Invictus: campanha da Nova Zelândia em 2010

O sucesso da Nova Zelândia na Copa do Mundo da África

All Whites em 2010 (foto: Stuff NZ)
Diego Giandomenico, PR

A Oceania é um continente de arquipélagos meridionais, com paisagens paradisíacas, a fama de serem extremamente perigosos para se viver (seja por catástrofes naturais ou por animais bizarros), que tem como seus expoentes países como Austrália e Nova Zelândia.

Rugby, um esporte oceânico

É fato que uma colonização sempre impacta os costumes de um povo. Num lugar onde aborígenes e tribos polinésias imperavam tranquilamente, a invasão britânica transformou os costumes e transformou um continente inteiro em apaixonados por um esporte de contato, de homens que lutam até o final, que guarda emoções até o último minuto, disputado em gramados sob qualquer condição climática, o rugby ou rúgbi ou râguebi. É incrível que a colonização britânica tenha feito isso e produzido diversas nações que são potências no esporte. Para se ter uma noção, das 20 vagas disponíveis para a maior competição de rugby entre seleções, 5 vão para a Oceania. Eu não digitei errado e você não está maluco. São 5 vagas, 25% destinados ao continente oceânico. Claro, o método de classificação da Copa do Mundo de Rugby é diferente. Nele, 12 seleções já garantem vaga conforme o desempenho da edição passada. Ou seja, é bem difícil de haver grandes mudanças de uma edição para a outra.

Mesmo assim, a força da Oceania surpreende. Austrália, Fiji, Samoa e Tonga são seleções duríssimas. Os Wallabies, como são conhecidos os australianos, tem grande força e são bi-campeões mundiais. O Fiji foi campeão olímpico entre os homens no rugby sevens aqui no Brasil. Mas o grande nome desse continente é a Nova Zelândia, mais conhecida como All Blacks. Seja pelo Haka, pela forma impiedosa que vence seus adversários ou por ser o maior campeão de rugby com três títulos, um vice, dois terceiros e sempre entre os oito melhores em todas as edições. Essa é a temida Nova Zelândia.

All Blacks, o contrário dos All Whites (foto: YouTube)
All Blacks, o contrário dos All Whites (foto: YouTube)

Porém quando continuamos em esportes bretões, em gramados, com multidões e apenas trocamos a bolas e uma ou outra regra, a Nova Zelândia se perde. Fica sem o Haka, se transforma em All Whites e se classificou apenas duas vezes para a Copa do Mundo. A Oceania por sinal, força impressionante no rugby, sequer tem uma vaga direta para o mundial mais famoso do mundo. Mas se há orgulho para os nossos amigos pastores de ovelhas e amantes de esportes radicais, foi a campanha de 2010. Para conta-lá melhor, voltemos no tempo, mais especificamente para o ano de 1982.

1982

Neste ano a Nova Zelândia viu de perto o grande esquadrão brasileiro que contava com Falcão, Zico, Sócrates, Éder e companhia. Antes de enfrentar o Brasil, a Nova Zelândia teve dois desafios contra a Escócia e União Soviética. Os escoceses ganharam por 5 a 2, mas os neozelandeses marcaram seus dois primeiros numa Copa, com Summer e Woodin. As outras duas partidas foram de goleadas: 3 a 0 contra a União Soviética e 4 a 0 contra o Brasil (com gols de Zico x2, Falcão e Sérgio Chulapa). Só que uma Copa do Mundo sempre marca um jogador e no coração do zagueirão Ricki Herbert, a vontade de participar mais uma vez ficou. E se não foi como jogador, Herbert montou a seleção mais forte e com melhor desempenho da história dos All Whites.

Ricki Herbert guardou com carinho uma lembrança de 1982 (foto: Stuff NZ)
Ricki Herbert guardou com carinho uma lembrança de 1982 (foto: Stuff NZ)

Copa das Confederações

Com a saída dos australianos da OFC, o caminho para a Copa das Confederações foi facilitado para os neozelandeses. E em sua volta a uma grande competição, em 2009, os All Whites ficaram zerados no placar. Nem um gol sequer, apenas um empate com o Iraque, além das derrotas por 5 a 0 para a Espanha e 2 a 0 para a África do Sul. A lição para Ricki Herbert foi pesada, mas ele entendeu o que deveria ser feito, equilibrar entre novos e experientes.

Do lado da experiência, Herbert contava com Shane Smeltz, atacante de 28 anos que já havia passado por clubes de menor escalão da Inglaterra, Rory Fallon que fez história no Plymouth, Chris Killen que jogava no Celtic na época, o habilidoso meia Leo Bertos e o ídolo e capitão Vicelich.

