Estrela Vermelha x Partizan: o Derby Eterno

Entender o que representa esse confronto é entender uma parte importante da história dos Balcãs

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Entender o que representa o confronto entre Estrela Vermelha e Partizan Belgrado é compreender uma parte importante da história dos Balcãs. A região da Península Balcânica, localizada no sudeste da Europa, foi notória ao longo das últimas décadas por guerras que remodelaram e redefiniram a geopolítica europeia. O futebol, portanto, como quase sempre acontece nesses casos, foi ator e espectador das diversas manifestações culturais e políticas ocorridas durante esses anos.

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O Estrela Vermelha teve como origem um grupo chamado Aliança Unida da Juventude Antifascista. Já seu eterno rival, o Partizan, foi originado por integrantes do Exército Vermelho. Por um bom tempo os dois clubes foram patrocinados pelo Estado. O Estrela Vermelha era promovido pela polícia, e o Partizan, pelo Exército. A predominante cor preta do uniforme do Partizan, acrescida da sua origem militar, culminou em uma alcunha muito peculiar: “coveiros”, apelido esse rapidamente incorporado pelos seus torcedores. O Estrela Vermelha, por sua vez, é conhecido por sua fanática torcida como “os heróis”.

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No campo político a torcida do Estrela Vermelha era icônica. Seus torcedores empunhavam com orgulho seus valores morais e suas posições políticas antifascistas, e em tempos conturbados no Velho Continente, onde tensões sociais e econômicas propiciam o florescimento de facções xenófobas e de extrema direita, “os heróis” são uma importante e vital força de resistência.

Antes mesmo da fragmentação da Iugoslávia, o clássico já era o maior da região, e essa rivalidade refletia em outros esportes, como o basquete. Porém, o ódio a clubes croatas, como o Dinamo Zagred e Hajduk Split era explícito, e se transformava em guerra campal quando os times sérvios Estrela e Partizan encaravam seus rivais croatas. Guerra essa patrocinada e apoiada pelo governo sérvio, que tentava afirmar sua superioridade perante aos separatistas croatas. O desmembramento da Iugoslávia, nos anos 90, ajudou a diminuir as tensões entre sérvios e croatas, porém, serviu como combustível para a rivalidade entre “coveiros” e “heróis”.

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Essa história começou a ser escrita em janeiro de 1947, sendo que o Estrela Vermelha foi o vencedor do primeiro Derby pelo placar de 4 a 3. Desde então, foram disputadas mais de 240 partidas, com ampla vantagem para os “heróis”. Em relação a campeonatos nacionais, ambos possuem 25 títulos (Campeonato Sérvio e Iugoslavo). Entretanto, o Estrela Vermelha conquistou mais copas nacionais, 24 a 12, além de ter alcançado a glória máxima do continente europeu ao ganhar a UEFA Champions League, em 1991, e o Mundial do mesmo ano.

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Cercados por diferenças, “heróis” e “coveiros” protagonizam uma das maiores e mais violentas rivalidades futebolísticas do mundo. Suas torcidas organizadas, devido a suas raízes, transformaram-se em reduto de agentes e ex-agentes do exército, polícia e de forças paramilitares, o que contribuiu para o aumento exponencial da violência no clássico.

Apesar da excessiva violência que marca a história desses rivais, a beleza do Eterno Derby, beleza inerente ao futebol, é mantida intacta, nos remetendo aos tempos áureos do esporte bretão. Uma visão gloriosa de incontáveis bandeiras, cânticos e sinalizadores, ao embalo de quase 100.000 torcedores no Marakana, estádio do Estrela Vermelha, que embelezam e protagonizam cenas por vezes épicas, por vezes lamentáveis. Estrela Vermelha e Partizan é um daqueles clássicos que nos faz relembrar que o futebol não é só um jogo. Não, o futebol transcende essa linha e torna-se algo verdadeiramente mágico, formador de caráter e de ideologia. Uma obra-prima, um dos frutos mais bonitos que a humanidade um dia gerou.

 

Texto: Pedro Portugal

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