Futebol nos países socialistas do leste europeu no século XX: sucesso em segredo

Seleção Soviética na Copa da Itália. O fim de uma era (Foto: Reprodução/ futebolcomunista.blogspot.com.br)
Por: José Victor (RJ) 

O futebol desde a sua fundação e na sua sina de se tornar o esporte mais popular do planeta, transcendeu países com diversas culturas, ideologias e até mesmo fechados ao restante do globo. Durante o regime socialista presente em vários países europeus, o esporte se tornou um dos principais meios de entretenimento na Tchecoslováquia, Iugoslávia, União Soviética, Polônia e Hungria.

O futebol conquistou quase todas as nações. Sagrado, pausava guerras, promovia a paz, divertia em meio a tanto sofrimento, causava tristeza em meio tanta alegria, um craque na antítese. Nos polêmicos países socialistas, onde era tratado como uma das prioridades e recebia atenção especial como aspecto formador e até mesmo educador, várias equipes foram fundadas e grandes craques se notabilizaram como verdadeiros astros. O esporte, enquanto consolidado como uma das prioridades nos países europeus socialistas, deu a oportunidade de testemunhar o surgimento de atletas geniais. E no futebol não poderia ter sido diferente.

Puskas, Scherer, Yashin, Oleg Blokhin, Lato, Ivarov, Masopust, Boniek… são vários exemplos de craques que se formaram durante os regimes socialistas e fizeram sucesso no planeta, mas que principalmente após o fim do regime em seus países, mesmo que muitos tenham desertado, a memória sobre os feitos desses gênios foi extremamente reduzida. E o nosso papel é exaltar os feitos dessas seleções e dos craques que se fizeram presentes.

Os Jogos Olímpicos despontaram principalmente após a Guerra Fria como um dos eventos mais importantes do mundo. O investimento maciço nos esportes fez parte tanto das potências capitalistas e socialistas como demonstração de poder e principalmente de sucesso.

Para se ter ideia da importância da prática nos países socialistas europeus no período da Guerra Fria, durante as Olimpíadas de 1976 em Montreal, a URSS foi o país líder do quadro de medalhas com 125, sendo 49 de ouro. A Alemanha Oriental ficou em segundo no quadro após conquistar, 90 medalhas, sendo 40 de ouro. Já os Estados Unidos terminaram com 94 medalhas, mas acabaram na terceira colocação devido ao menor número de medalhas de ouro, comparando com o Alemanha Oriental: apenas 34. Entre os 10 melhores colocados no ranking de medalhas, 7 eram países socialistas.

A Olimpíada de Montreal talvez seja a síntese do triunfo dos países socialistas no projeto  político que tinha como objetivo tratar o esporte como uma das prioridades governamentais. A Romênia, por exemplo, encantou o mundo com o fenômeno da ginasta Nadia Comaneci, a primeira ginasta a receber uma nota 10. Cuba que também seguiu a linha dos países do leste europeu, tratando o esporte como uma prioridade e ferramenta educacional, teve como seu principal nome nos jogos o velocista Alberto Juantonera, vencedor dos 400m e 800m. A URSS também emplacou um grande nome da ginástica nos quadros de medalhas:  Nellie Kim, que trouxe 3 medalhas de ouro para a nação líder dos jogos.

Você lendo esse texto deve estar se perguntando:  “O que os Jogos Olímpicos de 1976 tem a ver com o sucesso do futebol nos países do bloco socialista na Europa?” Tudo. Os países socialistas simplesmente dominaram o pódio. A final foi entre Alemanha Oriental x Polônia que contava com um futuro craque: Lato. Os alemães venceram por 3×1 e faturaram o ouro. A disputa do bronze foi entre URSS x Brasil, mesmo contando com vários craques que se tornariam ídolos do futebol brasileiro como o maestro Júnior, Marinho, Edinho e Batista. A seleção canarinho não conseguiu superar a URSS e teve que se contentar com o 4° lugar.

