Golden Generation, a seleção que mudou a história do futebol da Austrália – Parte II

Pré, ao vivo e pós da Austrália na Copa do Mundo de 2006

Alegria e festa após a classificação da Austrália para a Copa do Mundo de 2006. (Photo: TORSTEN BLACKWOOD/AFP/Getty Images)
Por: Diego Giandomenico, PR

Leia a primeira parte: http://cenaslamentaveis.com.br/golden-generation-selecao-que-mudou-historia-do-futebol-da-australia-parte-i/

Pré-Copa: a angústia e o alívio de 20 milhões

A Austrália estreou nas eliminatórias apenas na segunda fase, quando enfrentou Ilhas Salomão, Nova Zelândia, Fiji, Taiti e Vanuatu. Austrália terminou em primeiro e enfrentaria o segundo colocado em duas partidas de ida e volta para saber quem ficava com a meia vaga da Oceania e enfrentaria o Uruguai. Só que, como venceu todo mundo, a Austrália poderia escolher seu adversário na última rodada, quando Nova Zelândia e Ilhas Salomão brigavam pelo segundo lugar. Os socceroos decidiram facilitar sua vida e empataram com a Ilhas Salomão, dando a eles o segundo lugar, um ponto à frente da Nova Zelândia.

Na “final”, a Austrália venceu Ilhas salomão por 7 a 0 e 2 a 1. Fim de papo. Agora só faltava o Uruguai, que haviam eliminado os australianos na última repescagem. Uma rivalidade esquisita havia surgido devido a isso, e perdura até hoje. Uruguaios e australianos não se bicam muito e isso se deve a esses confrontos nervosos das repescagens. Antes disso, tivemos a Copa das Confederações de 2005, que não foi lá muito boa para os Socceroos e Frank Farina. A Austrália perdeu as três partidas: 4 a 3 para a Alemanha, 4 a 2 para a Argentina e a pior de todas, 2 a 0 para a Tunísia. Isso resultou em briga nos vestiários e na demissão de Frank Farina depois de quase 10 anos no cargo.

Faltava muito pouco para a repescagem e os Socceroos estavam sem treinador. Aí apareceu o anjo salvador, Guus Hidink. O holandês ficou famoso após a grande campanha que fez com a Coreia do Sul na Copa de 2002 ,e agora tinha um grande desafio: classificar os australianos para a Copa depois de 32 anos. A repescagem é algo que dava calafrios neles, já que haviam sido eliminados nela 4 vezes desde 88. Nunca haviam ganhado.

A Argentina de Maradona já havia sido carrasco da Austrália em 93 (foto: daily mail)
A Argentina de Maradona já havia sido carrasco da Austrália em 93 (Foto: Daily Mail)

Na primeira partida, em Montevidéu, os Socceroos tiveram que enfrentar a paixão de 55 mil uruguaios no Centenário. A celeste contava com jogadores como Recoba, Forlán e Dario Rodriguez, autor do gol da partida. Apesar da pressão que é jogar por lá, foi uma partida bem melhor do que a da última repescagem, quando perderam por 3 a 0. Um resultado possível de ser revertido e que seria decidido em seus domínios.

Guus Hidink fez uma convocação em massa para a decisão. Foram mais 82 mil pessoas no estádio e mais de 100 mil fora dele. Uma nação inteira se mobilizou para empurrar os Socceroos. Em campo, Hidink decidiu ir com 3 zagueiros. Kewell acabou sobrando e ficou no banco de reservas, mas a entrada dele mudaria a partida. Eram 31 minutos de jogo, nervos a flor da pele, suor e tensão por todos os lados. Nesse momento, o técnico holandês decide trocar Popovic (o jogador e não a apresentadora) e colocar Kewell. Pouquíssimo tempo depois, Kewell trabalha a bola com Cahill na direita, recebe ela de volta na parede que Viduka faz, tenta o chute cruzado que, mascado, vai parar nos pés de Bresciano. Ele estufa e faz a alegria de todos, 1 a 0 Austrália. Resultado suficiente para levar a disputa para os pênaltis. Lá, teríamos dois heróis principais: Schwarzer e Aloisi.

O já veterano goleiro na época mostrou porquê é o australiano com maior número de jogos na Premier League com duas defesas essenciais nas batidas de Dario Rodriguez e Zalayeta. No fim, Aloisi, o herói improvável, fez o gol que garantiu a Austrália numa Copa do Mundo após 32 anos de espera.

Copa do Mundo: sonhar é um passo para levantar voo

Para a Copa do Mundo, Austrália pôde contar com basicamente todos os seus principais jogadores. Kewell, Cahill, Viduka, Schwarzer, Neill, Emerton, Moore, Grella, Bresciano e o canstrão do Aloisi. Em seu grupo, Brasil, Croácia e seus futuros rivais, o Japão. E na estreia, os Socceroos enfrentaram o Japão comandado pelo ídolo nipônico, Zico. A partida se mostrou pegada e gol um polêmico, Nakamura abriu o placar para o Japão.

