Grandes finais e a ausência de gols

Finais com duas chances de gol, no máximo, para cada lado apetecem a quem?

Ninguém conseguiu (Divulgação: Cruzeiro)
Ninguém conseguiu (Divulgação: Cruzeiro)
Por Ricardo Santos, RS

Mais uma grande final de campeonato com 0 x 0. Ausência de gols, presença de angústia. Este é o panorama contemporâneo de um futebol jogado como xadrez, de duelos táticos e físicos no seu ápice, deixando ele, o gol, como um protagonista esquecido.

No duelo entre Cruzeiro x Flamengo, justificou-se a falta de criação do jogo no Mineirão a fatores como o nervosismo, o temor pela derrota e até mesmo a falta de jogadores com potencial definidor. Ora, Diego Ribas e Thiago Neves estavam, um de cada lado, como representantes do bom futebol — mesmo que a fase dos jogadores possa ser contestada.

No entanto, em competições de nível continental e global, este argumento da falta de qualidade cai por terra, pois temos como exemplos os principais jogadores do mundo no instante derradeiro.

Eurocopa 2016

Na competição mais importante da Europa, em termos de seleções, Portugal x França prometiam uma final grandiosa. De um lado, o melhor jogador do mundo, Cristiano Ronaldo, no auge com seu potencial de definição de jogadas. Do outro, a seleção dona da casa, com Copa do Mundo no currículo e um elenco fortíssimo.

E o que vimos nos 90 minutos?

Um jogo de poucas chances claras, muita proteção defensiva e o maldito 0 x 0, aquele que esconde o orgasmo do futebol – o gol – em suas formas arredondadas de puro sofrimento, prestes a trazer os pênaltis como agonia final aos taquicárdicos. Sorte de quem gosta de ver as redes balançarem é que Éder, o figurante do espetáculo, desavisado quanto ao acordo de cavalheiros de não-agressão, entrou e colocou a vitória do lado luso da força.

Os badalados Cristiano Ronaldo e Griezmann passaram em branco na final da Euro 2016 (Foto: divulgação na internet)
Os badalados Cristiano Ronaldo e Griezmann passaram em branco na final da Euro 2016 (Foto: divulgação na internet)

Copa América 2015 e 2016

Ainda se tratando de competições continentais, Chile e Argentina proporcionaram uma dobradinha de desespero. Foram 240 minutos, contando tempo normal e prorrogações, e nenhum golzinho sequer. Seja na competição de 2015, tratada como oficial, ou na comemorativa de 2016, realizada nos Estados Unidos, chilenos e argentinos não acharam o caminho do gol, mesmo com tantos craques em campo — Messi do lado alviazul e Alexis Sánchez do lado tricolor.

Novamente, temor pela derrota e equipes buscando controlar o jogo na faixa do meio-campo. E o Higuaín? Bom, o atacante mais uma vez mostrou como a tensão pode prejudicar alguém que leva o ato de fazer gols como seu ofício. Por que “mais uma vez”? A Copa do Mundo no Brasil já havia marcado a não-consagração do centroavante.

Chile conquistou a Copa América de 2015 nos pênaltis (Foto: AP Photo/ Andre Penner)
Chile conquistou a Copa América de 2015 nos pênaltis (Foto: AP Photo/ Andre Penner)

Copa do Mundo 2014

E para a demonstração final de que as finais têm exemplificado o protecionismo do futebol moderno, poupando o torcedor de ter os golaços (as joias) sob os olhares esperançosos, o maior campeonato do futebol.

Na final entre Alemanha e Argentina, nada de gols nos 90 minutos. E, provavelmente, balançar as redes não era um problema para os alemães, tendo em vista o que fizeram com o Brasil. A solução dos argentinos foi fazer um jogo bastante físico. Não me atreveria a dizer que a final foi um jogo ruim, longe disso. Entretanto, ficou a desejar por tudo o que se viu na Copa do Mundo espetacular que sediamos. O templo do futebol merecia mais gols. Higuaín, aquele citado anteriormente, esbanjava gols no campeonato italiano mas perdeu a chance mais clara daquele duelo de tabuleiro feito por Joachin Low e Alejandro Sabella.

Coube à Gotze decidir a final, marcando somente na prorrogação.

Higuaín perdeu chance clara na final da Copa do Mundo de 2014. (Foto: Foto: Getty Images)
Higuaín perdeu chance clara na final da Copa do Mundo de 2014. (Foto: Getty Images)

O futebol evoluiu em muitos quesitos; é inegável. Temo, contudo, que os conceitos táticos em demasia e a evolução máxima da preparação física tornem o jogo tão emperrado, trancafiado nos seus “nós táticos” e nos seus cinco zagueiros, que a magia do esporte, o gol, fique em escassez. Não estou dizendo que um jogo bom é um 4 x 3, necessariamente, apesar de ser uma maravilha esse placar. Somente que ao pararmos as rotinas dos nossos dias, para acompanharmos o rito sagrado que é uma partida de futebol, vejamos times em busca do gol, tendo mais a vontade de ganhar do que o medo de perder.

Finais com duas chances de gol para cada lado apetecem a quem?

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