Kindermann: uma história campeã apagada pelo crime

Kindermann foi campeão da Copa do Brasil em 2015 (foto: Rafael Ribeiro / CBF)
Por: Cristóvão Vieira, SC

Em março de 2015, o Kindermann, equipe de futebol feminino da cidade de Caçador (SC) se consagrava campeão da Copa do Brasil. Apenas oito meses depois, o clube anunciava o encerramento das atividades esportivas. O motivo: o cruel assassinato do então técnico e maior entusiasta da equipe, Josué Henrique Kaercher. Motivado pela inveja – e pelo álcool -, o ex-técnico do mesmo clube, Carlos Corrêa, não suportou acompanhar a trajetória campeã de Josué. Em uma noite de bebedeira, Carlos invadiu o hotel onde se encontrava o então técnico do Kindermann e o assassinou a sangue frio com uma pistola calibre 32, no dia 9 de dezembro.

Diferente do futebol masculino, onde há dezenas de dirigentes e torcidas ativas que não deixam os clubes sumirem do mapa em nenhuma circunstância, os times do naipe feminino geralmente dependem de um abnegado amante da modalidade. No caso do Kindermann, essa pessoa teve a vida e seus sonhos interrompidos, o que ocasionou também o fim de uma história campeã.

Josué, o técnico campeão da Copa do Brasil assassinado meses depois do título (foto: Reprodução / Facebook)
Josué, o técnico campeão da Copa do Brasil assassinado meses depois do título (foto: Reprodução / Facebook)

 

Trajetória do Kindermann

A Associação Esportiva Kindermann surgiu no ano de 1975 com o objetivo de promover o esporte na cidade de Caçador, oeste catarinense, cidade de pouco mais de 75 mil habitantes que fica a quase 400 quilômetros da capital Florianópolis e a 220km de Chapecó. Tinha como principal patrocinador o hotel de mesmo nome. A partir principalmente dos anos 1990, o clube observou o potencial que as atletas mulheres teriam para proporcionar alegria à comunidade. Em um período de total descrédito e preconceito com as mulheres que preferiam a bola à boneca, o Kindermann apostou nessa modalidade e viria a colher frutos no futuro.

Não apenas o futsal, que era uma espécie de válvula de escape para jogadoras que tinham paixão pelo futebol, interessava ao Kindermann. Com ousadia, o clube manteve escolinhas também para a prática no campo. Em meados dos anos 2000, enquanto as atletas cresciam, surgiu a necessidade de ter uma equipe adulta que jogasse os escassos campeonatos profissionais da modalidade.

Em 2008, surgiu o primeiro grande título da equipe. Disputando o Campeonato Catarinense com outras seis equipes, número considerado grande para a competição, o time fez uma boa campanha e ergueu o caneco vencendo o Avaí por dois placares idênticos de 3 a 0, na ida e na volta. Aí surgiu uma verdadeira hegemonia: todos os cinco troféus seguintes do Catarinão Feminino também foram para Caçador.

 

Time caçadorense perdeu apenas uma partida na Copa (foto: Reprodução / Facebook)
Time caçadorense perdeu apenas uma partida na Copa (Foto: Reprodução/Facebook)

 

Mas a grande conquista ficou para o início de 2015. Jogando a Copa do Brasil que contou com tradicionais equipes brasileiras – pelo menos no futebol masculino – como Botafogo, Náutico, Santa Cruz, e até a vizinha Chapecoense, o Kindermann fez uma campanha maravilhosa.

Na estreia, enfrentou o Comercial, do Espírito Santo, no território adversário. Com tranquilidade, o time despachou as capixabas vencendo por 3 a 0 e eliminando o jogo da volta. Contra o Abelhas Rainhas, do Piauí novamente vitória. O 1 a 0 obrigou o jogo da volta, vencido no estádio Carlos Neves, em Caçador, por 3 a 1. Já nas quartas de final, o Kindermann visitou o São José e venceu por 3 a 0 a primeira, segurando empate em 1 a 1 na última.

Na semifinal contra o Foz Cataratas, a primeira e única derrota na competição: 1 a 0 no Paraná. Aí o time chamou a responsabilidade em Caçador e goleou, com mais um 3 a 0 anotado. A grande final foi contra a também tradicional Ferroviária. A equipe paulista segurou o 3 a 3 em casa, mas em Santa Catarina foi superada por sonoros 5 a 2. Aí a equipe do oeste catarinense finalmente podia soltar o grito de campeã e se orgulhar de um título nacional.

 

História de um crime

Carlos Corrêa era técnico de futsal e futebol. Chegou a comandar o Kindermann, mas foi dispensado. Guardou mágoas. Mesmo comandando outra equipe de futsal tradicional da cidade, o Pantera Negra, não ficou satisfeito com seu destino na equipe que despontava no cenário nacional do futebol feminino.

No dia 9 de dezembro de 2015, ficou sabendo que um grupo de dirigentes do clube estava reunido em um hotel. O seu desejo era matar várias pessoas, não apenas uma. Após uma noite regada a muita bebida, Carlos invadiu o local onde os dirigentes e técnicos estavam. Começou a chamar nome por nome as pessoas que conhecia e que queria assassinar, empunhando a 32. Os nomes que chamava estavam escritos em uma lista a punho. O primeiro foi Josué. Depois, chamou outras pessoas também envolvidas com o Kindermann. Ele não parava de engatilhar o revólver e dizer que ali acabaria a história dos dois clubes caçadorenses, tanto o campeão da Copa do Brasil quanto o Pantera Negra.

Após muita discussão, ele disparou contra Josué. Depois, tentou atirar em Richard Kindermann, um dos diretores do time. A arma falhou e Richard entrou em luta corporal com Carlos, conseguindo neutralizá-lo com a ajuda dos demais. Carlos foi preso e o técnico campeão da Copa do Brasil de 2015, morto a caminho do hospital.

 

Fontes: GloboEsporte, CBF, Notícia Hoje, EBC

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