Placar que permaneceria desse jeito até os 39 minutos do segundo tempo, quando Cahill aproveitou a bagunça na área japonesa e marcou o primeiro gol da Austrália em uma Copa do Mundo, o primeiro dos 5 que ele fez ao longo das 3 copas que disputou. O segundo veio aos 44, virando a partida e levando a loucura todos os aussie que estavam presentes em Kaiserlautern. Três minutos mais tarde, Aloisi jogou a última pá de cal em cima dos samurais azuis, 3 a 1 e fim de papo.

John Aloisi comemora o terceiro e derradeiro gol da Austrália contra o Japão (foto: mooiness)
John Aloisi comemora o terceiro e derradeiro gol da Austrália contra o Japão (foto: mooiness)

Frente a maior seleção do mundo, a Austrália fez uma sólida partida, inclusive incomodando algumas vezes o goleiro Dida. Porém, Didico e Fred fizeram os gols da vitória brasileira, deixando a disputa da vaga no confronto entre Croácia e Austrália, um confronto aliás muito aguardado, já que, como eu disse lá no começo, existem muitos descendentes de croata na Austrália, um deles era Mark Viduka, que quase defendeu a seleção dos balcãs quando mais jovem. Já Josip Simunic, jogador que foi o personagem do acontecimento mais bizarro da partida, nasceu na Austrália, mas preferiu defender a terra de seus ancestrais.

O jogo começou com um golaço do eterno Srna, de falta. Depois, a Austrália tentou correr atrás do prejuízo, até que achou um pênalti, convertido pelo zagueirão Craig Moore. O placar era favorável à seleção australiana, mas o goleiro reserva, Kalac (que jogou no lugar do lesionado Schwarzer), fez uma lambança daquelas e jogou para dentro o fraco chute de Kranjcar. O  desespero tomou conta da Austrália, que partiu com tudo que tinha. Os atacantes John Aloisis e o gigante Joshua Kennedy entraram na partida para pressionar os croatas, porém, o gol veio do pé daquele que os australianos mais amavam e menos esperavam, Harry Kewell. Se ele foi menos do que poderia ser no cenário internacional onde atuou muito bem enquanto tinha saúde, na seleção australiana ele nunca encantou ninguém. Até aquele lance.

A narração em inglês diz tudo: “Harry Kewell has done it. Australia’s golden boy come out with the golden goal… It’s just had to be Harry…” (em bom português: Harry Kewell conseguiu. O garoto de ouro da Austrália acaba de fazer um gol de ouro… Apenas tinha que ser o Harry). Depois disso, três jogadores foram expulsos. Um deles, Simunic, saiu depois de ter tomado TRÊS CARTÕES AMARELOS. Acho que foi tanta emoção que o árbitro se desligou completamente do jogo. Ao final, vaga para a Austrália, que enfrentaria a Itália.

Verdade seja dita. A Itália nunca achou que poderia perder aquela partida. Luca Toni perdeu alguns gols, como sempre. O time parecia que tinha o controle, apesar da posse de bola ser bem maior para os australianos. A Austrália lutava sem seu herói e craque, Kewell se lesionou – novidade – e não ficou nem no banco – novidade de novo. Mas no segundo tempo, um fato mudou a partida. Materazzi agride Bresciano em campo e é expulso direto. Com um a menos, a Itália se perdeu e Austrália começou a dominar o jogo. Criou chances, quase fez com Culina. A Itália, resignada, parecia perdida e entregue.

Se a partida fosse para a prorrogação, o time não teria oportunidade alguma, já que Hidink havia feito apenas uma substituição e tinha mais duas para os 30 minutos de decisão. Porém, um fator mudou tudo, a malandragem. Fabio Grosso entra na área, dá um corte em Neill e após isso cai no chão, num lance bem fácil de não cair. Mas o querido árbitro Luis Medina Cantalejo caiu feito um pato e apitou um pênalti aos 47 minutos, último lance. É nessas horas que você vê como uma camisa pode “pesar”. A responsabilidade ficou nos pés de Totti, que bateu bem e acabou com o sonho australiano.

O polêmico lance que acabou com o sonho australiano em 2006. (foto: CDN)
O polêmico lance que acabou com o sonho australiano em 2006 (Foto: CDN)

Pós-Copa: o que sobrou de toda essa aventura?

O sucesso da Austrália não foi somente em campo. Fora dele, muitos garotos se apaixonaram pelo esporte e um liga foi criada no país, a A-League. Hoje, jogadores da Austrália não atuam somente na Inglaterra, mas também na Alemanha, Itália, Espanha, Holanda, Ásia e muitos outros. O último laço que existe entre o atual time e a Golden Generation é Tim Cahill. O veterano de 37 anos continua a jogar futebol e ainda sonha em jogar a Copa de 2018. Isso mostra que, quando os deuses do futebol se unem para criar um geração de sucesso num país, o esporte só tem a crescer.

Fontes: The Guardian, Sunday Morning Herald, FIFA.

1 Trackbacks & Pingbacks

  1. Golden Generation, a seleção que mudou a história do futebol da Austrália - Parte I - Cenas Lamentáveis

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*