Há três décadas, o atacante Gaúcho vivia uma noite de goleiro

O camisa 9 do Palmeiras defendeu dois pênaltis em pleno Maracanã

Gaúcho provou conhecer bem a grande área, tanto fazendo gols quanto evitando a alegria dos adversários (Foto: Cesar Diniz / Agência Estado)
Por Dudu Nobre, PR

“Daqui a uns 30 anos, quando Gaúcho for relembrar para seus netos as histórias dos gols que marcou como centroavante, a noite de 17 de novembro de 1988 merecerá um capítulo especial”. O texto de abertura da Revista Placar sobre o jogo entre Flamengo e Palmeiras pela Copa União de 1988 resumiu bem a história de um camisa 9 que contrariou seu próprio instinto e teve uma noite ímpar embaixo das traves.

Uma história com final bem mais emocionante do que se previa antes da bola rolar. Alviverdes e rubro-negros foram meros figurantes no primeiro turno daquele Brasileiro, sendo que a equipe paulista foi a vice-lanterna em um grupo com 12 clubes. Na estreia dos times no segundo turno, quatro dias antes, novas decepções: o Palmeiras empatou com o rival São Paulo e o clube carioca perdeu para o Inter no Beira-Rio.

Era uma noite de recomeços, tanto para as equipes quanto para Gaúcho. O atacante havia sido revelado pelo próprio Flamengo em 1982, mas não se firmou e rodou por vários clubes durante a década: XV de Piracicaba, Grêmio, Verdy Kawasaki-JAP, Santo André… No Alviverde de Palestra Itália, ainda não era titular no esquema de Enio Andrade, começando aquele jogo como reserva de Mauro e Tato.

Revelado pelo clube da Gávea, Gaúcho foi o algoz flamenguista naquela noite (Foto: Eurico Dantas / Agência O Globo)

O primeiro tempo foi gelado como se esperava, mas no segundo as coisas mudaram  quando o time da casa foi para cima e o Palmeiras passou a ser mais ríspido na marcação, o que gerou a expulsão do lateral Denys. Mesmo com dez atletas, o Alviverde saiu na frente com gol de Mauro.

No prejuízo, o Rubro-Negro foi com tudo, mas o gol não saía. Nos acréscimos, Bebeto foi lançado e dividiu forte com Zetti, que levou a pior. O goleiro fraturou a tíbia e a fíbula (dois ossos) da perna direita, ficando engessado por 45 dias. O impacto foi tão grande que Zetti se casou de muletas e o fato o atrapalhou na busca por uma vaga na Copa de 1990 – o que no final não se concretizou.

Voltando ao jogo, o Palmeiras já havia feito as duas substituições permitidas à época, e alguém da linha precisaria assumir as luvas. O zagueiro Heraldo se prontificou pela altura, mas Gaúcho chamou a responsabilidade. Na primeira bola, Bebeto cabeceou e ele levou um gol no último lance da peleia.

O regulamento previa que as partidas não poderiam terminar empatadas, e que uma disputa de pênaltis iria definir quem ficaria com o ponto extra. Na teoria, a moral do centroavante estaria abalada com o gol sofrido, mas ele não vacilou quando entrevistado pelo saudoso Marcelo Rezende: disse na tela da Rede Globo que iria defender uma cobrança.

Realmente as palavras têm poder. Além de fazer seu gol, defendeu as cobranças de Aldair e Zinho, que seriam campeões do mundo em 1994, e o Palmeiras venceu a contenda.

Se para o clube o resultado não mudou muito o panorama ruim que vivia, para o centroavante aquela noite foi o ponto de partida para a ascensão na carreira, tanto que voltou à Gávea em 1990 e conquistou a Copa do Brasil daquele ano, além do Campeonato Brasileiro em 1992.

Infelizmente, Gaúcho não conseguiu cumprir a previsão da revista, pois acabou falecendo em 2016. Mas a façanha se perpetuou: acostumado a balançar as redes, por uma noite Gaúcho vibrou por evitar o momento máximo do futebol.

Fontes: Futpedia, Globoesporte.com, Livro “Os 11 Maiores Goleiros do Futebol Brasileiro”, Placar e Terceiro Tempo

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