Futebol – A religião leiga do trabalhador (parte 1)

E quando os rachas (moralizadores) dos setores da firma evoluem e do chão de fábrica nascem os times que movem o coração das multidões? Na série "Futebol, a religião leiga do trabalhador" um pouco da história dos clubes que foram criados por operários e, assim como o maior espetáculo da terra, respiram pelo mundo todo.

Fachada da Fábrica de Tecidos Bangu - Fonte: www.bangu.net
Fachada da Fábrica de Tecidos Bangu - Fonte: www.bangu.net

O futebol, e não é pra menos, se tornou um dos maiores fenômeno de massas e passou a ser considerado o esporte mais popular do planeta. Os amantes da bola munidos de imaculada paixão resistem aos interesses comerciais que tentam tomar conta das quatro linhas e de tudo que a rodeia. Mas a história do futebol também resiste. Futebol é arte, futebol é cultura popular.

As grandes concentrações de pessoas que saíam dos campos rumos às cidades em busca de empregos nas indústrias marcaram como uma nova forma de distração os primeiros passos do nosso futebol (sim, NOSSO, do povo!). Aos poucos a nossa peleja se tornou a principal atividade no intervalo dos turnos pelo Brasil afora e não demorou pra logo se tornar o principal assunto na mesa de bar.

Quem não espera o sábado chegar para bater aquele racha com o pessoal da firma seguido de uma carninha assada regada a muito descubra e, por vezes, atravessando a madrugada de incontáveis mim acher? Não foi à toa que um dos maiores historiadores recentes, Eric Hobsbawn, escreveu em um dos seus livros que o futebol é “a religião leiga da classe operária”.

Inclusive o boné, o mesmo boné que seu tio usa no auge da sua forma física pra pegar no gol e proteger a careca do sol (com o nome estampado do candidato mais votado da última eleição pra vereador) começou a ser utilizado entre os trabalhadores a partir do futebol.

Logo no seu início não tínhamos o juiz como conhecemos hoje e quem fazia esse papel eram os capitães de cada equipe que se diferenciavam dos demais pelo boné na cabeça. Boné em inglês é cap e de cap para capitão, dois palitos. Única atitude possível o tio Zé, portanto, usar boné debaixo das traves.

As cidades que concentravam grandes trabalhadores logo se despontaram como grande celeiro de craques e do surgimento de clubes ligados à indústria. Isso é verdade para a América do Sul e por incrível que pareça na Europa também e logo vou contar como. O futebol ainda respira.

Na América do Sul não é por acaso que cidades mineiras (como Coquimbo, Pachuca, Iquique, Calama) e portuárias (Buenos Aires, Montevidéu, Valparaíso, Rio Grande e Rio de Janeiro) se tornaram centros pioneiros desse esporte abençoado.

E do Rio de Janeiro surge do chão da Fábrica Bangu, o tradicional Bangu Atlético Clube, um dos primeiros a contar com jogadores negros e operários em seu elenco o que contribuiu significativamente para que o futebol se espalhasse por todo o Brasil e que fosse acessível a todos em qualquer lugar onde se encontrem dois chinelos e uma tampinha de garrafa.

Fachada da Fábrica de Tecidos Bangu - Fonte: www.bangu.net
Fachada da Fábrica de Tecidos Bangu – Fonte: www.bangu.net

Outro exemplo, esse um dos maiores da história, o Corinthians seguiu os passos do Bangu em 1910 fazendo exceção à regra da elitização. Fundado por operários do Bom Retiro, o Corinthians não seguia a lógica cavalheiresca dos clubes elitizados ao entrar em campo e talvez por isso tenha ganhado fama de time violento. Assim os outros clubes começam a se abrir graças a popularidade que esses dois ganham com o povo. “O Corinthians vai ser o time do povo e o povo é quem vai fazer o time”, afirmou o alfaiate e primeiro presidente eleito, Miguel Battaglia.

Fachada da Fábrica de Tecidos Bangu - Fonte: www.bangu.net
Fachada da Fábrica de Tecidos Bangu – Fonte: www.bangu.net

Das equipes originadas do chão de fábrica que culminou no processo que resultou no título carioca do Vasco da Gama em 1923. Pela primeira vez um clube escalado com pobres, negros em sua maioria e analfabetos rompeu com os limites sociais impostos desde a chegada da bola por aqui, mais um tijolo na construção do que conhecemos por futebol brasileiro.

O futebol proletário iniciado pelos times de fábrica fez com que o futebol deixasse de ser algo apenas para a diversão da burguesia, aristocrático e branco para se tornar o símbolo de possível ascensão social e vitória na luta contra a miséria e o preconceito. O ópio do povo em que as regras são universais e valem igualmente para todos. Espaço em que a afirmativa todos são iguais perante a lei surte efeito. Onde o operário vence o patrão, onde o brasileiro vence a cultura europeia idealizada.

Cruz Azul - Fonte: www.maquinacementera.com.mx
Cruz Azul – Fonte: www.maquinacementera.com.mx

O mesmo modelo de empregados de uma determinada fábrica compondo um time que se profissionalizaria anos mais tarde se espalha pelas Américas. Nas primeiras décadas do século passado vimos surgir o Cruz Azul, iniciativa dos funcionários da La Cementera Cruz Azul, na pequena cidade de Jasso, no México. O uruguaio Defensor Sporting formado por trabalhadores de uma fábrica de vidros de Punta Carretas. O EMELEC, Empresa Eléctrica del Ecuador, também surgindo primeiro informalmente a partir dos funcionários da empresa elétrica. Na Bolívia, o Jorge Wilstermann é quem dá as caras após ser criado por um grupo de trabalhadores da companhia aérea boliviana Lloyd.

Ata de Fundação do Emelec - Fonte: www.emelec.com.ec
Ata de Fundação do Emelec – Fonte: www.emelec.com.ec

Das canchas dos hermanos temos o Club Atlético Talleres, campeão da Copa Conmebol de 1999, onde os trabalhadores das oficinas (talleres, em espanhol) da estação local da ferrovia Central-Córdoba passavam os intervalos do almoço e os fins de semana correndo atrás da pelota e tão logo decidiram fundar seu próprio clube.

Club Atletico Talleres - Fonte - www.todolanus.com.ar
Club Atletico Talleres – Fonte – www.todolanus.com.ar

Mas pera lá, e a Europa nisso tudo? Na Europa tudo é igual e os trabalhadores tomaram ainda mais conta do negócio, apesar de parecer o contrário. Por lá as massas também imperam como veremos no próximo texto da série.

Continua…

Parte 2 – http://cenaslamentaveis.com.br/futebol-religiao-leiga-do-trabalhador-parte-2/

Texto: Guilherme Campos de Moraes

2 Comentários em Futebol – A religião leiga do trabalhador (parte 1)

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*