Na Liga dos Campeões, a pluralidade das equipes que fizeram campanhas relevantes chama a atenção. Até 1991-1992, foram 2 títulos de UCL com o Steaua Bucareste – Romênia e Estrela Vermelha da Iugoslávia, dois vice-campeonatos com o Partizan, também da Iugoslávia, e com o próprio Steaua Bucaresti. Entre os semifinalistas, foram nada menos que 13 equipes diferentes entre os 4 melhores clubes da Europa. Dínamo de Kiev, enquanto ainda pertencia a URSS, chegou às semis três vezes. O Estrela Vermelha, que conquistou o título em 1990-1991, também chegou outras três vezes até a semifinal. No total, foram 14 equipes de diferentes países socialistas do leste europeu que conseguiram estar entre as quatro melhores equipes da Europa.

Estrela Vermelha foi o único time do leste europeu vencedor da Champions League (Foto: Reprodução/pt.uefa.com)
Estrela Vermelha foi o único time do leste europeu vencedor da Champions League (Foto: Reprodução/pt.uefa.com)

E na Copa do Mundo, teve resultados relevantes?

Nenhum país do bloco socialista conseguiu se sagrar campeão mundial. Alguns foram campeões olímpicos, campeões da Eurocopa, equipes de seus países ganharam até a Liga dos Campeões, mas na Copa do Mundo ficaram no “quase”. As cinco primeiras edições da Eurocopa contaram com países socialistas na final, das quais URSS e Tchecoslováquia conseguiram o título em 1960 e 1976, respectivamente. O fato de nenhum país socialista europeu ter conquistado a Copa do Mundo não impediu que as equipes e seus craques tenham escrito seus grandes feitos na história do futebol.

Hungria 1954: A primeira seleção socialista a obter um grande destaque internacional foi a húngara, de Ferenc Puskas, durante A Copa do Mundo da Suíça. Apesar do favoritismo, acabou perdendo a final para a Alemanha.

Puskas e mais alguns jogadores foram desertores e aproveitaram uma excursão para o Brasil para abandonarem sua seleção durante uma estadia na Áustria. O objetivo dos jogadores era tentar a carreira profissional nos clubes do ocidente, e assim foi iniciado o ciclo de Puskas no Real Madrid, onde é um dos principais ídolos da história.

Puskás, um dos maiores gênios da história do futebol. (Foto: Reprodução Internet)
Puskás, um dos maiores gênios da história do futebol. (Foto: Reprodução Internet)

A Hungria, mesmo não levando a Copa do Mundo, deixou um legado importantíssimo para o futebol, a formação 4-2-4. No Brasil, o responsável por trazer esse esquema tático foi o técnico húngaro Béla Guttmann, treinador que revelou Puskas. Ele era um verdadeiro gênio da bola, com passagens por equipes gigantes mundo afora como Milan, Peñarol e Porto. O treinador foi campeão paulista com o São Paulo em 1957, quando trouxe o esquema que influenciou os treinadores brasileiros por alguns anos, além de ter conquistado o bicampeonato europeu com o Benfica de Eusébio em 1960-61 e 1961-62.

Tchecoslováquia 1962: A Tchecoslováquia de 1962 chegou até a final da Copa do Mundo, mas não foi fácil alcançar tal feito. O país eliminou a Hungria que ainda era uma referência do futebol mundial e passou sem conhecimento pela fortíssima seleção da Iugoslávia com atuação impecável de Scherer. Acabou perdendo para o nosso Brasil, do então mestre Garrincha, que foi o nome do bicampeonato no Chile.

Ao contrário do que aconteceu na Hungria, a Tchecoslováquia não sofreu com desertores e conseguiu manter seus principais jogadores no país, principalmente após as reformas com viés mais democrático propostas por Dubcek. Somente em 1968 as tropas de Moscou interferiram na mudança de postura do país perante os outros do bloco socialistas, quando Dubcek foi obrigado a recuar e a famosa “Primavera de Praga” foi sucumbida.

