Jogos Memoráveis: Boca Juniors x Paysandu – O Papão da Bombonera

O dia que o Pará virou Brasil

Iarley, O Papão em pessoa da Bombonera (Foto: Reprodução/Daniel Garcia/AFP)

Enfrentar o Boca Juniors na La Bombonera pela Libertadores da América é uma missão (quase) impossível. Sair vitorioso, ou pelo menos com um empate dali, é como sair de uma guerra. Até 2003, apenas dois clubes brasileiros haviam conseguido derrotar a equipe argentina em uma Libertadores: o Santos de Pelé, em 1963, e o Cruzeiro de Ronaldo em 1994. Só que a escrita foi quebrada na noite do dia 24 de abril de 2003.

O Boca iria para mais um jogo de oitavas-de-final e enfrentaria um estreante brasileiro na competição, um tal de Paysandu. Todos os jornais já estampavam uma sonora goleada da equipe de Carlos Bianchi. Algo normal com um ataque formado por Delgado, Schelotto e Tévez. Mas do outro lado estava o folclórico Papão da Curuzu. A história que se mostrou em campo foi digna de roteiro de filme sobre superação, de palmas até da torcida do Remo, de carreatas e buzinas pelas ruas de Belém e de emoldurar todas as capas de jornais dos dias seguintes. A equipe alvicelestre seria, por um dia, o Papão da Bombonera.

A torcida xeneize em dia de Boca Juniors. (Reprodução/Boca Juniors)
A torcida xeneize em dia de Boca Juniors (Foto: Reprodução/Boca Juniors)

O Paysandu iria para a primeira Libertadores depois de vencer a extinta Copa dos Campeões em 2002, e não entrou no campeonato para ser um mero coadjuvante, se classificou com a terceira melhor campanha do campeonato, atrás apenas do Corinthians e Santos, e vantagem de decidir em casa, mas o primeiro confronto no mata-mata reservava o gigantesco Boca Juniors. Logo na viagem para a Argentina, os próprios jogadores foram conhecer a história grandiosa do xeneizes e entraram na sala do museu dentro da La Bombonera para ouvir o estrondo que a torcida faz em seus jogos. Ao mesmo tempo que se arrepiaram, o medo de uma goleada era nítida.

Buenos Aires, 24 de Abril de 2003. Estádio La Bombonera

Antes de entrar em campo já se ouvi a festa dos 45 mil torcedores, mas parece que isso deu força para o Paysandu, a concentração tomou conta dos 11 guerreiros em campo. A equipe nortista foi para cima do Boca desde os primeiros minutos, Iarley (7), a principal arma do Papão, era quem arriscava mais jogadas pela esquerda do campo, com dribles e passes de primeira e numa dessa jogadas, aos 17 minutos, fez o arqueiro Abbondanzieri espalmar chute do camisa 7 do Papão. Mas logo depois o primeiro drama para a equipe brasileira, em lance de Clemente Rodriguez com Robgol, o árbitro Carlos Amarilla mandou os dois para o chuveiro mais cedo. O técnico uruguaio Dário Pereyra fechou mais ainda o time alviceleste, a defesa ficou mais compacta e só afastava a bola para longe da área paraense. Carlos Bianchi, que deixou Tévez no banco, assistia um Boca sem criatividade e força ofensiva. O Paysandu pedia o fim do primeiro para se arrumar e segurar o empate, mas buscando sempre o contra-ataque com os lançamentos de Vanderson, a velocidade de Vélber e os dribles e chutes de Iarley, mas era ainda era pouco.

Amarilla expulsando Robgol e Rodriguez. (Reprodução/Paysandu)
Amarilla expulsando Robgol e Rodriguez (Foto: Reprodução/Paysandu)

Na volta para o segundo tempo, mais drama para a equipe paraense. Logo aos 10 minutos, Vanderson acerta uma cotovelada em Schelotto e é expulso pela arbitragem. O Paysandu ficava com nove em campo, 10 xeneizes querendo entrar na área brasileira, meia hora de jogo ainda pela frente e mais 45 mil torcedores que parecia entrar em campo para gritar nos ouvidos dos nortistas. Mas a força do imponderável Papão da Curuzu era maior do que todos os inimigos que se apresentavam e aos 22 minutos se incorporou em cada jogador alviceleste.

Num erro da zaga brasileira, Moreno estava saindo cara a cara com o goleiro Ronaldo, mas Jorginho que estava impecável até então se recuperou na jogada e roubou a bola de forma heróica, depois disso foi tranquilizar e de pé em pé fazer a bola chegar no melhor jogador do Papão até então e isso fez Sandro que buscou Iarley na esquerda e com os dribles que infernizava a defesa argentina passou com facilidade por dois marcadores e tocou na saída do goleiro do Boca, a bola nunca rolou tão devagar quanto naquele lance: Paysandu 1 a 0! Os gritos de Belém do Pará puderam ser ouvidos em todo o Brasil. Nunca foi vista uma La Bombonera tão quieta em anos, o ímpeto brasileiro calou até Carlos Bianchi que sentou no banco de reservas e de lá não saiu mais.

O Xeneizes se lançaram ao ataque agora com Tévez em campo, mas o Papão se fechou gigantemente, vendo a vontade da equipe argentina de buscar o gol a torcida voltou a gritar e pular nas arquibancadas, a festa era mais bonita ainda. Porém, o Boca Juniors não correspondia a energia vinda de fora do campo, todas as bolas alçadas na área eram fáceis para a zaga paraense. O tempo passava e nada da bola sequer dar um trabalho para o goleiro Ronaldo, mas aos 47 minutos, Belém paralizou, assustou com uma bola para fora de Moreno, mas isso não foi o bastante para tirar a festa do Pará.

As capas que eternizaram a história do Papão. (Reprodução/Fotolog/Papão da Curuzu)
As capas que eternizaram a história do Papão (Foto: Reprodução/Fotolog/Papão da Curuzu)

Mesmo com a vitória na Argentina, a equipe paraense não conseguiu repetir o feito em casa, e mesmo empurrada por 40 mil torcedores no Mangueirão e saiu derrotada por 4 a 2 pelo Boca, que foi campeão da mesma edição da Libertadores e depois do Mundial de Clubes, e assim se despediu da competição. Mas isso não apagou a imagem daquela vitória que ainda traz lembranças para que um dia o Paysandu possa recuperar a força do Papão da Curuzu como daquela noite e se torne, novamente, o Papão da Bombonera.

Texto: Max Galli

3 Comentários em Jogos Memoráveis: Boca Juniors x Paysandu – O Papão da Bombonera

  1. Belo texto, esse foi um dia em que não existiu impossível para torcedores do Paysandu, foi um dia em que cada bicolor se sentiu o maior da América.

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