Jobson, futebol e cultura do estupro

Jobson é preso acusado de estuprar ao menos quatro adolescentes. A CL mostra o papel do futebol na consolidação da cultura do estupro na sociedade

Jobson defendeu grandes clubes como Botafogo, Atlético-MG e Bahia (Foto: Divulgação/Botafogo)

Estourou nesta quinta-feira (23), mais uma bomba ligada ao (ex?) jogador Jobson, que já vestiu as camisas de clubes populares como Botafogo, Atlético-MG e Bahia. Hoje, aos 28 anos, ele foi preso em Conceição do Araguaia, no Pará, acusado de estuprar quatro adolescentes. Ele é suspeito de um quinto caso de estupro, mas ainda está sendo investigado pela polícia. Se confirmada pelas investigações a culpa de Jobson nos crimes, essa não terá sido apenas mais uma bola fora em sua carreira (jogada no lixo por ele mesmo). Terá sido a maior de todas. Lamentável. No pior sentido da palavra.

E se não bastasse estupro ser por si só de barbárie imensurável, tal crime, mais uma vez, aparece na grande mídia ligado ao futebol. No mês passado, Lucas Perdomo, 20 anos, jogador do Boavista, foi preso sob suspeita de participação no estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos, no Rio de Janeiro. Ele foi solto quatro dias depois visto que a delegada responsável pelo caso não viu indícios de sua participação no delito.

Independentemente de Lucas ou Jobson serem ou não culpados pelos crimes aos quais foram/são acusados, a ligação entre o esporte mais popular do Brasil e casos de estupro abre caminho para uma discussão: qual o papel do futebol na consolidação da cultura do estupro em nossa sociedade?

Antes de mais nada, é necessário entender que o futebol está inserido no corpo social. Torcedores, jogadores e dirigentes machistas, portanto, são reflexo de uma sociedade machista. O esporte, afinal, não é uma bolha. E o que é o machismo? Com a palavra, Maiara Beckrich e Renata Mendonça, do portal Dibradoras, em texto escrito há pouco menos de um mês: “O machismo está presente em todas as esferas da vida. No âmbito profissional, quando uma funcionária sofre assédio dos colegas de trabalho. Nas ruas, ao ser ‘cantada’ por homens como se caminhasse sem outro propósito que não ser objeto para o julgamento masculino, também no esporte, onde as atletas são mais valorizadas pelos seus atributos físicos do que por suas habilidades. Onde não encontram apoio, patrocínio ou estrutura para atuarem como as atletas profissionais que são. Onde recebem menos – mesmo gerando, por muitas vezes, mais dinheiro que os homens (vide seleção americana de futebol feminino). Onde são assediadas pelos seus próprios técnicos (vide a nadadora Joanna Maranhão, abusada aos 9 anos pelo treinador)”, escreveram as meninas.

Muito bem. E o machismo (inclusive o que permeia o futebol) é o “motor” da cultura do estupro. Cultura que não é o ato de penetrar uma mulher contra sua vontade. Parafraseando Grazi Mazonetto, do blog Lugar de Mulher, cultura do estupro é a banalização dos pormenores que violentam as mulheres na sociedade. Banalização que leva um homem a se achar no direito de estuprar uma mulher. E desses pormenores banalizados o futebol está cheio.

 

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Matéria do MG Esportes e foto de Edvaldo Rodrigues sobre a estreia da bandeirinha Fernanda Colombo na Federação Pernambucana (Foto: Reprodução/MG Esportes)

Tratar uma bandeirinha como objeto sexual faz parte da cultura do estupro. Mostrar-se surpreso quando uma torcedora entende de futebol faz parte da cultura do estupro. Contratar repórteres mulheres somente se elas se encaixarem no padrão de beleza para “vender melhor o produto” faz parte da cultura do estupro. Falar que futebol é coisa de macho faz parte da cultura do estupro. Tratar campeonatos femininos de futebol como amadores faz parte da cultura do estupro. Em suma: inferiorizar uma mulher pelo simples fato de ela ser mulher é o que constrói a cultura do estupro.

A CL acha importante levantar essa bandeira na medida em que 92% das pessoas que seguem nossa página no Facebook são homens. Num universo de quase 320 mil seguidores, são 295 mil homens que, se repensarem seus comportamentos e hábitos, tornarão não só a CL e o futebol, mas a sociedade de forma geral, mais agradável para todos e, principalmente, todas.

Texto: Lucas Faraldo

9 Comentários em Jobson, futebol e cultura do estupro

  1. Nao consigo pensar num elogio para o texto. Parabéns CL, nao tanto pelo texto em si, mas pelo o que ele representa.
    Contudo, gostaria apenas de falar discordo que o fato se impressionar com uma torcedora que entende de futebol seja machismo; uma vez que (infelizmente) poucas mulheres se interessam ao ponto de discutir sobre futebol. É o mesmo que a mulher se impressionar com o cara que entende de alguma coisa de maior interesse feminino (nao vou citar nenhum exemplo por nao consiguir pensar em algum bom). O numero de mulheres que gostam e entendem sobre futebol é pequeno isso se deve a cultura machista, mas nao acredito que se impressionar com uma mulher que entende de futebol seja uma atitude machista. Agora, desconsiderar a opinião da mulher, pelo fato de ser mulher, é machista (da forma mais nojenta possível).
    Mais do que nunca eu sou fã da CL. Futebol nao fica so no gramado! Parabéns CL!

  2. Vocês mandaram muito bem. Muito, muito bem.

    Me permitam acrescentar: Esporte não é só um reflexo da sociedade, é umas das instituições mais capazes de a influenciar a sociedade.

    Então quando clubes começam a defendar essas bandeiras, boleiros tomam atitudes positivas, e a mídia – parte importantíssima na construção da cultura futebolística – sai da oclusão e resolve falar sobre o assunto, nos temos uma ótima arma para a mudança da sociedade.

    • Parabéns pelo excelente texto!! Tão importante em alertar todos nós que sem percebermos às vezes contribuímos para consolidar essa cultura do estupro, que na verdade se estende a uma “cultura” de desvalorização da mulher, que é um dos braços da atual desumanidade que vivemos e alimentamos nocivamente. Sejamos mais atentos a nossas atitudes e mais respeitosos com todas as mulheres, tratando-as com toda a dignidade que merecem, e respeitosos com a vida humana, para que a cultura da violência seja reduzida significativamente na nossa sociedade.

  3. Parabéns, pessoal! Texto importantíssimo na atualidade e demonstração de cidadania exemplar! Vcs me representam muito e me fazem feliz por saber que há amantes do futebol que não o pensam como um esporte com gênero e nem olham a mulher com olhar misógino ou machista! Obrigado, muito obrigado, galera!

  4. Muito bom.

    O futebol também é uma ferramenta cultural importantíssima pra sociedade, e acho que devemos sim abordar temas como esse, além da homofobia, que é frenquente nos estádios (gritar “bicha” pro goleiro é um exemplo) e tantos outros tipo de discriminação.

    Um grande exemplo que pode ser seguido é o St. Pauli da Alemanha, pois é um clube do povo e para o povo, também é totalmente contra a discriminação contra as minorias que faz parte do povão, e mesmo assim não deixa de ser um clube totalmente CL.

  5. Maravilha de texto. Necessario demais.

    O futebol e’ uma beleza, mas ainda e’ um dos grandes redutos de machismo e sexismo (e muitos usam o escudo do discurso de que “ah, eh soh futebol, eh soh piada, fica ali no estadio…” pra mostrar o seu lado machista. Essa discussao eh muito necessaria, parabens pra CL

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