União Soviética 1966: O esporte mais popular do mundo não poderia deixar uma potência como a União Soviética passar sem feitos gloriosos como tantos obtidos pela extinta URSS.

Os soviéticos foram campeões da primeira Eurocopa, realizada em 1960, e obtiveram o vice-campeonato em 1964. Na Copa do Mundo de 1966, eram um dos favoritos ao título, mas acabaram caindo na semifinal e terminaram na quarta colocação.

Polônia 1982: A seleção polonesa após uma respeitosa década de 70 chegou no auge de sua maturidade para participar da Copa do Mundo de 1982 na Espanha. Lato, Boniek – ídolo de Juventus e Roma – e o ótimo goleiro Mlynarczyk, que foi campeão da Liga dos Campeões em 1986-87 com o Porto, eram os destaques do fortíssimo esquadrão que não conquistou a Copa por detalhe.

A equipe fez uma primeira fase arrasadora, deixando a futura campeã Itália em segundo no seu grupo. Na segunda fase que contava com um triangular, deixou para trás a Bélgica com uma atuação de gala de Boniek e superou também a URSS.

Na semi, era só passar pela Itália novamente para chegar à inédita final de Copa do Mundo, mas a seleção polonesa não conseguiu vencer a Azzurra de Paolo Rossi, que após a Copa seria companheiro de Boniek na Juventus. A Polônia disputou o terceiro lugar contra a França e após a vitória por 3×2, escreveu o nome do país na história das grandes participações em Copa do Mundo.

Iugoslávia 1990: Com o socialismo no Leste Europeu já em declínio, a Iugoslávia fez a sua campanha de destaque na edição de 90. Apesar das tensões internas com o país próximo de sua fragmentação, o momento futebolístico era promissor. O título do mundial sub-20 em 1987 já previa uma seleção fortíssima para a Copa de 1990.

Durante a Copa na Itália, a Iugoslávia jogou um futebol aguerrido e só foi eliminada nos pênaltis para a Argentina nas quartas de final, após o empate em 0 a 0 no tempo normal. Os hermanos chegariam até a final, porém acabariam sendo derrotados pela Alemanha.

A Iugoslávia contou com o melhor jogador jovem do torneio, Robert Prosinečki. O meio campista foi síntese do auge da Iugoslávia e um exemplo do impacto que a fragmentação da antiga república socialista causou no futebol. Além de ter sido o destaque na Copa de 1990, o jogador foi campeão mundial sub 20 em 1987 e conquistou a Liga dos Campeões com o Estrela Vermelha de Belgrado em 1991. O jogador ainda disputou uma Copa do Mundo pela Croácia em 1998, em virtude da fragmentação, e ajudou o país a conquistar o surpreendente terceiro lugar.

Iugoslávia de 1990 fez a última participação de destaque de um país socialista na Copa do Mundo. (Foto: Reprodução/ pelotadetrapoblog.wordpress.com)
Iugoslávia de 1990 fez a última participação de destaque de um país socialista na Copa do Mundo. (Foto: Reprodução/ pelotadetrapoblog.wordpress.com)

Se não acontecesse a fragmentação, e com permissão para usar uma dose de anacronismo, teríamos uma seleção fortíssima atualmente. Matic, Modric, Pjanic e Rakitić poderiam formar junto o meio de campo da atual Iugoslávia. Já imaginou que timaço?

O misticismo pregado pelos países do ocidente em relação aos países socialistas e o modo como se fechavam para o resto do mundo fez com que muitos craques acabassem caindo no esquecimento e não tivessem o reconhecimento que deveriam. Nosso compromisso é, também, exaltar esses feitos, reconhecer a importância que esses países tiveram para que o futebol pudesse se tornar o esporte mais popular do mundo e entender que o futebol desconhece a palavra fronteira. Bola rolando, linguagem universal.

Fontes: Pelota de trapofutebolcomunista.blogspot.com.brofutebologoimortaisdofutebolEducacao.uol.com.br

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