandonado por puro descaso.

Mesmo naquela época, era vergonhoso um time profissional não ter um estádio para chamar de seu. Vale ressaltar que o Guarani, maior rival da Ponte, jogava no “Pastinho”, local onde a Ponte também chegou a mandar seus jogos. Moysés Lucarelli, que à época era um dos responsáveis pelo futebol da agremiação, não aguentava mais as gozações dos adversários por não possuir local para mandar os jogos. E, em 1943, ele deu a largada a procura de um terreno no qual pudesse construir um estádio do zero.

A construção da cancha não seria fácil. A Ponte Preta não tinha muitos recursos financeiros nem para comprar um terreno por Campinas, que dirá levantar os muros e a arquibancada. Porém, para viabilizar o negócio, Moysés Lucarelli convenceu outros dois pontepretanos de que a ideia valeria a pena. José Cantúsio (presidente à época) e o médico Olímpio Dias Porto deram Cr$ 50 mil de entrada e o restante viria parcelado pelo clube e de doações de torcedores e campineiros empolgados com a ousadia.

O local escolhido para a construção foi uma área de 35 mil m² de extensão, denominado Chácara Maranhão, na Rua Proença, mesmo bairro de origem do clube. Comovidos com o sonho, os proprietários do local abriram mão do restante do pagamento de Cr$ 55 mil e cederam o terreno. Após o anúncio da doação, mais de Cr$ 100 mil foram arrecadados para a futura obra através de doações. Que não pararam por aí. Ao longo dos meses, conseguiram arrecadar um valor que chagava a casa de Cr$ 250 mil.

O estádio teria capacidade para 30 mil pessoas e seria o maior do interior de São Paulo e o terceiro maior do país, atrás apenas do Pacaembu, em São Paulo, e São Januário, que pertencia ao Vasco – o Maracanã só seria inaugurado em 1950 para a Copa do Mundo no Brasil -. As obras do “Majestoso”, como estava sendo definido à época, começariam em novembro de 1945. Apenas em fevereiro de 1947 que a terraplanagem do terreno foi concluída. Durante todo esse tempo, a demonstração de amor pelo clube não parou e as doações continuaram chegando.

Torcedores trabalhando na construção do estádio
Torcedores trabalhando na construção do estádio (Foto: Pró-Memória de Campinas)

Campanha do Tijolo e do Cimento

Para erguer o estádio, eram necessários 250 mil tijolos. Apesar dos esforços financeiros, toda ajuda seria bem-vinda. Foi então que Moysés Lucarelli comandou uma grande caravana pelas ruas de Campinas para arrecadar o máximo de tijolos possíveis para a construção. Um dos jornais da cidade publicou: “É de se destacar que o transporte da primeira leva de tijolos destinada ao estádio, nada custou aos cofres pontepretanos, uma vez que os proprietários dos caminhões nada cobraram, demonstrando com esse gesto o elevado e nobre espírito de esportividade de que são possuídos” (Diário do Povo, 18/12/1946).

Além dos tijolos, os torcedores ajudaram na arrecadação de materiais para a obra: areia, cimento, ferro e cal. Quem não podia ajudar com dinheiro ou material, ajudava com o suor. Por isso, sempre falamos que o Majestoso nasceu à base da torcida. Muitos botaram a mão na massa e fizeram parte da história. Não precisavam ser pedreiros, marceneiros ou engenheiros. Bastava amor ao clube e força de vontade para ajudar.

Já no ano de 1947, as obras seguiam a todo vapor. Em maio, era possível ver os degraus das arquibancadas sendo erguidos. Em setembro, uma nova campanha foi feita para arrecadar, desta vez, cimento. Foram mais de 2.500 sacos doados para que a fachada do estádio fosse erguida. Os pontepretanos não mediam esforços para que nascesse o tão sonhado estádio – ainda sem nome definido. E Moysés Lucarreli, símbolo desse esforço todo, estava sempre a frente da construção. Abaixo segue trecho de entrevista à Revista Jubileu da Ponte, em 1975.

“Eu larguei tudo, meus negócios, tudo, pra fazer o estádio. Fiquei até cego naquela obra. Eu fiquei que era só Ponte Preta, fechei minhas lojas, fechei minha fábrica. Dava 7 horas e eu estava lá (na obra) com meu Oldsmobille. ‘Quantos vocês querem?’, eu perguntava para os fornecedores. ‘200 contos?’ ‘Marca aí pra mim, faço quatro duplicatas’. Eles pegavam as duplicatas e descontavam em banco. Como eu dizia, tudo era em meu nome. Quando eu ia pra Santos a 150km/h e o guarda rodoviário me parava, ele me reconhecia: ‘Não corre tanto, seu Moysés. O senhor tem que acabar o estádio. Não vou nem te multar pra esse dinheiro não fazer falta na obra’.”

