Jogador de Futebol: Profissão Perigo

É justo classificar todos da mesma maneira?

Jogador de futebol e os poucos momentos de glória (foto: Trivela)
Por Diego Giandomenico, PR

Fim de ano. Você ainda está trabalhando duro tentando construir seu futuro. Talvez você tenha uma família construída e que precisa do seu salário para poder se alimentar. Talvez você more sozinho (ou sozinha) e o aluguel está pela hora da morte. Talvez você tenha recém comprado um carro, financiando ele em suaves 60 prestações de 900 reais. O que importa mesmo é que você recebe um email e lá tem uma oportunidade de emprego na melhor empresa do seu ramo, com um salário que é 10 vezes acima do piso da categoria. É um valor tão absurdo que você custa a acreditar. Você obviamente aceita a proposta e vai conversar com o dono da empresa, seu possível futuro chefe.

Chegando lá, ele explica que a empresa é a melhor e por isso a pressão dos resultados é grande. A sua contratação nesta empresa é vista como crucial para o avanço dos negócios. As partes interessadas apostam todas as fichas em você e prometem acompanhar de perto o seu desempenho. Além disso há uma cláusula que permite que a empresa te demita a qualquer momento caso não sintam uma produtividade muito grande de sua parte. Isso sem falar que seu contrato – isso, esqueça sua amada CLT – prevê o período de 6 meses de avaliação de resultados. Caso não seja satisfatório a empresa tem a opção de te dispensar sem pagar multa ou te emprestar para uma empresa menor, onde você pode desfrutar de um bom salário sem ter tanta pressão – a não ser a pressão de que seu contrato tem duração de apenas um ano – e podendo aprender mais das funções e se desenvolver como um potencial astro da empresa.

E agora cabe a você assinar o contrato. E aí, o que vai ser?

Se aceitar saberá que todo o dia as partes interessadas estarão no seu encalço, vendo o que você posta no Facebook, o quanto tem se dedicado no dia a dia da empresa, se tem ido para a balada, se chegou atrasado, se meteu aquele atestado médico para assistir o joguinho de quarta-feira à tarde da Champions. Além disto, a própria pressão sofrida pelo seu supervisor, vai te empurrar a cumprir metas absurdas e, mesmo que ele seja muito camarada, vai querer que você salve a pele dele. O jornal do segmento também está de olho e quer ver como a empresa reage, já que ela tem andado não muito bem. E se você não gostar do clima da empresa e quiser sair? Prepare-se para ser execrado por todos, pois onde já se viu cuspir no prato que te alimentou tão bem assim.

Já imaginou esse escritoriozinho lotado de acionista te pressionando a render bem? (foto: Coworking Brasil)
Já imaginou esse escritoriozinho lotado de acionista te pressionando a render bem? (foto: Coworking Brasil)

Imaginou o quão surreal seria se engenheiros, médicos, advogados, publicitários, jornalistas, pintores, pedreiros, auxiliares de produção ou qualquer outra profissão no mundo tivessem o mesmo tratamento da de jogador de futebol?

Pois é sobre isso que falaremos hoje, a profissão perigo de um jogador de futebol.

Podemos começar pela base cruel, quando crianças recebem pressão de pais, professores, empresários e diretoria para que seus resultados sejam bons o suficiente para reverter em dinheiro para a Europa ou mesmo para formar um time profissional mais encorpado. E quando tem a oportunidade de subir ou é superestimado sem ter tido uma preparação decente ou cai de paraquedas para ser a salvação de um time em frangalhos.

Sentou no vaso e encostou o pé no chão já tem obrigação de ser campeão (foto: globoesporte.com)
Sentou no vaso e encostou o pé no chão já tem obrigação de ser campeão (foto: globoesporte.com)


Mas vamos supor que esse jogador sobreviveu e se tornou um profissional de respeito. Ele agora fica como devedor do clube que o revelou, sob a possível punição de ser considerado um traidor dependendo do clube que ele decidir ir. Agora pense, quantas vezes você trocou de empresa? Quantas vezes você foi para uma “rival” por ter uma proposta melhor? Quantas vezes quis sair do teu emprego por sentir uma clima ruim ou por não curtir mais o local ou ainda por querer novos ares? Se você já fez alguma das suposições acima, talvez devesse repensar em exigir essas coisas de um jogador de futebol. Pois se futebol para você é paixão, para ele é trabalho.

Mercenário ou procurando melhor oportunidade de trabalho? (foto: vavel)
Mercenário ou procurando melhor oportunidade de trabalho? (foto: vavel)

Comparações com jogadores antigos, que eram fiéis aos seus clubes não cabem mais no futebol de hoje em dia. Ainda mais quando 90% dos jogadores no Brasil ganham menos de 2 mil reais. Isso sem falar que a carreira de um jogador de futebol dura, com algumas exceções, uns 15 anos mais ou menos. Isso porque eu conheço jogadores que pararam de jogar com menos 27 anos porque não tinham lugar mais para jogar ou se contundiram gravemente. Ser jogador de futebol é lutar pelo seu espaço no dia a dia, com seu corpo, com a completa desorganização dos clubes, com a falta de grana.

