Juruca: o técnico de verdade

Conheça a mistura entre futebol e amizade

Por: Jean Costa, RS

Caro amigo e leitor do Cenas, a crônica de hoje não é sobre um treinador famoso. O comandante que vocês estão prestes a conhecer nas próximas linhas foi técnico de quem vos escreve e de moralizador tinha muito. Jurandir Rubens da Costa Gomes, o Juruca. Uma mistura de Augustinho Carrara com Givanildo, Simeone, Senhor Waldemar, Conte, Luxa, Roth, entre outros. O homem era um excelente “professor” e não abdicava do danone. – um dos melhores amigos dele – ao lado do seu Escort verde.

Conheci o velho no colégio. Era ele quem comandava a escolinha de futsal do São Marcos, em Alvorada, no Rio Grande do Sul. Na época, eu tinha por volta de 8 ou 9 anos, mas fazia jus à paixão por futebol ao acompanhar o pessoal de categorias acima. Era uma espécie de mascote. Como a presença na arquibancada era rotineira, havia esperança de ser chamado pra jogar. Até que este dia chegou. Ali a amizade foi iniciada e, é claro, as cobranças também. Mesmo sendo mais novo, eu  não conseguia escapar dos treinos. “Chuta com a p…a da esquerda”, dizia o comandante. Como isso irritava. Vez ou outra aplicava um “canhotaço de direita” para não bater com a canhota, só que nem sempre dava certo. A grande verdade é que nunca aprendi a chutar bem de esquerda.

Como citado antes, Jurandir não dispensava o danone. Há boatos que no Escort sempre tinham bebidas de teor, mas como a molecada nunca deu sorte de ver, virou lenda. Muito se fala sobre jogador que treina sob suspeita de estar alcoolizado, mas e quanto ao treinador que comanda o treino desta forma? Foram muitas as vezes em que desconfiamos. Até que chegou o momento que tivemos certeza. Era dia de atividade de uma das categorias superiores, mas dessa vez não havia vaga sobrando. A chinela cantava e o Juruca sob comportamento muito suspeito. Até que em uma jogada – a mais inusitada que vi até hoje no futsal – ele marcou impedimento. Sim, caro leitor. Inacreditável! Eu como não entendia muito na época achei normal, mas logo que as risadas surgiram, vi que algo estava errado. O tempo passou e as gargalhadas de quem vos conta vieram. Aquilo foi épico para o esporte! Não se sabe por qual motivo, razão ou circunstância ele marcou impedimento, mas ele havia marcado. Pena não ter sido registrado. Nunca mais aconteceu.

O velho Jurandir não era só um treinador chegado ao danone. Ele nos cobrava, mas sabia como nos fazer jogar. Era um pai para a molecada. O xingamento fazia parte da rotina. Usávamos palavras ríspidas quase todo o tempo, mas sempre com o devido respeito. Assim a história foi se construindo ao longo dos anos. Com “elogios” e “cobranças” à lá Luxa, era de se esperar que conquistássemos títulos. E não foram poucos. No entanto, a rotina também nos reservou derrotas, o que é normal. Quando tinha jogo fora de casa, mesmo que não fosse a intenção, o homem sabia como alimentar a vontade da gurizada. Ao final de cada discurso motivacional vinha a famosa oração. Depois, era “vai tomar no…” pra tudo que é lado para entrar em quadra no clima.

Ô saudade dessa época! Sinto falta até dos xingamentos e das rotineiras expulsões. E por falar em cartão vermelho, eu tinha o hábito de sempre ao marcar um gol gritar pro goleiro “pega filho da p…”. Isso rendia punição, mas como não conseguia parar, acabava indo para o chuveiro mais cedo. Certa vez, o Juruca não pôde nos acompanhar numa partida contra a Sogipa. Neste duelo, o fixo e hoje escritor da CL por pouco não quebrou a perna de um adversário. De fato, ele se machucou feio mesmo, nem Odvan e Jr. Baiano fizeram alguém levantar voo daquela maneira. Quando Jurandir soube, acabou me deixando fora de alguns jogos, mas não adiantava muita coisa, já que a chinela sempre cantava.

É bem verdade que amizades passam por provas de fogo. Quando deixei de ser o zagueiro titular isso ficou em evidência. Faltar treinos virou rotina. Como consequência não jogava mais. “P@#$a Juruca, o cara nem físico tem, recém se recuperou de pneumonia e eu que fico no banco?” disse isso após aplicar um longo mim acher na escolinha. O afastamento não foi dos melhores. Tempos depois voltei e como titular, mas já não era a mesma coisa. Não demorou muito para abandonar de novo, mas a amizade continuou. Por sinal, o próprio velho que me apresentou a vida noturna. Foi em Pinhal, uma praia do Rio Grande do Sul. Era uma casa de pagode das antigas, mas os cantores eram daqueles que faziam doer os ouvidos. O som não era dos melhores, mas era pagode e com certeza foi momento inesquecível. Que treinador faz isso pelo seu atleta?

Juruca, o primeiro da direita pra direita, de colete amarelo (foto: arquivo pessoal)
Juruca, o primeiro da direita pra esquerda, de colete amarelo (foto: arquivo pessoal)

Já fazia parte da categoria dos veteranos quando deixei a escolinha. Mesmo após o abandono, o futebol continuou interligando a nossa amizade. Como ele era muito amigo do meu pai, não era incomum que os encontros acontecessem. A maioria deles em campos de futebol de Alvorada-RS. Eles disputavam campeonatos juntos e nos amistosos sempre davam um jeito de me colocar no time. Eram dois técnicos em campo e isso ajudou no meu crescimento. A primeira vez que marquei nesses amistosos em meio aos veteranos veio de uma jogada dos dois, na qual o comandante da escolinha me deixou “pifado” para balançar a rede.

O tempo passou e acabei virando goleiro, mas sempre que possível jogava na linha para manter o condicionamento. O Jurandir tinha um time que jogava sempre às quintas-feiras às 21h. Por um tempo fiz parte dessa equipe. Mesmo já não sendo mais o meu “professor”, as cobranças se mantiveram. Foram várias as vezes que fechei o gol, mas no final o velho fazia questão de me cobrar ainda mais. Dava até vontade de voltar no tempo em que tinha 9 ou 10 anos e murchava os pneus do Escort.

Questionamentos à parte, lembro de um jogo no qual o adversário tinha o Choco. Pra quem não lembra, ele havia sido profissional de futsal. Recém saído de uma partida de handball – quebrava um galho pra agradar as moças – Juruca veio em minha direção me informar sobre o confronto. O pavor bateu, mas o que ele me falou foi o suficiente pra mudar. “Ta vendo aquele cara ali? Foi profissional e eu sei que tu provavelmente não conhece, mas hoje tu vai parar ele”. Dito e feito. Parei tanto o Choco quanto o resto do time. Foi um dos meus melhores jogos, mas isso não é nada comparado a ter alguém que te apoie e incentive.

Apesar dos problemas, o Juruca era um ótimo comandante e amigo. Não era o treinador que queríamos, mas sim o que precisávamos! Técnico de verdade era ele!

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