Flamengo 0x3 América-MEX: O dia que Cabañas derrubou o Flamengo

América-MEX fez o crime no Maracanã lotado (foto: ANTONIO SCORZA/AFP/Getty Images)

Por Cristóvão Vieira, SC

 

Muitos jogos entram na memória do torcedor pelos bons momentos proporcionados. Já algumas partidas nefastas grudam na cabeça como um carrapato que, por mais que tentamos remover, é difícil tirar dali.

No caso do torcedor do Flamengo – apesar de quase 10 anos já terem passado – esquecer aqueles 3 a 0 do até então pouco conhecido do público brasileiro Club de Fútbol América, ou o América-MEX, é praticamente impossível.

O pesadelo rubro-negro até hoje tem uma quase sólida imagem visual: um gordinho correndo para comemorar mais um gol de falta, com seu rabinho de cavalo sacudindo pra lá e pra cá.

A partida foi válida pelo jogo de volta das oitavas de final da Copa Libertadores da América, em pleno Maracanã lotado. O resultado eliminou uma equipe empolgada com a recente conquista do título de campeão carioca de 2008, e o Maraca lotado vivia um clima de festa aos jogadores que levantaram a taça. Contudo, ao apito final do juiz, a comemoração se transformou em pranto e ranger de dentes.

 

 

O cenário

 

O clima festivo e de oba-oba era difícil de esconder. Pudera, o rubro-negro havia não só se tornado campeão carioca no fim de semana anterior àquela quarta-feira, 7 de maio de 2008, como também ganhou o primeiro jogo do América fora de casa. O 4 a 2 com dois gols de Marcinho, um de Diego Tardelli e um de Léo Moura permitiam que o time da Gávea perdesse até por 2 a 0 em casa, já que neste caso teria o placar qualificado.

No elenco do Flamengo naquela fatídica segunda partida havia uma divisão entre atletas de qualidade comprovada – Bruno, Léo Moura, Renato Augusto, Fábio Luciano, Kléberson e Diego Tardelli –, atletas de qualidade questionável – Toró, Juan, Jaílton, Marcinho, Leonardo e Ibson – e jogadores folclóricos – Souza, Obina, Ibson e Ronaldo Angelim. O técnico era Joel Santana, que fazia sua despedida naquele jogo já que seria treinador da África do Sul.

Já pelo lado mexicano, somente Cabañas e o goleiro Ochoa (aquele mesmo que fechou o gol no jogo contra o Brasil na Copa de 2014) podem ser reconhecidos hoje em dia. O elenco contava ainda com Higuaín, mas não aquele que hoje atua pelo Juventus, e sim o irmão dele. A equipe mexicana vivia momento delicado, na lanterna do Torneio Clausura e por pouco não foi rebaixado na competição.

 

Flamengo conquistou a taça de campeão carioca no fim de semana anterior à eliminação (foto: CRF/Arquivo)
Flamengo conquistou a taça de campeão carioca no fim de semana anterior à eliminação (foto: CRF/Arquivo)

 

A partida

 

O Flamengo chegou atrasado à partida, quase em cima do apito inicial. Segundo informações de bastidores obtidas pelo jornal Extra, o sambista Arlindo Cruz animou uma festa no hotel onde a equipe estava concentrada poucos instantes antes do jogo. O ônibus da delegação chegou 21h15 no estádio.

Apesar disso, foi o Flamengo quem começou apertando, e teve boas chances. Até que, aos 20 minutos, Cabañas apronta sua primeira peça. De longe da área ele acertou um chutaço que foi descaindo e encobriu o goleiro Bruno, abrindo o placar. O gol não incomodou o Mengão, que seguiu martelando, mas o gol teimava em não acontecer.

Mas, 18 minutos depois, o pior aconteceu. O América chegou ao segundo gol com Esqueda – recebeu uma bola que traiu a zaga rubro-negra e, cara a cara com Bruno, o jogador deu um toquinho para marcar mais um gol de cobertura. O placar de 2 a 0 ainda beneficiava o placar para o Flamengo, mas ainda havia muito jogo pela frente e aos mexicanos a distância para a classificação, antes gigantesca, era agora de apenas um gol.

Capitaneados pelos 50 mil torcedores presentes, os jogadores do Fla passaram a buscar o gol determinante para a classificação. Juan teve boa chance, Obina também. Mas quem balançou a rede no segundo tempo não foi ninguém além de Cabañas. O paraguaio gorduchinho teve uma falta frontal para cobrar e sentou o pé, a bola desviou no meio do caminho e traiu Bruno, que só acompanhou ela morrer na rede.

O público não entendia o que estava acontecendo. Será verdade? O América-MEX estava construindo mesmo um placar praticamente impossível dentro do Maracanã? O silêncio foi a resposta. O time campeão carioca e que fez o crime no México era agora vítima de Cabañas – e da própria soberba.

 

cabanas
Cabañas destruiu com o jogo (foto: GloboEsporte)

 

Depois daquele jogo

 

A partida foi um divisor de águas para as duas equipes. Ambas voltaram a crescer, o Flamengo por aprender com seus erros e o América por provar que o impossível, para quem se esforça, não existe. No ano seguinte, o Flamengo, que tinha uma espinha dorsal já formada em 2008, foi campeão brasileiro com os reforços de Adriano e Petkovic.

Cabañas, por sua vez, teve um trágico futuro. Ele sofreu uma tentativa de homicídio no banheiro de um bar em 2010, quando levou um tiro na cabeça, mas milagrosamente sobreviveu. O paraguaio teve grandes perdas profissionais depois disso, e até hoje vive com a munição alojada em sua cabeça. Ele chegou a jogar em 2011 em uma equipe da terceira divisão paraguaia, mas parou há quatro anos com o futebol profissional e ajuda a família em uma padaria.

 

Cabañas está longe do futebol profissional hoje em dia, e ajuda na padaria da família (foto: ADN Deportivo)
Cabañas está longe do futebol profissional hoje em dia, e ajuda na padaria da família (foto: ADN Deportivo)

 

Fontes: Terra Esportes, Jornal Extra, GloboEsporte e ESPN

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*