Já imaginou ter gente invadindo seu trabalho para te cobrar resultados? (foto: globoesporte.com)
Já imaginou ter gente invadindo seu trabalho para te cobrar resultados? (foto: globoesporte.com)

Sempre que colocarmos a situação de um jogador de futebol em nossa realidade, a resposta será bizarra. Desde atraso de pagamentos, más condições de trabalho, pressão exorbitante, ameaças, pessoas vigiando seu tempo de lazer. Coloque isso na sua área de conhecimento e veja que não faz sentido. Imagine as matérias de jornal cobrindo seu dia a dia como se fosse no futebol:

Diego atrasa relatório de compras de março e complica o balanço da empresa
Maria erra endereço de cliente num flyer e agência corre risco de perder conta
Marcos chega atrasado mais um dia e supervisor já pensa em substituto
Juca falha feio no projeto de novo condomínio e obras poderão ficar atrasadas em até um ano
Alunos acusam Ana Cláudia de fazer corpo mole nas aulas de física

Enfim, a quantidade de títulos criticando um jogador é imensa e trazer para nossa realidade pode fazer com que tenhamos duas reações: refletir sobre a pressão que é ser jogador e tentar não tornar a vida dele um inferno; ou somente aceitar que ele foi quem escolheu essa profissão e que tem que aguentar a bomba.

Se escolher a primeira opção não verá mais motivo para xingar de mercenário um jogador  que busca melhores oportunidades de trabalho. Nem ficará fiscalizando a vida social dele a todo instante. Também não achará seu emprego tão ruim assim, já que você tem uma estabilidade que um jogador de futebol jamais sonhou em ter. Não usará mais termos como “amor à camisa” de maneira solta, sem pensar que ele é um profissional acima de qualquer coisa. E, principalmente, irá parar de usar Totti como exemplo de jogador modelo porque um dia recusou o Real Madrid para continuar na Roma, como se a Roma fosse um time pequeno ou se ele ganhasse um salário de fome por lá.

Será que Totti teria uma carreira tão longa no mesmo clube se o mesmo fosse um Siena da vida? (foto: Goal.com)
Será que Totti teria uma carreira tão longa no mesmo clube se o mesmo fosse um Siena da vida? (foto: Goal.com)

Se escolheu a segunda opção, espero pelo menos que reflita que um jogador de futebol é um ser humano que não se adequa a um ambiente, que pode querer jogar em outro lugar sem necessariamente amar esse clube, que pode querer um salário melhor. Enfim, a empatia aqui pode ajudar. Eu já troquei de emprego algumas vezes e a ideia de passar mais de 2 anos no mesmo lugar me dá arrepios. Se fosse jogador de futebol, seria conhecido como andarilho da bola. Alguém que não pode se apegar, que não vai jogar com raça. Tudo isso porque eu não gosto de ficar no mesmo lugar por muito tempo.

E o pior: jogador de futebol tem pouquíssimo tempo de carreira. Ele querer sair de um clube médio para um grande é normal, pois para muitos é uma chance na vida apenas. Ninguém aqui está pedindo para que você aplauda jogador ruim, mas entenda que nem sempre conseguimos render bem todos os dias. Adaptação, identificação, estilo de jogo e até mesmo tesão variam de jogador para jogador, de fase de vida para fase de vida. Alguns clubes identificaram isso tentam blindar mais seus atletas ou mesmo dão suporte psicológico para eles. Porém continua não sendo fácil.

Novo membro de times de futebol, o psicólogo (foto: Wiki Artigos)
Novo membro de times de futebol, o psicólogo (foto: Wiki Artigos)

Não continua sendo fácil porque normalmente um jogador de futebol vem de origem mais humilde e talvez não tenha o preparo necessário para lidar com pressão de todos os lados. Não que pessoas que vêm de outras camadas da sociedade tenham mais preparo, mas só quem viveu em situação de vulnerabilidade sabe como a vida costuma ser mais complicada.

Claro, como em qualquer profissão, existe jogador de futebol “migué”, preguiçoso, mau caráter, inescrupuloso. Porém não pode ser justo classificar a todos da mesma maneira e nem cobrar excessivamente alguém que pode falhar ou ir mal tanto quanto você pode ir no seu trabalho amanhã.  

Já imaginou ser lembrado para sempre por seu erro num dia de trabalho? (foto: IG)
Já imaginou ser lembrado para sempre por seu erro num dia de trabalho? (foto: IG)

Jogador de futebol é uma profissão. Está acima de títulos, conquistas, gols, dribles e tudo mais. A discussão sobre essa função é complexa e não vai ser esse texto que vai ser parâmetro daqui para frente sobre a profissão. O que quis aqui foi iniciar o debate. E aí, o que acha?

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