José Ribamar: Um anjo torto, um canhoteiro

José Ribamar não é ninguém, mas Canhoteiro, sim, um gênio indomável, um boêmio nato, um maranhense que fez história lá para as bandas de São Paulo. E que história!

“Um pé de ouro, um peladeiro, mata no peito e beija o sol, balão de couro, bola de efeito, mas que bonito é o futebol”. Esse é um trecho da canção em homenagem ao protagonista do nosso texto de hoje, que tem como compositores, Fagner e Zeca Baleiro.

Crédito: Revista Manchete Esportiva - Ano 1957
Crédito: Revista Manchete Esportiva – Ano 1957

José Ribamar de Oliveira, maranhense da cidade de Coroatá, nasceu no dia 24 de Setembro de 1932. Não demorou muito para mostrar seu talento com a bola. Aos 10 anos, encantava a todos que assistiam as peladas em frente ao Mercado Novo, local que Seu Cecílio, pai de Canhoteiro, vendia mingau de milho e tapioca. Quando não estava jogando bola, ainda atraía olhares atentos para suas embaixadinhas com caixas de fósforos e moedas.

Como a maioria das crianças, ele não gostava muitos dos livros. Preferia os pés descalços chutando uma bola e seu pai desaprovava isso. Há relatos de que, quase sempre, a frase preferida de Seu Cecílio era: “O que vai ser desse garoto quando crescer? Vai terminar vendendo mingau no mercado como eu!”. Mal sabia ele que seu filho seria um dos maiores ídolos do futebol nacional.

Ainda criança, costumava jogar chupando o dedo. Isso passou longe de lhe privar a habilidade com os pés. Logo chamou atenção dos times maranhenses e acabou indo jogar no infantil do Moto Club de São Luís, mas rendeu mesmo nas categorias de base do Paysandu. Entretanto, o futebol não foi seu primeiro emprego. Antes disso, foi motorista de entregas no mesmo mercado que deu seus primeiros chutes. Isso mudou quando o presidente do América de Fortaleza o levou para o selecionado cearense.

Na década de 1950 e 1960 ainda não existia o Campeonato Brasileiro de clubes, somente de seleções estaduais. Foi em uma dessas competições que o São Paulo colocou a mão no cofre e tirou a expressiva quantia de 100 mil cruzeiros antigos para adquirir um, até então, desconhecido ponta esquerda.

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Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memoria Publica – Jornal Última Hora

A principal arma de canhoteiro era a extrema rapidez e habilidade, gostava de divertir o público com seu futebol arte. Seus dribles eram tão eficientes que muitas vezes os zagueiros não conseguiam lhe marcar e se contentavam em admirá-lo. No São Paulo, sua estreia foi contra o Corinthians, time que mais sofreu com sua magia. Logo, ganhou status de ídolo no tricolor paulista. Vestiu a camisa em 415 oportunidades e balançou a rede 103 vezes, todas elas com marca própria de pura magia nos pés. Na época era comparado por muitos com Mané Garrincha e, de fato, seu futebol ia de encontro com o de Mané, muita alegria nos pés e controle de bola. Não havia um conversa de boteco sobre futebol em que o ponta não fosse citado. Boteco que, aliás, era muito frequentado pelo próprio atleta.

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Canhoteiro pela Seleção

Com tanto sucesso, rapidamente foi convocado à Seleção e já entrou marcando um gol contra o Paraguai. José Ribamar tinha tudo para ser o dono da posição na equipe canarinha, mas uma vida regada a álcool dificultou um pouco essa ascensão. O mesmo teve até seu nome na lista de convocados para a Copa de 1958 e certamente seria titular se não tivesse sido cortado por conta da boemia, que muitas vezes o fez se atrasar para os treinos.

Com o corte, ele não estendeu muito suas participações na seleção, fazendo somente 16 jogos e apenas o gol na estreia. Pelé, inclusive, costumava dizer que tinha dois ídolos: Canhoteiro e Zizinho. Em suma, Canhoteira era a filosofia da CL viva. Um boêmio nato e um gênio indomável.

Texto: Pedro Weverton  @pedro2we

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