Jogos Memoráveis – Santos x Flamengo: A arte não morreu

A arte não morreu naquela noite de 27 de julho de 2011

A arte nos pés de Neymar e Ronaldinho. (Reprodução/Eliária Andrade/Agência O Globo)

Era somente um Santos  e Flamengo valendo pela 12ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2011. Todos que viram aquele jogo sabiam que uma partida que colocava em campo o até então melhor jogador do Brasil na atualidade, Neymar, e um dos maiores jogadores da história, Ronaldinho Gaúcho, não seria um jogo amarrado ou que as duas equipes lutariam pelo empate sabendo quem teriam pela frente. Milhares de pessoas pelo Brasil assistiram aquela partida que tinha transmissão pela televisão juntamente com os 12 mil presentes no Urbano Caldeira, a Vila Belmiro. Todos já pressentiriam a magia e a arte que aquela partida teria, o que seria hoje um dos jogos mais empolgantes e maravilhosos da história.

Não foi apenas um jogo de futebol valendo três pontos. Foi uma mostra de arte com acontecimentos emblemáticos, um dos últimos exemplos de tudo o que pode acontecer em uma partida do esporte mais popular do mundo. Gols históricos. Dribles desconcertantes. Provacações. Pênalti perdido. Vantagem de 3 a 0 no placar. Reação do time adversário com direito a gol feito, perdido. Empate heroico no primeiro tempo. E uma virada indescritível, improvável, inesquecível. 5 a 4. Nove gols. Pura arte. Puro futebol brasileiro. Sem medo. Sem toque para o lado. Jogo para frente, jogado. Plateia ensandecida. Em uma partida que, talvez alguém dava nada, o futebol e seus artistas nos mostraram o contrário.

Torcida rubro-negra estava presente na Vila Belmiro. (Reprodução/www.weborganizadas.blogspot.com.br)
Torcida rubro-negra estava presente na Vila Belmiro (Foto: Reprodução/Weborganizadas.blogspot.com.br)

O ano reservava muitas emoções para a torcida santista. Acabado de ter vencido o tri da Copa Libertadores da América, apenas restava fazer um bom Campeonato Brasileiro para ir em busca do tri mundial ao fim do ano. Já o Flamengo vinha para aquela 12ª rodada embalado pelo título do Carioca e com 11 jogos sem derrota e se colocando como um dos potenciais candidatos ao título. As equipes vinham praticamente completas o que deixava no ar um jogo totalmente aberto com possibilidades para os dois times.

Santos, 27 de Julho de 2011, 21h45. Estádio Vila Belmiro

A bola rola e já mostrava que o Santos seria o time ir para cima e dominar o Flamengo logo no começo do jogo. Com apenas quatro minutos, o primeiro grande lance do jogo apareceu. Ibson roubou a bola na esquerda e tocou para Neymar. O craque passou por dois e tocou para Elano que lançou Borges, livre de marcação na entrada da área, que chutou: 1 a 0. Festa na Vila! A torcida alvinegra já esperava uma goleada, o que certamente demonstrava que iria acontecer quando, aos 15, Renato Abreu errou passe no meio de campo e deu de presente para Neymar, que tabelou com Ganso, invadiu a área e tocou por cobertura. Felipe fez uma defesa heróica e evitou o que seria um golaço do atacante santista. Mas, no rebote, Neymar tentou dar de bicicleta que furou, mas ainda no chão, e com a bola ainda no alto, o craque conseguiu tocar na bola, que foi parar nos pés de Borges que tocou para o gol livre. 2 a 0.

A equipe da Vila brincava em campo. Aos 25, um lance que entraria para a história. Neymar, rápido e arisco como sempre, recebeu na esquerda, passou no meio de dois marcadores. Com espaço, o atacante tocou para Borges, que devolveu para o camisa 11. Neymar foi avançando e entortou a coluna de Ronaldo Angelim com um drible-da-vaca mágico que o zagueiro rubro-negro procura o atacante santista até hoje pelos gramados do Brasil e nem sabe que ele já partiu para a Catalunha. Depois de tudo, Neymar tinha que fazer o gol e fez. Golaço. Digno de placa ou pintura. Uma obra-prima. Tão fantástico e inesquecível que a FIFA presenteou o craque com o Prêmio Puskás de gol mais bonito da temporada imortalizando o gol na história brilhante do futebol mundial.

Neymar toca para completar o seu gol antológico. (Reprodução/Ricardo Saibun/Santos FC)
Neymar toca para completar o seu gol antológico (Foto: Reprodução/Ricardo Saibun/Santos FC)

Com 3 a 0 no placar em apenas 25 minutos, o Santos achou a partida estava ganha, mas o futebol é imprevisível. Tinha um Flamengo pelo frente com Ronaldinho Gaúcho. Sem contar, Deivid, que teve a chance de diminuir, mas perdeu um gol incrível debaixo do travessão sem marcação e com a meta totalmente aberta. No entanto, aos 27 minutos, com cruzamento de Luiz Antônio pela direita o goleiro Rafael e o zagueiro Edu Dracena deram bobeira e a bola sobrou para o craque da camisa 10 rubro-negra que só tocou para o gol vazio.