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Primeira versão do Estádio Moisés Lucarelli, ainda sem a fachada tradicional (Foto: Campinas de Outrora)

“Estádio de A.A. Ponte Preta – velha aspiração que se realiza”

Depois de cinco anos, a espera chegou ao fim. Ainda faltavam alguns ajustes, mas ninguém aguentava mais esperar. A primeira partida oficial foi em 12 de setembro 1948, pelo segundo turno da 2ª Divisão de Profissionais do Campeonato Paulista. Por enquanto, apenas 12 mil torcedores puderam ver a estreia. Não poderia ser pior: 3 a 0 para o XV de Piracicaba. Paciência…

O estádio ainda não estava completamente pronto. Apenas em 1949 a cobertura das arquibancadas foi inaugurada. A fachada, com as duas torres ao lado do portão principal, como é conhecido o estádio, também só foi feita mais tarde, em 1957. Apenas em 1960, depois de inaugurar os holofotes, salão nobre e alojamentos, que o sonho estaria completo. Mas, ainda era preciso definir um nome para o Majestoso. A imprensa de Campinas se referia ao estádio como “Moisés Lucarelli”, em homenagem ao comandante da construção. Nota-se que a grafia está errada. O dirigente, Moyses, tem o ‘y’ ao invés do ‘i’, como era escrito nos jornais. O nome pegou e assim ficou até hoje, com a grafia errada e meio a contra gosto de seu Moysés, que achava que não merecia tal homenagem (reza a lenda que só aceitou o nome do estádio justamente pelo erro na grafia).

No dia 11 de agosto, data de fundação do clube, foi feita a maior das homenagens. Um busto, com o rosto de Moysés Lucarelli, foi erguido dentro do estádio, bem em frente ao portão da entrada principal. Após a conclusão das obras, Moysés se afastou da Ponte Preta, por conta de brigas internas. Acompanhou o crescimento do time de longe, com a saúde debilitada e quase cego, após tantos esforços. Morreu em 1978, aos 80 anos.

Acredito que todos os pontepretanos são eternamente gratos ao seu Moysés. Somos um time do interior. Rivalizamos quando dá com os “grandes da Capital”. Não temos um títulozinho – de importância – sequer para comemorar. Então, transformamos o Estádio Moisés Lucarelli no nosso maior orgulho. É historicamente conhecido como um caldeirão, sempre dificultando para os adversários. Em tempos onde a festa na arquibancada era permitida, era lindo de se ver como estádio pulsava, pressionava e, sim, ganhava os jogos.

Eu e todos os outros torcedores consideram aquele espaço, na Praça Dr. Francisco Ursaia, 1900, no Jardim Proença, como, literalmente, nossa segunda casa. Talvez tenha sido o lugar que mais frequentei após a casa da minha mãe. Ninguém vai conseguir expressar em palavras todo o amor, o apreço, a felicidade que sinto ao adentrar a esse lugar sagrado e ver minha Nêga Veia jogar. Hoje ele anda mais envelhecido, é verdade, mas ainda sim, é maravilhoso, espetacular, MAJESTOSO.

Moysés Lucarelli na construção do estádio wikipédia
Moysés Lucarelli na construção do estádio: o homem que tornou o sonho possível (Foto: Pró-Memória de Campinas)

Raio-x do Estádio Moises Lucarelli

– Capacidade de público: 19.722 (atualmente)
– Maior público já registrado: Ponte Preta 1 x 3 São Paulo (01/02/1978) – Público Total de 37.274 pessoas, sendo 34.985 pagantes e 2.289 menores
– Maior artilheiro: Dicá, com 83 gols em 249 partidas.
– Jogador que mais atuou no Majestoso: Dicá, com 249 partidas.
– Jogo número 1: Ponte Preta 0 x 3 XV de Piracicaba (12/09/1948)
– Maior invencibilidade em dias: 637 dias e 26 jogos, de 05/05/1968 a 01/02/1970
– Maior invencibilidade em número de jogos: 41 jogos, de 02/10/1965 a 28/05/1967
– Maiores goleadas: Ponte Preta 8 x 1 Portofelicense (10/09/1949); Ponte Preta 8 x 1 Ferroviária (16/04/1994); Ponte Preta 8 x 1 Castanhal (21/03/2001)
– Piores derrotas: Ponte Preta 0 x 6 Corinthians (08/12/1948); Ponte Preta 0 x 6 XV de Piracicaba (08/02/1995)

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O estádio construído pela própria torcida (Foto: Site Oficial/Ponte Preta)
Fontes: Livro “Ponte Preta – A torcida que tem um time”, de André Pécora e Stephan Campineiro; Site Oficial – Ponte Preta

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