Golden Generation, a seleção que mudou a história do futebol da Austrália – Parte I

A formação da maior seleção da Austrália

Kewell, a maior revelação do futebol australiano (Foto: ANDY HOOPER)
Por: Diego Giandomenico, PR

Era uma quente manhã de novembro. Acordei cedo, pouco além das 6h, e me preparei para assistir no SporTV Austrália e Uruguai. Mal sabia que aquele jogo entraria para a história do futebol australiano e consagraria o que viria a ser chamada de Golden Generation, um apanhado dos melhores jogadores que já vestiram a camisa dos Socceroos.

O pênalti batido por John Aloisi botou o estádio de Sidney abaixo e fez com que o australiano, finalmente, pudesse ver sua seleção na maior competição do planeta. Mas, claro, o trabalho dessa seleção foi muito além de uma simples conquista de vaga para a Copa do Mundo. Ela pavimentou o caminho do futebol na Austrália e fez com que os Socceroos fossem mais conhecidos e respeitados no cenário mundial.

Sim, parece que em algum momento da história, Deus coloca algo na água de alguns países e um surto de bons jogadores nasce ao mesmo tempo e se juntam para formar uma seleção de respeito. É isso que acontece atualmente com a seleção da Argélia, por exemplo. “Do nada” surgiram atletas como Mahrez, Slimani, Feghouli, Brahimi, Ghezzal, Bentaleb, Taider, entre outros e “boom”, temos uma forte seleção a caminho. Isso foi o que aconteceu com a Austrália.

A cabeça que levou a Austrália ao feito inétido, o holandês Guus Hiddink (foto: Dutch Soccer)
A cabeça que levou a Austrália ao feito inétido, o holandês Guus Hiddink (Foto: Dutch Soccer)

Na mesma época, surgiram para o futebol Viduka, Kewell, Cahill, Bresciano, Grella, Schwarzer, Neill, Moore, Emerton, Skoko, Aloisi, entre outros. Cada um apareceu de um lado das inúmeras ascendências que tem o povo australiano e juntos formaram a cara do país, uma mistura de povos e etnias, algo parecido com o que temos aqui. Os ingleses foram representados (Kewell, Neill, Moore, Emerton), os italianos (Bresciano, Grella, Aloisi), os croatas (Culina, Viduka, Skoko), os gregos (Lazaridis), os alemães (Schwarzer) e até os polinésios (Cahill, chegou a defender a seleção sub-20 de Samoa Ocidental). Enfim, essa miscigenação floresceu com o técnico Frank Farina (italiano) e terminou com Guus Hiddink (esse, holandês de verdade). Mas foi construída fora da Austrália, com basicamente todos os seus jogadores indo além-mar para fazer seu nome.

Jogadores fantásticos e onde eles jogavam

Kewell se profissionalizou pelo Leeds United. Fez história pelos whites com seus dribles, seus chutes certeiros e seus passes. Foi possivelmente a maior revelação do futebol australiano de todos os tempos. Infelizmente, suas lesões o prejudicaram muito na carreira. Nos áureos tempos, chegou a ser desejado pelos maiores clubes da Europa, como: Barcelona, Milan, Manchester United e outros. Fechou com o Liverpool e seu salário só era menor que o da estrela maior da companhia, Steven Gerrard.

Os australianos sempre se lamentam quando lembram tudo aquilo que Kewell poderia ter sido e que acabou nunca de fato entregando. Já os torcedores dos Reds se irritam ao lembrar dele na grande final da Champions de 2005, quando ele sai lesionado ainda no primeiro tempo. Alguns sequer queriam que ele recebesse a medalha de campeão, já que mais atrapalhou do que ajudou. Mas era essa a casa que ele defendia na época da Copa do Mundo. Inclusive ele estava no time que enfrentou o São Paulo na decisão do Mundial de 2005.

Viduka começou sua carreira na Austrália, no Melbourne Knights, e após o seu sucesso já no primeiro ano, foi comprado pelo Dínamo Zagreb da Croácia, lugar de seus antepassados. Lá ele ajudou e muito com seus gols. Foram 40 ao todo, que colaboraram para 3 títulos nacionais, 3 de copas e ainda ao feito inédito de chegarem a fase de grupos da UEFA Champions League. Todo esse sucesso lhe rendeu frutos e Viduka foi para o Reino Unido, mais especificamente para Celtic. Lá, seu estilo de jogo se encaixou perfeitamente com o estilo britânico. Foi eleito o jogador do ano na Escócia, marcando 27 gols no campeonato. Isso, claro, chamou a atenção do irmão maior da Escócia, a Inglaterra.

O Leeds venceu a disputa por Viduka e pôde contar com seus gols. Destaque para a partida em que ele marcou 4 gols contra o Liverpool. Detalhes sobre esse jogo: foi a primeira vez (e aparentemente a única) que um australiano fez três gols ou mais numa mesma partida e os companheiros de Viduka agarram tanto a sua camisa nas comemorações que ele perdeu a letra U do seu uniforme no final. Depois disso, Viduka viu a quase falência do Leeds e acabou indo para o Middlesbrough, clube que defendia na época da Copa. Lá chegou até a ganhar um cover de hallelujah do saudoso Leonard Cohen.

Cahill é o maior artilheiro da seleção australiana com 48 gols. E veja só, ele quase teve que defender a seleção da Samoa Ocidental. Tudo isso porque sua mãe é samoana e ele passava muito suas férias por lá. Numa dessas idas, foi convidado para representar a Samoa nas eliminatórias para a Copa do Mundo sub-20 de 94. Na época, Tim Cahill tinha apenas 14 anos e, mesmo assim, achou que seria legal passar um tempo na terra de sua mãe e visitar a sua vó. Só que devido a isso, ele ficou inelegível pela Austrália até 2004, quando as regras de seleção de jogadores mudaram.

Em 2002, Cahill chegou a receber um convite de Mick McCarthy para jogar a Copa do Mundo pela Irlanda, terra de seu pai, porém, os irlandeses esbarraram no mesmo problema que os australianos e desistiram. Cahill iniciou sua carreira no Millwall, mas fez história mesmo no Everton. Clube que tem ligações até hoje. Apesar de ter jogado as Copas de 2010 e 2014 como atacante, Cahill é meia e, assim, ele jogou a Copa de 2006.

Outros jogadores de destaque foram Schwarzer, que é um dos 10 jogadores com mais partidas na Premier League. Ele também conseguiu um feito inédito: foi bi-campeão da Premier quase sem entrar em campo por Chelsea e Leicester, sendo reserva de Cech e Schmeichel. Neill e Emerton eram homens de confiança no Blackburn. Grella e Bresciano figuravam no meio-campo de Empoli e depois Parma. Moore era xerifão da zaga do Newcastle. E por aí vai.

Ou seja, todos os jogadores da Golden Generation eram influentes em seus clubes. Não era de se surpreender que fizessem sua sucesso na seleção também. No próximo capítulo veremos como foi o feito de chegar até a Copa do Mundo de 2006.

Leia a segunda parte: http://cenaslamentaveis.com.br/golden-generation-selecao-que-mudou-historia-do-futebol-da-australia-parte-ii/

Fontes: The Guardian, Sunday Morning Herald, FIFA.

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