Fluminense de Feira mostra que o Sertanejo antes de tudo é um forte

Time do interior da Bahia vence mais um obstáculo e segue sonhando pela vaga na série C

Fluminense de Feira bate Ceilândia fora de casa e segue sonhando com a Série C

A famosa afirmação do escritor Euclides da Cunha casa perfeitamente com a saga do Fluminense de Feira de Santana na Série D do Campeonato Brasileiro, desde as dificuldades impostas pela organização do nosso futebol aos clubes e jogadores de menor expressão. Não é novidade para qualquer pessoa que acompanha nosso principal esporte com um pouco mais de atenção, o conjunto de problemas enfrentados pelos clubes que não disputam as Séries A e B do “Brasileirão”. Os problemas vão da falta de dinheiro e estrutura, até a isenção total de ajuda das federações estaduais, com seus calendários que não garantem mais que 4 meses de atividade por ano.

Os obstáculos são tanto para os que vivem do futebol (jogadores, comissão técnica e dirigentes) quanto para os que torcem, que nos jogos fora de casa, devem contar com os milagrosos serviços de transmissão online (streaming) ou atualizações e vídeos amadores em redes sociais para saberem o andamento das partidas, já que nem através dos pay per view é possível ver os jogos ao vivo pela TV.

É dentro de todo esse quadro caótico que a “Princesa do Sertão”, apelido carinhoso dado por Ruy Barbosa à Feira de Santana, segunda cidade mais importante da Bahia (do ponto de vista econômico) e maior entroncamento rodoviário do Norte-Nordeste do país , vê o seu clube de futebol mais tradicional enfrentar obstáculos e se aproximar cada vez mais do sonhado acesso à Série C do Campeonato Brasileiro. Aliás, a superação de obstáculos é a marca do Fluminense de Feira, que no ano passado voltou a disputar a primeira divisão do campeonato regional, competição em que possui dois títulos de campeão e seis vice-campeonatos.

O Campeonato Baiano, assim como a grande maioria dos torneios regionais no Brasil, é deficitário para os times de menor porte e, no caso do Fluminense de Feira, foi ainda pior, pois apesar de ter chegado às semifinais, teve que disputar fora de casa seus jogos como mandante, devido à reforma do Estádio Jóia da Princesa, que consumiu todo o primeiro semestre do ano. Até hoje, setores da imprensa esportiva local questionam a necessidade dessa reforma no momento em que foi feita, pois a cidade possuía outros times disputando o campeonato e todos eles foram prejudicados tecnicamente e financeiramente por jogar longe da torcida.

Iniciado o segundo semestre e, tendo conseguido através da colocação no torneio regional o direito de disputar a Série D do “Brasileirão”, a situação do Touro do Sertão, apelido dado pela torcida ao Flu de Feira, pareceu encontrar um alento com a reinauguração do estádio municipal, que realmente ficou muito bom até para receber jogos da primeira divisão do torneio nacional. Foi bom reencontrar a torcida, os jogos no torneio nacional disputados em casa vêm contando com bom público, mas as rendas aferidas ainda não são suficientes para cobrir os prejuízos da primeira metade do ano.

Mesmo com toda essa instabilidade causada pela crise financeira, do ponto de vista técnico, o desempenho do Touro do Sertão na primeira fase do torneio foi ótimo, classificando-se em um grupo considerado “forte”, marcado pela rivalidade entre tradicionais adversários do Nordeste : Sergipe-SE, Murici-Al e Campinense-PB, esse último, campeão da Copa do Nordeste de 2013. Ter passado dessa etapa é motivo de comemorações e alívio, uma vez que nesse tipo de torneio, a primeira fase é a “ultima” para os clubes que não conseguem se classificar e são obrigados a encerrar seus calendários no ano.

Estádio Jóia da Princesa totalmente reformado (Foto: Washington Nery/Blog de Feira)
Estádio Jóia da Princesa totalmente reformado (Foto: Washington Nery/Blog de Feira)

A sequência do campeonato indicava o início  do “mata-mata” e, com duas atuações primorosas, o Touro conseguiu duas vitórias por 2 a 0 contra o 7 de Setembro de Dourados, time do Mato Grosso do Sul, conseguindo a classificação para enfrentar o time com um dos de melhores ataques da competição, o Ceilândia do Distrito Federal. Não bastasse o forte adversário em uma etapa eliminatória, o clube disputaria a sequência da competição sem seu treinador Arnaldo Lira, que resolveu dedicar-se à sua campanha política para vereador em Fortaleza. Como nada possa ser tão ruim que não possa piorar, o Fluminense de Feira perdeu o primeiro jogo em casa, frustrando a torcida que foi em bom número ao Jóia da Princesa. Apesar de ter demonstrado sua força ao longo do ano, o Touro viajou para Brasília desacreditado para enfrentar o Ceilândia em seus domínios.

A história de superação do Flu fez com que jogadores, comissão técnica e diretoria “fechassem o grupo” em busca de superar mais esse obstáculo, provando à todos que enquanto fosse possível o time iria lutar até o final pela vaga. Foi assim que O Touro do Sertão provou, mais uma vez, que a máxima de que “grandes homens aparecem nos momentos de dificuldades” é válida. No último sábado, apesar do ouro inédito para o futebol brasileiro conquistado pela seleção, uma outra disputa de pênaltis que mobilizou Feira de Santana após uma classificação épica do seu tradicional time, o Touro venceu o jogo com gol no último minuto e conseguiu a classificação nas penalidades, e parafraseando Galvão Bueno, a Série D também é teste pra cardíaco!

O próximo e último degrau para a sonhada classificação para a Série C e, talvez, melhores condições de trabalho, calendário mais extenso, maior visibilidade e dignidade, já está traçado, e parece o mais difícil. O Volta Redonda do Rio de Janeiro é o adversário, e sabemos que o poderio financeiro do time originário da “Cidade do Aço”, é bem maior do que o do pequeno time de Feira de Santana. Mas o que é mais uma dificuldade ? Vale a máxima: O Sertanejo é antes de tudo um forte! E o Touro do Sertão leva a expectativa e a força de toda uma cidade marcada pelas características do povo sertanejo. Próximo final de semana, espera-se mais de 12 mil pessoas no “Jóia”, que será transformado em um caldeirão. O que quer que aconteça nesse confronto, o Fluminense de Feira já fez o suficiente para orgulhar sua torcida. Valeu, Touro!

 

Por: Hélio Ponce

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