Fortaleza e a armadilha do passo maior do que a perna

Tricolor cearense enfrentará a volta à segunda divisão após oito anos ausente

A volta do Leão a Série B e os perigos dessa empreitada (Foto: Reprodução/http://blogs.diariodonordeste.com.br)
Por: Victor Portto, CE.

A última vez que o Fortaleza Esporte Clube disputou a Série B do Campeonato Brasileiro foi em 2009. De lá para cá foram vários momentos de agonia da torcida do tricolor. O time sempre batia na trave na busca pelo acesso e quase chegou a cair para Quarta Divisão do futebol brasileiro. No entanto, no ano mais desacreditado pelos próprios torcedores a equipe conseguiu o retorno à Segunda Divisão. Internamente um dos fatores atribuído ao sucesso da empreitada do acesso foi o trabalho desenvolvido por Liana Benício, psicóloga do esporte há mais de um ano no clube, que se mostrou efetivo principalmente nos duelos mais tensos do mata-mata da Série C. O momento é de comemoração e felicidade pela volta, mas é preciso analisar o horizonte do clube neste retorno, no centenário da instituição que será em 2018.

A torcida leonina fez a festa com o retorno a Série B (Foto: Reprodução/http://esporte.ig.com.br)
A torcida leonina fez a festa com o retorno a Série B (Foto: Reprodução/http://esporte.ig.com.br)

O ano de 2017 só foi viável financeiramente pela ascensão à presidência do clube do empresário Luiz Eduardo Girão , em maio (depois da saída de toda a junta diretiva). Neste período da temporada o Leão devia cerca de três meses de salário ao elenco e estava um caos político, financeiro e institucional. O mandatário tricolor tirou dinheiro do próprio bolso para equilibrar as finanças, acertar os compromissos atrasados e fazer contratações pontuais. Falando em linhas claras, o Tricolor do Pici teve praticamente um mecenas e com a saída dele, declarada este mês, vive dias de incerteza quanto ao cenário financeiro da próxima temporada.

Como início do planejamento, o Leão resolveu remontar o seu elenco devido a constatação interna de que o mesmo era fraco tecnicamente para o nível da Série B. Perdeu o técnico que garantiu o acesso do clube, Antônio Carlos Zago, para o Juventude e buscou a reposição na figura do treinador Rogério Ceni. É uma aposta de alto risco por ser um técnico iniciando a carreira no futebol profissional, ainda pouco tarimbado e chegando num momento de grande pressão por resultados, pelos altos valores envolvidos em salários e outros termos do contrato (150 mil reais somente em remuneração mensal). Contra o planejamento do clube também contam as sentidas ausências nas Copas do Nordeste e do Brasil do ano que vem, torneios importantes para captação de rendas das equipes nordestinas, mas há o afago do aumento da cota de TV por voltar a Segunda Divisão em 2018.

A montagem do elenco tricolor será um desafio e tanto para a direção do clube e para a comissão técnica, visto que principalmente no primeiro semestre da temporada terá menos dinheiro em caixa para qualificar o time. Para suprir a perda financeira o Fortaleza apostou na contratação de um técnico com grande apelo midiático por sua carreira anterior como jogador. Buscando com isso aumentar o número de sócios do clube, arrumar patrocínios que se interessem pelo projeto da instituição de voltar a ganhar renome nacional e a busca pelo aumento do otimismo que ajude a lotar as arquibancadas nos jogos do Tricolor cearense. A torcida parece ter comprado a ideia de maneira inicial, mas veremos se o entusiasmo e a esperança se manterão se as coisas não saírem bem como o planejado.

Rogério terá um recomeço na carreira de treinador no Fortaleza (Foto: Reprodução/Agência Brasil)
Rogério terá um recomeço na carreira de treinador no Fortaleza (Foto: Reprodução/Agência Brasil)

Para Rogério Ceni é um ótimo local para recomeçar o seu trabalho. O grau de dificuldade técnica é menor que o da Série A. Haverá menos pressão que no São Paulo (clube no qual é ídolo máximo). Ele não perderá tantos jogadores de uma vez só como foi no Tricolor paulista. Além de poder solidificar as suas ideias de jogo, suas percepções táticas, num ambiente menos caótico politicamente que o do seu começo de trabalho. Entretanto, nem tudo será fácil. O técnico terá que passar por cima da dificuldade financeira e controlar a empolgação da torcida, que já fala  em acesso à Primeira Divisão 2019.

Os torcedores do Fortaleza estão felizes pelo retorno à Série B, por conta do centenário do clube, e a contratação de um treinador midiático, mas é preciso ter muito cuidado para a equipe não tropeçar nos próprios erros de planejamento. O Leão do Pici terá que evitar o que aconteceu com o Botafogo quando, por exemplo, contratou Seedorf sem muitas garantias financeiras e depois disso mergulhou no caos financeiro e político que quase fecharam as portas do time. O cenário é de confiança de uma maneira geral, mas resta cuidado para não dar um passo maior do que pode com as apostas que o Tricolor cearense está fazendo.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*