Eterna seja a paz de uma criança que sonha

Como aceitar que sonhos de crianças podem ser interrompidos?

Em abril de 2018, os meninos do Flamengo celebram a conquista da Nike Premier Vip. Que seja essa a imagem para sempre. (Foto: Alê Cabral/Clube de Regatas do Flamengo)
Por Marcelo David Macedo, RJ

O que melhor define uma criança é a sua capacidade de sonhar. É olhar pro céu e querer estar lá, voando, furando nuvens como se fossem ondas no mar, como passarinhos, aviões, astronautas. Criança sonha, e enquanto sonha realiza na cabecinha dela. Criança olha pra si e se vê atriz, cientista, cantora. Criança quer morar em Wakanda. Criança quer jogar bola.

O primeiro brinquedo da criança quase sempre é uma bola. É com elas nas mãos que a criança sente o chão, entende as cores, os sabores e os valores do mundo. É graças a uma bola que a criança se machuca, cai, rala o dedo e conhece a dor, o sangue, e o machucado a faz mais forte, a deixa maior e faz ela seguir adiante. Os primeiros chutes são sem jeito e com vontade, sempre acompanhados de um riso lindo, sincero, e de descobertas que transcendem o esporte. Uma criança mal aprende a andar e já faz gol, magia própria de um país que maltrata tanto quem ama campo e bola, mas que vê nascer em suas ruas, campos, alagados, malocas, favelas e subúrbios cada vez mais meninos e meninas encantados por um esporte que ensina a viver.

Porque sim, o futebol é a maior metáfora da vida. O futebol nos ensina a ganhar, a perder, a conquistar sem merecer, a perder injustamente, a lutar muito e ter êxito. O futebol ensina a criança a viver, a respeitar o adversário e também o jogador do mesmo time que joga melhor, e que por isso está ali em campo; e o menino no banco, aguardando a sua vez, aprendendo, tentando ser melhor. E o futebol é isso, a vida é isso, e se o mundo não é perfeito, o futebol também não é. Mas o que é?

Crianças. Crianças são perfeitas.

E aí crianças crescem junto com seus sonhos, e muitas vezes esses sonhos são tão grandiosos que arrastam toda a família junto, porque comumente esses sonhos significam a superação de uma estrutura social perversa, racista e classista, a vitória na vida de alguém que nasceu marcado para perder. Mas crianças não sabem perder. Crianças ganham, recebem amor, vivem o mundo, se sujam, riem e entendem limites, e ao entendê-los respiram, desafiados, e os superam.

A camisa do clube grande agora no corpo, o sonho cada vez mais perto, o que viam na TV agora ali, pertinho, no corpo, nos pés. E aí crianças imitam os ídolos, querem ser igual, quem você imitava quando jogava bola? “E se um dia eu for igual?” Perguntas, comparações, vontades. Sonhos. Está chegando, é possível, eu posso, olha de onde vim, onde estou.

E aí acaba. É insuportável viver num mundo onde crianças morrem enquanto sonham.

Muita luz, meninos. O céu que buscavam tanto agora é de vocês.

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