Futebol – A religião leiga do trabalhador (parte 2)

Não só no racha entre os setores da firma fica comprovado que o futebol se tornou a principal religião do trabalhador no mundo inteiro. Veja como o chão de fábrica moralizou a história do maior espetáculo da terra e resiste até hoje.

(Leia a primeira parte – http://cenaslamentaveis.com.br/futebol-religiao-leiga-do-trabalhador-parte-1/

No segundo texto da série “Futebol – a religião leiga do trabalhador” já vale de cara citar os clubes formados inicialmente por trabalhadores na Europa assim como ocorreu nas Américas. Os maiores exemplos são o Bayer Leverkusen e os empregados da empresa farmacêutica que vê seu nome carregado no clube, o PSV junto à Phillips, o Saint-Étienne e o grupo Casino e o menos ovacionado Sochaux, formado, sobretudo, por funcionários da montadora Peugeot.

PSV 1913 - Fonte: www.problepair.nl
PSV 1913 – Fonte: www.problepair.nl

A linha divisória para se definir o que seria um time de sucesso na Europa está entre os clubes que conquistaram pelo menos uma vez a UEFA Champions League ou que tenham o maior número de torcedores fiéis (que pra nós é o que mais importa). Tomando como base esses dois critérios, vale fazer uma breve consideração.

Os campeonatos europeus basicamente tiveram dois momentos, um tomado pelos regimes ditatoriais que prosperaram na década de 60 e seguintes com o Real Madrid (clube do General Franco), Benfica (do ditador português Salazar), Panathinaikos (na Grécia) e Steaua Bucharest (na Romênia). Os clubes citados foram inundados de recursos e pelo menos o primeiro deles ainda mantém seu poderio em partes graças aos triunfos do meio do século. Mas os clubes mais importantes da Europa, por incrível que pareça, não estão nas capitais.

Socheaux 1929. Primeira equipe profissional do Sochaux. www.fcsochaux.fr
Socheaux 1929. Primeira equipe profissional do Sochaux. www.fcsochaux.fr

Pare por um instante e pense um pouco comigo. Antes do Chelsea na temporada 2012/13 qual foi o último campeão europeu que mantém sua sede na mesma cidade que o governo respectivo país? Exatamente. A única exceção além do Chelsea nos últimos quase cinquenta anos é o Real Madrid. Outro caso particular é o dos clubes holandeses. Apesar dos Países Baixos estabelecerem em Amsterdam sua capital, Haia é a sede do governo e de toda administração pública.
Onde está então o verdadeiro coração do futebol europeu, onde é que a arquibancada balança e os gritos são ouvidos? Nas cidades que tem como característica o desenvolvimento a partir da indústria, onde o povo e a massa trabalhadora estão. Tanto é verdade que Londres foge um pouco das características das demais e abriga sete dos principais clubes ingleses, mas lembre-se sempre que lá, na Inglaterra, é que a revolução industrial aconteceu. Mesmo assim a cidade só foi conquistar a Europa recentemente e abastecida com os rios de dinheiro de proveniência um tanto quanto duvidosa de Roman Abramovich.

Então vamos falar de torcida. Se estamos na Inglaterra, torcida é Manchester United. Quer cidade mais industrial que Manchester? Nos arredores da cidade, num raio de 150 km, existem nada menos que 43 clubes profissionais, a maior quantidade de clubes por metro quadrado no mundo tudo. O Manchester United e a região se tornaram sinônimos de futebol porque ela se tornou a primeira cidade industrial do planeta futebol. Como a massa não ia corresponder positivamente a um clube que tinha no seu meio de campo os carniceiros Catona e Roy Keane. O Manchester City para não passar batido também teve o seu De Jong. Cada carrinho naquela cidade já foi comemorado com um grito de vitória.

Quase todas as cidades com os mais populares clubes da Europa tem o mesmo perfil de Manchester. Cidades industriais que encontraram no futebol a razão para seus moradores se unirem. As torcidas para os clubes de suas respectivas cidades ajudaram a criar em toda Europa um sentimento de que as pessoas pertenciam mesmo àqueles lugares, assim como acontece nos inúmeros clubes do interior do Brasil, como na minha Santa Bárbara d’Oeste/SP e o detentor do maior rugido do interior, o União Barbarense. Assim, no velho mundo os clubes se tornaram proporcionalmente maiores nas cidades industriais em relação ao que ocorreu nas capitais ou naquelas cidades marcadas pela religião ou de forte tradições hierárquicas.

Claro que nas capitais há clubes populares assim como no Brasil. Londres, Paris, Roma e Moscou são de longe as cidades mais populosas de seus países, mas não conseguiram reunir as condições que as demais cidades tinham à disposição. Se pegarmos os maiores países da Europa em extensão, não há um em que um clube da capital figure absoluto em primeiro lugar, sempre com a presença marcante de cidades que tem o desenvolvimento da indústria em sua história.