NZL - Chris Wood - Here Is The City
Artilheiro hoje em dia, Chris Wood era uma aposta em 2010 (foto: Reuters)

Do lado da juventude tínhamos: Chris Wood (atual artilheiro do Leeds) com 18 anos, Jeremy Brockie com 22 anos, Tommy Smith (zagueiro que atualmente tem mais de 250 jogos pelo Ipswich) com 20 anos, Winston Reid (zagueiro com quase 200 jogos pelo West Ham) com 21 anos e Michael McGlinchey volante com 22 anos. Com isso, Herbert não estava só preparando seu time para tentar ir à Copa, mas pensava na equipe futuramente.

Tommy Smith, mais uma aposta que deu certo (foto: Ipswich Star)
Tommy Smith, mais uma aposta que deu certo (foto: Ipswich Star)

Caminho para a Copa

O desafio de se classificar para um Copa do Mundo para uma seleção como Nova Zelândia, não era ganhar de Nova Caledônia Taiti, Papua Nova Guiné ou Fiji, mas era vencer seu adversário da repescagem mundial. Desta vez, o adversário foi o Bahrein. A partida de ida seria disputada no sultanato barenita e a de volta no arquipélago neozelandês. E o resultado de ida não poderia ser melhor: 0 a 0. Não tomou gols e um simples gol poderia dar a vaga. Porém a partida de volta no Westpac Stadium não foi nada fácil.

Gol de Rory Fallon Classificou os All Whites para a Copa (CDN Turner)
Gol de Rory Fallon Classificou os All Whites para a Copa (CDN Turner)

No final do primeiro tempo, a Nova Zelândia chegou ao gol que lhe daria a vaga, Leo Bertos cobrou o escanteio e Rory Fallon testou firme, 1 a 0. Mas logo aos 5 minutos do segundo tempo, o Bahrein teve uma chance de ouro. Pênalti marcado, bola na marca da cal, e apenas 11 metros separavam o Bahrein de uma possível vaga. Mas no meio desse caminho havia Paston, havia Paston no meio do caminho. O goleirão defendeu e garantiu a vaga para a Copa depois de 28 anos e o sonho de Herbert se realizava.

A Copa do Mundo

Em 2010, o caminho da Nova Zelândia não era simples: Paraguai, Eslováquia e a atual campeã Itália eram seus adversários, marcar gols e obter bons resultados parecia impossível.

Na primeira partida, a Nova Zelândia teve que enfrentar a Eslováquia que contava com Hamsik, Weiss e Vittek, que acabou sendo o autor do gol aos 5 minutos do segundo tempo. A partida parecia que se encerraria em um honroso um 1 a 0, mas Smeltz cruzou na cabeça de Reid que empatou tudo e fez a festa da torcida neozelandesa.

Gol de Smeltz contra a Itália (foto: goal.com)
Gol de Smeltz contra a Itália (foto: goal.com)

No segundo jogo contra a campeã Itália, superação foi o nome do jogo. Logo aos 6 minutos de jogo, Smeltz aproveita a bobeada de Cannavaro e abre o placar. Mas sempre que a partida está difícil com um adversário mais fraco, pênaltis surgem para a Itália. De Rossi sofreu e Iaquinta bateu. Depois disso pouco aconteceu e tudo terminou em empate: 1 a 1.

Se era um saco de pancadas, esqueceram de avisar à Nova Zelândia que crescia em experiência e incrivelmente sonhava com uma vaga. Para isso precisava vencer o Paraguai. Mas a boa equipe paraguaia não permitiu isso, porém também não forçou para tentar vencer os All Whites e eles se despediram invictos com honrosos 3 empates.

Vida Além da Copa

Após a participação na Copa do Mundo Ricki Herbert continuou na seleção, defendeu a sua ida para a AFC igual a Austrália havia feito em 2006 e deixou o cargo de treinador em 2013, quando não conseguiu classificar seu selecionado para o Brasil. Atualmente ele treina a seleção das Maldivas.

 

O xerifão do West Ham, Reid (foto: IBTimes UK)
O xerifão do West Ham, Reid (foto: IBTimes UK)

Para os jogadores a experiência rendeu bons frutos. Reid foi contratado pelo West Ham, Tommy Smith pelo Ipswich, Wood começou a rodar pelo futebol inglês. A teoria de que a Nova Zelândia precisaria de mais confrontos internacionais de peso para sua evolução ganhou força com essa campanha, mas infelizmente a seleção se acomodou e, pelo que vimos em sua campanha na Copa das Confederações, dificilmente conseguirá a vaga para a Copa do Mundo da Rússia. 

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