Grandes rivalidades sul-americanas: Cerro x Rampla Juniors

Albicelestes e Picapiedras dividem a Villa del Cerro em um duelo com 90 anos de história

Albicelestes e Rojiverdes dividem o bairro da zona oeste de Montevidéu (Foto: Tenfield)
Por Dudu Nobre, PR

Um clássico pode surgir por várias motivações. Um jogo inesquecível, um título disputado, questões políticas e ideológicas… Mas o principal fator capaz de criar um clássico é a proximidade territorial. Em um país como o Uruguai, que tem uma área de 176.215 km² (um pouco maior que o estado do Acre), essas disputas podem nascer a cada esquina.

Um dos principais duelos uruguaios tem como cenário a Villa Del Cerro, bairro da zona oeste da capital que fica às margens da Baía de Montevidéu. Separados por uma distância de 3,2 km, Club Atlético Cerro e Rampla Juniors Fútbol Club protagonizam o Clásico de la Villa, que desde 24 de abril de 1927 mobiliza a comunidade local.

O Rampla Juniors já conquistou o Campeonato Uruguaio em 1927 (Foto: Ariel Colmegna - Ovación)
O Rampla Juniors já conquistou o Campeonato Uruguaio em 1927 (Foto: Ariel Colmegna – Ovación)

O Rampla é a agremiação mais antiga. Fundado em 1914, carrega as cores vermelha e verde, duas versões tentam explicar a escolha das cores: uma conta que é uma homenagem a um barco que desembarcou no Porto de Montevidéu e apresentava essas tonalidades; a outra diz que o clube traz as cores do antigo Fortaleza del Cerro, que havia sido extinto pouco tempo antes. Já o nome Rampla vem de uma rua do bairro Ciudad Vieja, local onde o time foi fundado (hoje se chama Rua La Marsellesa).

Em 1919, o Rampla atravessou a Baía e se instalou no campo do Frigorífico Swift, um dos vários que existiam na Villa Del Cerro no final da década de 1910. O Frigorífico foi a casa da equipe por quatro anos, quando fincou raízes no estádio Parque Nélson (menção a Horace Nelson, Almirante da marinha britânica).

O estadio Olimpico fica as margens do Rio da Prata (Foto: Reprodução - Paredvirtual)
O estadio Olimpico fica as margens do Rio da Prata (Foto: Reprodução – Paredvirtual)

Inicialmente a estrutura era de madeira, mas havia um grande desgaste a cada jogo. Nos anos 1960 houve uma reforma para montar uma estrutura de concreto. Como durante a obra muitas pedras eram quebradas para construir a fundação, o Rampla e seus torcedores passaram a ser conhecidos como Picapiedras. Reinaugurado em 1966, o estádio passou a se chamar Olimpico e apresenta uma curiosidade: não tem arquibancadas em um dos lados. Como fica próximo a Baía, é comum ver algumas bolas pararem no Rio da Prata.

Logo de cara El Rojiverde já conquistou uma parcela de torcedores do bairro. Mas um grupo de moradores mais tradicionalista não gostou da chegada da equipe forasteira. Para combater o Rampla e criar uma agremiação mais identificada com a vila, 11 dirigentes de times amadores do bairro se reuniram no Café de Panizzi em 1 de dezembro de 1922 para fundarem o Club Atlético Cerro.

Cerro disputou a pré Libertadores em 2017 (Foto: Reprodução - Prensafutbol)
O Cerro disputou a pré Libertadores em 2017 (Foto: Reprodução – Prensafutbol)

Quanto às cores do clube, um fato curioso. Cada mandatário queria os tons de seus antigos clubes. Para resolver a contenda, foi realizado um torneio entre as 11 equipes. O Oriental venceu e impôs o azul celeste e o branco.

Inicialmente o Cerro teve o Parque Santa Rosa como casa, mas em 1935 mudou-se para o terreno onde está atualmente. O estádio, que no início era Parque Demetrio Arana, foi reformado e em 1964 passou a ser Luis Tróccoli (homenagem a um ex presidente da agremiação). O charme do estádio atual fica pelo nome dado às arquibancadas: Argentina (onde ficam às equipes de transmissão), Paraguai (à esquerda), Chile (à direita) e Brasil (no lado oposto).

Além de ter presidido o Cerro, Luis Tróccoli foi jornalista e Senador (Foto: Juan Pablo Romero - Ovación)
Além de ter presidido o Cerro, Luis Tróccoli foi jornalista e Senador (Foto: Juan Pablo Romero – Ovación)

O primeiro clássico entre Cerro e Rampla Juniors ocorreu em 24 de abril de 1927 e terminou com vitória Rojiverde por 2 a 0 em pleno Santa Rosa. De lá pra cá, foram mais 89 pelejas entre as duas equipes com 35 vitórias Albicelestes, 28 empates e 27 triunfos dos Picapiedras. A maior goleada aplicada pelo Rampla foi um 4 a 0 em 1959, enquanto que o Cerro fez 5 a 0 em 2006. Além de terem mais vitórias no total do confronto, os Cerrenses defendem uma invencibilidade de nove anos em clássicos, são seis vitórias e seis empates.

O próximo Clasico de La Villa está marcado para dia 14 de maio no estádio Luis Tróccoli, pela última rodada do campeonato uruguaio. O confronto pode não ter a mesma projeção internacional de Nacional e Peñarol, mas o valor histórico das equipes e o espetáculo de duas torcidas apaixonadas são o combustível de um duelo de tirar o fôlego que sempre faz Montevidéu parar pra assistir.

Fontes: Aguantenche, Asociación Uruguaya de Fútbol, Futebol na América do Sul, La Nación, LaRed21, Ovación, Paredvirtual, Prefeitura de Montevidéu, Republica, Site oficial Cerro, Tenfield, Vice.

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