Pesquisas colhidas pelo mundo afora apontam que na Espanha a preferência mundial é de ligeira vantagem de Barcelona de Luis Canibal Suárez frente ao Real Madrid. Na Inglaterra é Manchester United (do também delicado Jaap Stam) com explosão de Arsenal e Chelsea nos últimos anos e o sempre presente e industrial Liverpool. Na Alemanha é Bayer de Munique do contido Oliver Kahn (o Hertha Berlin não figura nem entre os cinco primeiros). Na Itália da botinada é a Juventus de Paolo Montero, Milan de Gatuso, Internazionale de Materazzi e Felipe Melo e Napoli do recatado Maradona para só depois surgir a Roma. Na França, o L’Équipe publicou que apesar da explosão do PSG nos últimos anos, o Olympique de Marseille é o mais amado. Até na Rússia o Zenit de São Petersburgo toma a dianteira.

Outras cidades industriais ou portuárias que levantaram os campeonatos mais importantes europeus foram Nottingham, Birmingham, Porto, Dortmund, Eindhoven e Rotterdam, Glasgow. Glasgow que abriga uma das maiores rivalidades do mundo da bola entre Celtic e Rangers (a capital da Escócia é Edimburgo). Vale ainda citar os vice-campeões Saint-Étienne, Monchengladbach, Club Brugge e o Malmö. Precisando de algo para sentirem-se integrados às suas cidades, todos escolheram no futebol a extensão da sua morada. As fábricas vieram, os trabalhadores e tão logos os clubes tais como conhecemos hoje.

AS Saint-Etienne - Olympique de Marseille (1-0, 6th november 1938). Primeira jogo entre as duas equipes pela Liga Francesa de Futebol. Fonte: www.om4ever.com
AS Saint-Etienne – Olympique de Marseille (1-0, 6th november 1938). Primeira jogo entre as duas equipes pela Liga Francesa de Futebol. Fonte: www.om4ever.com

Quanto a Turim não podemos separar a história da Juventus e da montadora FIAT, além de Wolfsburg e Volkswagen e de Dortmund e região do Ruhr. Em Portugal a maior expressão internacional das últimas décadas se encontra em Porto. Na Turquia, a capital Ancara não vê lá muito sucesso nos gramados, pois deixa para a talvez última grande cidade europeia a experimentar a revolução industrial essa posição. Istambul e os sinônimos de fanatismo com Galatasaray, Fenerbahce e Besiktas nunca serão esquecidos.

Barcelona, Turim, Milão, Manchester e Istambul são exemplos de cidades em que os laços entre os moradores e as cidades se tornaram cada vez mais estreitos por causa do futebol. Os estádios são onde os vácuos emocionais são preenchidos. Bernard Tapie injetou dinheiro no Olympique de Marseille, assim como a família Agnelli no Juventus e John Hall no Newcastle porque eles queriam ser reconhecidos nas cidades onde nasceram por estarem associados àquilo que os moradores mais se identificavam. Se na Idade Média eles construiriam catedrais, hoje eles depositam suas fichas no futebol para ficarem marcados na história.

Não tem como falar de torcedores, arquibancada e sinônimo de paixão sem citar as organizadas Muralha Amarela (do Borussia), The Kop (do Liverpool) e Gate 13 (do Olympiakos). Os torcedores da terra da gelada em Munique, os Ultras (do Schalke 04) e os ingleses, sempre eles, do Milwall, do Crystal Palace e do West Ham. Os Dughi da Juve e as torcidas do trio turco. Os Magic Fans, a velha guarda do Saint-Étienne que chama pra si a criação da avalanche que ficou famosa no Brasil pela torcida do Grêmio, ao contrário do que dizem os argentinos. Os The Casuals do Celtic. A Fedayn (da portuária Nápole) que em árabe significa “por aqueles que vivo/devoto”. Que torcidas maravilhosas! E nenhuma delas nas capitais…

Antigo crystal palace stadium (fonte - newsshopper.co.uk)
Antigo crystal palace stadium (fonte – newsshopper.co.uk)

Apesar dos petrodólares que inundam o futebol, o negócio que tudo vem se tornando, podemos perceber que os clubes que vem do povo não são esquecidos com o tempo. Não tem fases, tem histórias. As histórias de clubes formados por operários são milhares. Assim como no restante das Américas e na Europa, o Brasil também encontra em cada reunião de trabalhadores, torcedores e amigos a formação de um novo time. Nada se compara ao torneio entre os setores da firma de fim de ano. Ainda vão aparecer Chelseas, PSGs e muitos outros por aí, mas no coração de cada apaixonado por futebol haverá aquele clube que será eterno. Futebol não é videogame, não é seleção belga. Futebol é paixão. Futebol é arquibancada. Futebol é o dia a dia do trabalhador. Futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais do que isso.

Parte 1 – http://cenaslamentaveis.com.br/futebol-religiao-leiga-do-trabalhador-parte-1/

Texto: Guilherme Campos de Moraes

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