Heleno de Freitas: Explosivo como meteoro, eterno como poucos

Heleno, o primeiro craque "bon-vivant" do Brasil

Heleno. Craque, galã e bom vivant (Foto: Arquivo da família)
Por Daniel Bravo, MG.

Amigo torcedor, amigo leitor, Esse mesmo autor que escreveu sobre Dr. Sócrates e toda sua conturbada e histórica carreira, vem falar sobre mais um dos grandes jogadores do Brasil e mais um jogador problema, aliás, o primeiro deles: Heleno de Freitas. Mineiro de São João Nepomuceno, Heleno teve uma curta, mas marcante vida. Do auge no futebol e com as mulheres, até a morte solitária em um sanatório. Chegou a hora de caminhar pela vida de um dos maiores craques da história desse país.

Heleno era um craque de gênio forte e explosivo, brigava com os próprios companheiros e não aceitava nada menos que a vitória. Se entregava ao máximo e muitas vezes pagou o preço por não se colocar limites. O Galã, como era visto, começou sua carreira no Botafogo, clube que aprendeu a amar e se entregar a cada partida. Em campo, era um matador que, ainda hoje, após mais de 60 anos figura na lista de maiores artilheiros do clube da estrela solitária. Foi o 4º jogador que mais marcou pelo clube carioca.

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Passagem breve, porém marcante pelo Boca Juniors (Foto: Reprodução internet)

Heleno atuou por outros clubes. Uma de suas passagens foi pelo Boca Juniors e rendeu uma de suas histórias mais curiosas. Heleno já convivia com pequenos surtos de insanidade quando foi treinar de sobretudo, mas o jogador somente disse que estava com frio e continuou a treinar. No clube argentino ficou pouco tempo e marcou 7 gols. Jogou ainda pelo Vasco, aonde conquistou seu único titulo, e também pelo América RJ, Junior Barranquilla e pela seleção brasileira. Muitos também falam do triste fato de Heleno não ter disputado as Copas de 42 e 46, que não aconteceram devido à Segunda Guerra Mundial e poderiam ter mudado tanto a história brasileira quanto a do craque.

Fora de campo é preciso cautela e muita atenção para falar e entender quem era esse marcante jogador. Egocêntrico, galã, gosto refinado e até um personagem de si mesmo. Vaidoso, gostava de belas mulheres e bons carros. Heleno foi, possivelmente, o primeiro jogador popstar. Pela vaidade, ganhou apelido de Gilda, em referência à personagem interpretada por Rita Hayworth, apelido esse do qual odiava.

A família de Heleno se recorda dele com uma outra imagem. Um homem carinhoso e gentil, que conversava e brincava com as sobrinhas e respeitava o irmão. O ponto fora da curva foi um filho com quem pouco conviveu e quase não falava. O filho, fruto do casamento com Ilma, sua única esposa, não conheceu o pai mas criou, após várias histórias e filmes, a imagem de como ele seria.

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Personalidade forte, Heleno desconhecia limites (Foto: Reprodução internet)

Personagem marcante na vida carioca dos anos 40, ele possuía aquilo que era preciso para ser um homem importante da época: beleza, fama e dinheiro. Estas eram as credenciais de Heleno ao “Clube dos Cafajestes”, dos jovens ricos e rebeldes. Levava uma vida boêmia e foi daí que tirou o seu triste fim. A vida agitada lhe fez contrair sífilis, descoberta já em estágio avançado. Pior ainda era o vício em lança-perfume, além de éter. Toda essa junção foi explosiva. Heleno de Freitas, que já tinha uma personalidade das mais instáveis, começou a dar sinais também de loucura .

O triste fim do craque-problema parece mesmo história de filme, daqueles amargos e tristes. Era apaixonado pelo futebol, mais ainda pelo Botafogo, time que o negou após conseguir ser campeão sem Heleno. Fez da bola sua vida, suas brigas eram por se ver como perfeccionista e querer que todos fossem assim. Quando viu sua carreira se encerrar, já doente e meio louco, foi se entregando. Internado em um sanatório, passava horas e horas do dia relembrando os tempos de bola e faleceu em um domingo, o dia do futebol.

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Com interpretação fantástica, Santoro reviveu Heleno no filme “Heleno de Freitas – O príncipe maldito”. (Foto: Filme Heleno)

Heleno de Freitas, um eterno ídolo e marco do futebol brasileiro, o primeiro craque bon-vivant, de carreira que poderia ter sido muito maior, mas que, assim como ele, foi marcante à sua forma, genial e eterna.

O que falaram do craque-galã

“Em nenhum caso uma partida da qual participe Heleno tem probabilidade de se transformar num logro, porque vaiar, da mesma maneira como aplaudir, é uma forma coletiva de reconhecer publicamente um fato.”

Gabriel Garcia Márquez, escritor colombiano, vencedor do prêmio

“Heleno de Freitas tinha pinta de cigano, cara de Rodolfo Valentino e humor de cão raivoso. Nas canchas, resplandecia. Uma noite, perdeu todo o seu dinheiro no cassino. Outra noite, perdeu não se sabe onde toda a vontade de viver. E na última noite morreu, delirando, num hospício.”

Eduardo Galeano, escritor uruguaio

“Heleno foi visitar um amigo doente. E então aconteceu o seguinte: todas as mulheres da casa, da avó à lavadeira, apaixonaram-se por ele.”

Nelson Rodrigues, jornalista e dramaturgo

“Heleno de Freitas, o craque das mais belas expressões corporais que conheci nos estádios, morreu, sem gestos, de paralisia progressiva e descansa, hoje, no cemitério de São João Nepomuceno, onde nasceu um dia para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça.”

Amando Nogueira, jornalista

“O grande Heleno de Freitas, o deus das cabeçadas, que deslumbrou plateias do mundo, envergando, entre outras, as gloriosas jaquetas do Botafogo e do Boca Juniors. (…). Aquele que aqui na terra foi um deus, que multiplicou gols como se gols fossem peixes.”

Roberto Drummond, escritor e ex-colunista do Estado de Minas

 

Fontes: Globoesporte e Superesportes.

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