Futebol Chinês, a revolução que incomoda

A CHINA É O FUTURO DO FUTEBOL?

Guangzhou Evergrande já conquistou a Ásia duas vezes (foto: Xihua News)

Por Diego Giandomenico, PR

Para quem não sabe, eu moro em São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba e dona de verdade do Aeroporto Internacional de Curitiba. Mesmo sendo uma cidade relativamente bem desenvolvida, com uma população considerável (mais de 300 mil habitantes), uma das três maiores economias do estado, terra de empresas como Boticário e Nutrimental, São José dos Pinhais nunca teve um craque, um jogador de destaque, alguém que você já tenha ouvido falar até pouco tempo atrás. Por alguns anos, na minha doce infância, eu acreditei que seria eu que empunharia a bandeira e o orgulho são joseense aos quatro cantos do mundo, sendo o grande craque de clubes como Rayo Vallecano, Leeds United e Ajaccio. Tá, meu gosto peculiar por clubes evitaria meus holofotes no mundo dos gramados, mas também teve outro fato que tirou de mim o estrelato, o filho do Izaías.

Talvez por essa alcunha você desconheça o rapaz, mas com certeza você já ouviu falar dele, o Marlos. Jogou por Coritiba, São Paulo e Shakhtar. Enfrentou grandes clubes do Brasil e do mundo, um deles, o do meu bairro. Acompanhei de longe a carreira dele, joguei poucas vezes contra, mas o que mais me lembro era do meu tio falando “o Marcão pode jogar bola, mas quem é craque é o filho mais novo do Izaías”. Você não conhece o Marcão filho do Seu Izaías? Ele era zagueiro, quebrador de bola e foi através dele que ouvi pela primeira vez sobre o “futebol chinês”. Meu tio me alertou “ah, o Marcão é ruim de bola coitado, mas vai conseguir uma grana por lá”. Isso ficou na minha mente desde então: ruim de bola e grana fácil.

Marcão, o irmão do Marlos, na China (foto: O Gol)
Marcão, o irmão do Marlos, na China (foto: O Gol)


Não sei quanto o Marcão ganhou por lá, sei que rodou por alguns clubes chineses durante o final dos anos 90 e começo dos anos 2000. Mas, de lá para cá, muita coisa mudou. Hoje um Marcão da vida não teria tanta facilidade em se estabelecer no país asiático, até porque a China mira alto, para a alegria dos chineses e a raiva algumas vezes injustificável do resto do mundo. Hoje, serei o advogado do diabo chinês.

Tudo mudou lá na terra da Grande Muralha em 2000, quando China decidiu trazer o velhaco Bora Milutinovic pro comando dos Guozu. Caso você não tenha conhecimento de quem é Milutinovic, ele simplesmente conseguiu passar para a segunda fase de quatro Copas do Mundo seguidas, com quatro seleções diferentes: México (86), Costa Rica (90), EUA (94) e Nigéria (98). A China foi a 5ª seleção diferente que ele classificou de maneira consecutiva. Mesmo que Japão e Coreia não tenham participado das eliminatórias, a China reinou entre todas as outras seleções com 12 vitórias, 1 empate e 1 derrota. E ainda que sua campanha na fase de grupos tenha sido fraca, com 3 derrotas e nenhum gol marcado, Bora Milutinovic mudou algo na China e desde então os chineses buscam aperfeiçoar seu futebol.

Bora Milutinovic é adorado pelos chineses até hoje (foto: China Daily)
Bora Milutinovic é adorado pelos chineses até hoje (foto: China Daily)


O primeiro passo era o mais claro. Se quisessem aprender a jogar futebol a nível internacional teriam que desenvolver isso trazendo expertises de fora. Muito além de chamar técnicos medalhões e jogadores em fim de carreira, a China buscou o que há de melhor: preparadores, fisioterapeutas, especialistas no futebol, psicólogos, etc. E claro, criou a sua liga, algo que o Brasil não conseguiu até hoje, por exemplo.

O jeito de torcer na China tem mudado (foto: CNN)
O jeito de torcer na China tem mudado (foto: CNN)

A criação da Chinese Super League foi imprescindível para surgimento de novos investidores, novos clubes e novos torcedores.  Há um desejo dos cartolas chineses em fazer com que o país seja uma potência no futebol. Para tanto a liga se compromete em buscar alternativas para o máximo desenvolvimento da qualidade do jogo apresentado, incentivando o fluxo de treinadores e atletas de alta capacidade. Tudo visando o desenvolvimento local.

