Grêmio, 114 anos de imortalidade

Depois de tanto tempo, gremistas têm o que comemorar

Jogadores do Grêmio erguendo a taça do Pentacampeonato (Jefferson Bernardes / AFP)
Por Marcella Lorandi, RS

Finalmente há o que comemorar, depois de 15 tumultuados aniversários, há o que comemorar.

O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense nasceu no centro de Porto Alegre, no coração da capital gaúcha. Trinta e dois homens, que ainda desconheciam, mas que seriam responsáveis pela razão e emoção da vida de muita gente, estes fundaram o Tricolor. Naquele 15 de setembro de 1903 eles sequer imaginaram que estavam diante de um clube vencedor, gigante e imortal.

O Grêmio é feito de gente, com alma e coração, e inicialmente essa história poderia ser narrada com a voz, e as mãos, do goleiro Eurico Lara. A lenda contada pelos mais antigos é que Lara morrera pelo Grêmio.

Mais tarde, por um grande passo em sua história, a contratação do lateral direito Tesourinha, oficialmente (com solenidade e as devidas apresentações) o primeiro atleta negro da história do clube.

E se um grande monumento falasse, o Estádio Olímpico Monumental iria pedir a licença da palavra. Ele já viu, ouviu, sentiu e viveu tanta coisa que seria uma irresponsabilidade não deixá-lo contar essa história. E o que o Olímpico quer contar é que uma história tão vitoriosa nem sempre foi escrita por uma geração de 95. E, meu amigo, os últimos anos foram os mais difíceis. Ele viu uma sala de troféus iniciar seus trabalhos com taças de campeonatos citadinos, viu Gre-Nais, viu regionais, nacionais, continentais, mundiais e quantos mais “ais” você conseguir contar. Um amontoado de memórias que só um estádio “Monumental” poderia narrar, não é mesmo?! Então senta e se acomoda, porque as glórias são longas e os tropeços são doloridos.

São 114 anos lutando. São triunfos imponentes e também fracassos retumbantes. Mas em qualquer meio tempo ganhando taças, estrelas e torcedores, é só olhar ao seu redor: são milhares vestindo azul, preto e branco. Mas nunca em sua história um jejum apunhalou tanto os corações tricolores como os últimos 15 anos. Mais do que nunca os torcedores precisaram se afeiçoar às glórias passadas e às divindades lá de cima (afinal, o céu não deve ser azul à toa) para seguir vestindo a camisa e frequentando a casa gremista, com a esperança que se renovava a cada campeonato.

Pois é, meu amigo. Teve a geração que aguentou firme nunca ter visto um título expressivo do seu time, a geração que viu o Grêmio ganhar de tudo e depois aguentou firme o rival vivendo suas glórias, e a geração pentacampeã da Copa do Brasil.

Copa essa que o Grêmio havia visto pela última vez com Tite, em 2001, contra o Corinthians. Desde então viveu gestões despreparadas e se arrastou financeiramente. Comemorou o ano do centenário em 2003, fugindo do rebaixamento até a última rodada, e caiu para a segunda divisão no ano seguinte. Em 2005, a disputou epicamente e retornou à Série A vencendo o Náutico — na partida que ficou conhecida como Batalha dos Aflitos, uma aula de imortalidade na prática. Nesses 15 anos a glória mais iminente foi a final da Copa Libertadores de 2007, perdida para o Boca Juniors, de Riquelme.

O Grêmio montou elencos, trouxe ídolos, revelou promessas, vendeu atletas, contratou hermanos, trocou de estádio… e nunca mais ergueu uma taça expressiva, digna de uma Goethe lotada.

Pacaembu - Final da Copa do Brasil de 2001
Final da Copa do Brasil de 2001 (Eduardo Knapp – Arquivo/Folhapress/Digital)

Aí veio 2016, e não sejamos hipócritas, você gremista deve lembrar que não estava feliz quando comemorou os 113 anos de história. O técnico Roger, a grande revelação do Brasileirão, vivia uma decadência no campeonato. Os resultados negativos e a derrota de 3 x 0 para a Ponte Preta acabaram com qualquer expectativa de vaga via Brasileiro para a Libertadores. A derrota acabou também com o trabalho de Roger pelo Grêmio — ele mesmo entregara o cargo às vésperas de um 15 de setembro.

Mais um aniversário conturbado, e mais um ano que qualquer gremista já esperava, com um bônus: neste, o rival estava mal. Quem sabe um insucesso colorado servisse de consolo (mais uma vez). Sorte, ceticismo, santidades, seja lá qual for a sua crença. Mas foi num 18 de setembro que Renato Portaluppi, o Homem Gol, assumiu o comando Tricolor, para devolver aos gremistas os gritos que lhes foram calados.

No seu primeiro desafio, as oitavas de final da Copa do Brasil com uma disputa de pênaltis em casa, contra o Atlético-PR, triunfo gremista e estrela do goleiro Marcelo Grohe. Depois, o poderoso Palmeiras, o Cruzeiro e finalmente a final contra o Atlético-MG. Que trajetória linda! Grêmio pentacampeão, e Renato mais ídolo do que nunca.

Jogadores do Grêmio erguendo a taça do Pentacampeonato
Jogadores do Grêmio erguendo a taça do Pentacampeonato Jefferson Bernardes / AFP

Feliz aniversário, Grêmio! Que tua história ainda encante, que tuas cores doutrinem multidões e que tua camisa siga sendo uma religião.

Finalmente há o que comemorar.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*