Jean-Marc Bosman, o homem que mudou o futebol mundial

O futebol de todas as partes do mundo se juntou em um homem: Jean-Marc Bosman

Jean-Marc Bosman mudou os rumos do futebol global (Foto: Reprodução/Daily Mail)
Por: Max Galli – SP

Você talvez nunca tenha escutado sobre Jean-Marc Bosman, mas já ouviu falar sobre jogadores que podem sair de graça no final do contrato e/ou assinar com qualquer outro clube seis meses antes do fim do mesmo; assim como já viu algo no Elifoot 98 junto com jogadores como Ryan Giggs, Alen Boksic e até mesmo Rivaldo, não é? Pois então, tudo isso está atrelado a Bosman, um jogador da Bélgica que nunca teve grandes holofotes ao redor pelo seu futebol, nem sequer chegou a vestir a camisa de sua seleção. Mas ele teve seu nome noticiado em todo o mundo após o dia 15 de dezembro de 1995, quando ganhou uma causa contra seu time da época, o RFC Liège da Bélgica, no Tribunal de Justiça da União Europeia em Luxemburgo. A causa foi o impedimento de transferência para o Dunkerque da França.

Tudo começou em 1990 quando o contrato com o clube belga estava chegando ao fim e uma nova conversa para renovação se iniciou. Porém, o RFC ofereceu um salário com redução em cerca de 75%, o que Bosman rejeitar. A equipe então o colocou na lista de transferência sob um valor de US$225 mil. Em julho do mesmo ano, Bosman se acertou com o Dunkerque da França, mas os franceses não tinham como bancar o valor pedido e assim a negociação acabou. O atleta ficou afastado no clube belga mesmo que sem contrato, sem receber e sem poder fechar com outro clube por causa da multa imposta. Bosman, então, entrou na Justiça para poder trabalhar em outra equipe e em novembro um tribunal local deixou o jogador ir para o San Quitin da terceira divisão francesa sem qualquer ressarcimento com o Liège, mas o caso ainda se arrastava nos tribunais.

Bosman e seus advogados no Tribunal de Justiça Europeu (Foto: Reprodução/maisfutebol.iol.pt)
Bosman e seus advogados no Tribunal de Justiça Europeu (Foto: Reprodução/maisfutebol.iol.pt)

Em 1991, o clube belga entra com recurso da decisão e leva o caso ao Tribunal de Justiça da Bélgica. O que faz com que o atleta não consiga jogar enquanto a sentença não saia. Apesar disso, recebia uma ajuda por desemprego do governo francês. Em maio de 1992, Bosman conseguiu com que o Tribunal de Apelação de Liége confirmasse a primeira sentença. Assim, o veredicto foi para o Tribunal de Justiça da União Europeia e o caso julgado de acordo com o Tratado de Roma, que dizia sobre a proibição na limitação de acesso de jogadores profissionais estrangeiros que receberam cidadania da União Europeia. Também havia a proibição dos clubes de futebol exigirem receber qualquer pagamento pela contratação de um dos seus jogadores por um novo clube se faltasse menos de seis meses para o final contrato.

Enfim Bosman estava de fato livre e poderia ir para outro clube. E foi para o Saint-Denis, também da França.

Depois, o jogador decidiu voltar para sua terra natal, mas se viu com a imagem totalmente destruída devido aos atritos com o RFC Liège fora dos gramados. Por isto, ficou sem clube e sem qualquer ajuda de custos. Somente após cerca de oito meses ele conseguiu voltar a atuar nas quatro linhas, no Olympique de Charleroi, da terceira divisão belga. E após um ano se transferiu para o Vise, da quarta divisão local.

De fato, o futebol não dava o mesmo valor que os tribunais lhe davam, com seguidas vitórias até contra a gigante UEFA. Isto aconteceu em março de 1995, quando a Suprema Corte da Bélgica deu ganho de causa a Bosman, na ação contra a máxima entidade europeia, a Federação Belga de Futebol e a RFC Liège. O jogador ainda pediu uma indenização de 700 mil francos por danos e prejuízos com o estresse do processo. O argumento usado pelo advogado do atleta foi que as restrições impostas iam de encontro com as leis de livre circulação dos trabalhadores dos países vinculados à União Europeia.

Em junho do mesmo ano, a Suprema Corte belga enviou o julgamento para instância do Tribunal de Justiça da União Europeia. Lá, o advogado-geral dava a entender que Bosman sairia vencedor, até que a FIFA interveio junto à UEFA. Assim, mais 49 federações associadas à entidade europeia assinaram uma carta mostrando as consequências perante a abertura de livre circulação de jogadores, a principal delas seria a “divisão entre clubes ricos e pobres” diante de uma vitória ao jogador.

Há quem fosse mais rápido que a decisão final, como o Senado Italiano, que apresentou a Emenda Speroni liberando, assim, a utilização, sem limites, de jogadores da União Europeia no país. Até que o tribunal deu vitória a Bosman, criando a Lei com nome homônimo que dava aos jogadores liberdade dos seus vínculos ao fim dos contratos e a liberdade de fechar com qualquer clube seis meses antes do encerramento do acordo sem que o atual clube tenha ressarcimento. Ou seja, adquiria a mesma liberdade de trabalho de cidadãos da União Europeia em qualquer país integrante. De fato, mudou os rumos do futebol europeu e mundial.

Após essa liberação houve várias modificações tanto no mercado de passes de jogadores, como em campeonatos locais e europeus. Antes eram possíveis apenas três estrangeiros por time, ou cada liga fazia sua regra — como por exemplo na Espanha, que eram permitidos cinco jogadores de fora do país. O emblema que ficou da mudança foi o Ajax, campeão da Champions League no mesmo ano de 1995, com um time que tinha Van der Sar, Rijkaard, os irmãos De Boer, Davids e Kluivert. Após a conquista, várias peças dessa equipe foram para outras com mais dinheiro e presentes em campeonatos mais fortes financeiramente. Isso acarretou no empobrecimento de várias ligas, como também em esquadrões futebolísticos fechando suas portas por perda de jogadores e falta de recursos.

Bosman deixou um legado nos meios tribunais um pouco ruim até para quem tem força financeira, pois sem planejamento poucos craques de hoje vêm da base de equipes com muito dinheiro. Assim como é difícil ver qualquer jogador no ápice fora de clubes sem dinheiro. Antes você conseguia ver um Steaua Bucareste e Estrela Vermelha serem campeões da Europa, ou um Sampdoria vice, mas hoje os campeonatos ficam na mão de estratégias financeiras bem sucedidas. Com isso, tendo em vista a diminuição da competitividade, a FIFA tenta criar normas para equalizar essa liberação de transferências com o chamado Fair Play Financeiro e as cotas para jogadores locais.

Há de se dizer que Jean-Marc Bosman mudou o futebol, se foi para pior ou melhor temos que pensar e conversar, pois além de mostrar ao mundo que os jogadores têm direitos também deu direito para que o dinheiro falasse mais alto. Mas sem ele, talvez, não teríamos a força global que o nosso esporte bretão oferece.

Bosman hoje em dia e o futebol globalizado (Foto: Reprodução/Daily Mail)
Bosman hoje em dia e o futebol globalizado (Foto: Reprodução/Daily Mail)
Fonte: Universidade do Futebol, Trivela, Esporte IG, A Sentença do Caso Bosman

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