Tevez reclamou, mas também não tem ajudado muito por lá (foto: Mirror UK)
Tevez reclamou, mas também não tem ajudado muito por lá (foto: Mirror UK)

Então, não é incomum para quem está acompanhando, ver que clubes chineses tentaram comprar jogadores de altíssimo nível agora. Para eles, não interesse o Messi com 37 anos, sem o mínimo de vontade, eles querem o Messi do auge, para aprenderem.

Oscar é apenas o começo para os chineses (foto: Sky Sports)
Oscar é apenas o começo para os chineses (foto: Sky Sports)

Ao invés de seguirem a tendência de seus irmãos árabes, que injetam dinheiro sem parar nos falidos clubes europeus, os chineses viram a chance de elevar a sua pátria e não há nada de mal nisso.

Entendam algo: a Europa apenas é o berço do futebol porque sempre o dinheiro esteve ali. Então, o papo de tradição acaba sendo meio clichê sem perceber que um dia, e na verdade isso ocorre até hoje, as pernas de todos os craques do mundo é que construíram o império. Até o final da década de 80, a Europa financiava a si mesma. Hoje, conseguiu iludir alguns malucos do Oriente Médio e continua a financiar seu império. Mas se depender da China, isso não vai demorar muito.

Desde a abertura do mercado chinês ao mundo, ficou muito claro que a China não está para brincadeira. Conseguiu em questão de pouquíssimos anos, ser uma das potências mundiais, ao ponto de não sair da boca de Donald Trump.

Se olhássemos por esse aspecto, não brincaríamos com o fato da China tentar se estabelecer no mundo do futebol. É só olhar o movimento. Antes, os chineses compravam a rodo qualquer jogador que se destacasse minimamente no Brasileirão. Cansamos de ver nomes como Ricardo Goulart, Muriqui, Aloísio Boi Bandido e muitos outros irem para lá. Só que os clubes chineses começaram a perceber que precisavam de gente mais capacitada para o seu desenvolvimento. Logo nomes como Paulinho, Oscar, Hulk, Lavezzi, Gervinho, Pellè, Tévez e outros começaram a surgir.

O Guangzhou Evergrande é um bom exemplo disso. Já alcançou por duas vezes  o título da Champions da Ásia e hoje em dia consegue bater de frente com as equipes do oriente médio, Japão e Coreia.

O povo abraçou Felipão (foto: ESPN)
O povo abraçou Felipão (foto: ESPN)

Mesmo investindo em grandes nomes do futebol mundial, a China quer ver seus jogadores bem também. Para isso há um plano de construir mais de 50 mil campos de futebol novo até o final de 2020. Além disso, há o projeto de construção de 2 novos centros do futebol chinês, a criação de mais de 2000 escolas de futebol espalhadas por todo o território e a profissionalização de mais clubes. Uma das regras para que haja esse desenvolvimento é o número limitador de estrangeiros por equipe no total de 5 atletas, sendo que apenas 4 podem jogar ao tempo. O mesmo Guangzhou Evergrande investiu mais de 160 milhões de euros num complexo esportivo para suas categorias de base, que abriga atualmente 2,6 mil garotos e 200 garotas.

Centro de futebol em Guangzhou (foto: Trivela)
Centro de futebol em Guangzhou (foto: Trivela)

O complicado é resumir todo esse esforço por frase tosca de jogador dizendo “não troco a tradição do time x por dinheiro na China”, como se o cara estivesse na Europa apenas por amor ao futebol. Frases como essa, exaltadas pela imprensa daqui, servem apenas para mostrar como é raso o discurso dos futebolistas em geral e como a Europa vê com medo o crescimento da China, já que de possíveis investidores no modelo falido europeu, passaram a ser adversários de mercado.

Ninguém aqui diz que a mobilização das grandes empresas chinesas e do próprio governo é algo altruísta, visando o bem do esporte. Mas, afinal de contas, em que lugar do mundo o futebol é assim? Em todo o lugar terá um espectro político em jogo, mas se isso pode valorizar a população do país, é menos mal. Pior seria repetir casos do Oriente Médio e Índia, que apenas importam jogadores sem nem pensar no que tem em casa. O plano político da China é ousado e pretende terminar com uma Copa do Mundo em sua sala de troféus. Vendo todo esse empenho, alguém acha que é impossível?  

  Futebol no Planeta, Trivela, Sapo Desporto, The Guardian

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