Fumaça Azul: o futebol respira na várzea

Nem melhor, nem pior, apenas diferente

No dia 1º de maio, o Esporte Clube Nacional da Vila Vivaldi completou 60 anos de existência. A data não podia ser melhor. Uma das principais equipes da várzea de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, cidade conhecida nacionalmente por suas manifestações sindicais, comemorar seu aniversário no dia mundial dos trabalhadores.

E nos mais de 100 campos de várzea espalhados pela cidade, é sempre grande a presença dos trabalhadores de colarinho azul nas arquibancadas, fazendo a festa com faixas, bandeiras e sinalizadores que encantam e intimidam os jogadores nas manhãs de domingo. O agora sexagenário Nacional é um caso diferente.

Ao contrário de seus grandes rivais, como o Corinthians, do Alves Dias ou o Unidos do Morro, da Vila do Tanque, o Nacional da Vila Vivaldi pertence a uma vila de classe média-alta. A renda domiciliar média do Rudge Ramos, bairro onde sua sede é localizada, é de mais de R$ 4 mil mensais.

As condições do time são excelentes. “Se alguma equipe da cidade decidisse se profissionalizar, o Nacional com certeza seria um dos primeiros da fila, por conta da infraestrutura”, declarou Saul Souza, presidente da liga de futebol de São Bernardo. O Naça, como é conhecido, conta com alguns ex-profissionais como Fernando Baiano (campeão mundial pelo Corinthians em 2002) e Fabinho (ex-Corinthians, Santos e São Caetano) em seu elenco.

Mas não estamos aqui pra falar do Nacional ou de sua infraestrutura de fazer inveja à vários clubes de São Bernardo (que, sem clubismo, possui a mais forte liga amadora da Grande São Paulo). O assunto é a Fumaça Azul, organizada do Naça.

Torcida do Fumaça Azul
Torcida do Fumaça Azul

Muito se fala em Mancha Verde, Gaviões, Independente, Força Jovem ou qualquer outra torcida organizada de algum time grande de futebol. E convenhamos, fica fácil torcer para equipes cheias de história, títulos, craques e patrocinadores, em cadeiras em arenas modernas e cobertas.

As torcidas de times de várzea são diferentes. Não existe nada mais moralizador que apoiar a equipe amadora do seu bairro, e de quebra, fazer uma festa bonita como torcedor, cantando e, claro, intimidando o adversário que joga na sua cancha com uma atmosfera incrível. A Fumaça Azul é assim.

São 120 membros que cantam e apoiam o Nacional em todos os jogos, sejam na Vila Vivaldi ou fora de casa. Na decisão do Amador do Estado do ano passado, a torcida compareceu em peso em Guarulhos para apoiar o Naça; 250 fãs.

A Fumaça Azul começou em 2012. “Formamos a torcida para igualar aqui em São Bernardo. Antes da fumaça, as outras torcidas tiravam sarro, falavam que o Nacional era time de playboy. Os torcedores tinham que esconder a camisa antes de ir no jogo”, contou o presidente da organizada, Carlos Magno, o Carlinhos.

O presidente declara que a relação com o time não é muito diferente de a de algum torcedor com um time grande.
“Você vai ver o Nacional no domingo, e parece que a sua semana fica mil vezes melhor. É uma relação de amor, só quem está lá entende.”

A Fumaça Azul realmente é diferente de outras torcidas. Palavras do próprio Carlinhos, que já presidiu a Coringão Chopp. “Não tem nem comparação, o futebol é bem mais verdadeiro. O futebol é do povo e a várzea continua com esse intuito.”

Carlinhos, a Fumaça Azul e o Nacional da Vila Vivaldi estão juntos nessa briga contra o preconceito com o futebol de várzea. Seja com as equipes de bairros humildes, que são acusadas de serem times de criminosos, ou com os times de bairros mais privilegiados, que são menosprezados e considerados menos “legítimos” pela condição financeira boa.

Independentemente de quanto cada um tem no bolso, o que importa é o que todos têm no coração. Quando a bola começa a rolar no número 251 da Rua Iguapé, a única coisa que importa é o Nacional. O menino futebol respira na Vila Vivaldi.

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