Aos 31, mais uma jogada carioca pela direita. Luiz Antônio toca para Renato Abreu que, depois de aplicar um chapéu em Arouca, toca para Deivid. O atacante, de primeira, inverte para Léo Moura, que cruza na cabeça de Thiago Neves, que cabeceia com os olhos abertos sem chance para o arqueiro alvinegro: 3 a 2. A torcida não acreditava no que estava acontecendo, assim como os técnicos das duas equipes que apenas observavam cada lance do jogo. Com meia hora de partida, já tinha cinco gols, mas não era o bastante. Aos 40 minutos, Neymar arrancou pela esquerda onde só foi parado dentro da área por Willians. Na cobrança, Elano. O camisa 8 deu uma cavadinha fraca que não deu nenhuma trabalho para o goleiro Felipe e logo depois emendar algumas embaixadinhas para provocar o meia santista.

Felipe agarra a cavadinha de Elano. (Reprodução/ESPN)
Felipe agarra a cavadinha de Elano (Foto: Reprodução/ESPN)

O erro custou caro ao Santos, pois aos 43, Ronaldinho cobrou um escanteio da esquerda e Deivid só escorou para empatar e não comemorou em respeito ao ex-clube. Seis gols em um só tempo. 3 a 3 no placar. Quando o árbitro apitou o fim da primeira etapa, muitos nem tinham percebido por tanta rapidez e qualidade que o jogo apresentava. Muitos pensavam que o segundo tempo seria totalmente diferente, sem grandes lances e com os times já cansados pela correria do primeiro tempo. Ledo engano…

Deivid não comemora o gol de empate. (Reprodução/Fernando Pilatos/UOL)
Deivid não comemora o gol de empate (Foto: Reprodução/Fernando Pilatos/UOL)

Ao início da segunda metade da partida, a mesma situação, o Santos indo para cima do Flamengo. Aos cinco minutos, um erro do rubro-negro no meio-campo e a bola sobrou para Ganso que lançou Léo na esquerda que se lançou ao ataque, ganhou na corrida de Léo Moura pelo meio e tocou milimétricamente para Neymar que deixou Daivid no chão e tocou por cima de Felipe, novo golaço da partida e 4 a 3 no placar.

Ronaldinho Gaúcho não queria deixar que Neymar fosse o único protagonista da partida com seus dribles, seu golaço e sua obra-prima e fui que apareceu aos 22 minutos. Willians avançou e tocou para o craque da camisa 10 que deixou Edu Dracena no chão, tentou passar por Arouca que só o parou com falta na entrada da área. Rafael já ficou aflito pois sabia quem estava do outro lado e colocou 5 jogadores para defender um lado de sua meta. Ronaldinho não tirava os olhos da bola, já sabia o que iria fazer.

Para os santistas só sobrava pular o mais alto para tirar o gol do craque, mas na batida e no pulo, os alvinegros nem viram a bola, quando viram ela já estava dentro do gol. Ronaldinho já estava saindo gargalhando do lance para os parceiros de equipe. Bola rasteira, precisa, por baixo da barreira. Mágica. Genialidade. Novo empate no jogo. 4 a 4. A Vila, que foi casa de Pelé, e presenciou tantos lances mágicos se viu na nostalgia com duas obras de arte que acontecera naquela noite.

Ronaldinho sai com sorriso no rosto depois de gol épico. (Reprodução/Wander Roberto/Gazeta Press)
Ronaldinho sai com sorriso no rosto depois de gol épico (Foto: Reprodução/Wander Roberto/Gazeta Press)

Um empate era mais do que justo por tudo o que os times já haviam proporcionado aos torcedores, mas ainda tinha coisa reservada, pois Ronaldinho queria mais. Aos 35, Deivid roubou a bola no meio de campo e se lançou num contra-ataque rápido. O atacante tocou para Thiago Neves, que percebeu o avanço do camisa 10 pela esquerda. Neves rolou para o ex-craque do Barcelona, que avançou e chutou firme, preciso, no canto oposto do goleiro Rafael. Gol. Virada. 4 a 5. Nove gols. Hat-Trick de Ronaldinho. Dois de Neymar. Sendo eles um golaço e uma obra de arte de Ronaldinho e um golaço e uma obra de arte de Neymar. A vitória ao final foi da equipe carioca, mas Neymar também saiu vitorioso ao final por fazer parte da história naquele dia. Entretanto, a maior vitória foi do futebol. Do esporte. Da arte.

Jogadores rubro-negros comemoram o quinto gol e a vitória. (Reprodução/CR Flamengo)
Jogadores rubro-negros comemoram o quinto gol e a vitória (Foto: Reprodução/CR Flamengo)

Presenciamos, naquele 27 de julho de 2011, uma das noites mais sensacionais e históricas para todos os apreciadores do esporte mais popular do mundo. Uma partida que em palavras não há como ser descrita. Por sorte, temos as imagens e lembramos daquela noite como se fossem hoje e por conta desse jogo que esperamos a cada partida uma nova epopéia para ser relembrada. Enquanto jogos como esse não acontecem, apreciamos o que a história nos deu. Quem agradece é o futebol.

Texto: Max Galli

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