Lauro: o volante que virou símbolo na história do Juventude

O jogador defendeu a camisa verde e branca em 571 jogos

(Foto: Daniela Xu / Agência RBS)
Por: Jean Costa, RS

Lauro Ferreira da Silva, 43 anos, o Laurinho Guerreiro como foi carinhosamente batizado pela torcida, nunca imaginou que em meio a tantos ídolos na história do futebol, logo ele, se tornaria o retrato mais simbólico do Juventude. São 571 jogos, títulos históricos, vitórias e também decepções. Os caminhos se cruzam e falar do time de Caxias de Sul  sem lembrar do volante é pouco provável.

O cabeça-de-área chegou ao alviverde com 15 anos para integrar a base. Vindo de Alegrete, Rio Grande do Sul, foi formado no clube, que não vivia um bom momento. No entanto,  para o meio campista aquela era a oportunidade que precisava agarrar de qualquer maneira.

— “Era um tempo difícil para o clube. Mas, para mim, era tudo novidade. Sair de uma escolinha em Alegrete e estar em um clube era o meu grande sonho que se realizava” — afirmou.

Chegar na base era apenas uma prévia do que viria pela frente. Laurinho não imaginava que no dia 28 de maio, num amistoso contra Associação Atlética Ortopé, estaria disputando apenas a primeira de 571 partidas pela agremiação. Naquele dia, ainda com 17 anos, Lauro entrou no decorrer do jogo.

Duas semanas depois, no dia 12 de junho de 1991, disputou o segundo confronto com a camisa profissional. Foi o primeiro duelo como titular. A equipe caxiense venceu o Pradense, em Antônio Prado-RS, por 2 a 1, em amistoso. Eram apenas os primeiros passos, o resto é história!

Em 1993, o Juventude havia fechado acordo de co-gestão com a Parmalat, o que acabou rendendo bons frutos. Ainda naquela temporada, o clube garantiu acesso à Série B do Brasileiro do ano posterior, onde Lauro teria papel fundamental. Já em 1994, o Alviverde dava início a sua transformação para se tornar a terceira força do Rio Grande do Sul. No estadual, a equipe da serra chegou à final e foi vice-campeã, sendo parada apenas pelo Internacional.

No mesmo ano, carimbou o acesso à série A, com o título da Série B do Campeonato Brasileiro. Era a primeira taça de Lauro com a camisa verde e branca. A temporada também ficou marcada como a que o volante mais vezes entrou em campo pela equipe da serra. Foram 55 ao longo do ano.

Lauro, agachado, é o primeiro da esquerda pra direita (Foto: Arquivos E.C Juventude)
Lauro, agachado, é o primeiro da esquerda pra direita (Foto: Arquivos E.C Juventude)

Em 98, Lauro fez parte da equipe que encerrou a longa hegemonia da dupla GreNal ao conquistar o campeonato gaúcho de forma invicta, o que tornou o triunfo ainda mais simbólico. O cabeça-de-área virava ídolo de vez da equipe. Na grande final, o Juventude não tomou conhecimento do Inter no jogo de ida e aplicou 3 a 1, de virada, no estádio Alfredo Jaconi. O centroavante Christian abriu o placar para o Internacional, mas o volante Flávio marcou duas vezes e Lauro deu números finais a partida.

No jogo de volta, o colorado bem que tentou furar o bloqueio alviverde, mas de nada adiantou. Defesa bem postada e uma dupla de volantes decisiva mais uma vez deram conta do recado. Fim de papo. 0 a 0 e o troféu garantido de forma invicta. E o melhor ainda estava por vir.

Maior glória de Caxias do Sul 

E 1999 foi o ano dos sonhos. Laurinho Guerreiro conquistava seu terceiro e maior título com a camisa alviverde. O Juventude se consagrava campeão da Copa do Brasil. Não bastasse o feito ser histórico por si só, a equipe gaúcha atropelou o Fluminense nos dezesseis-avos de final. Bateu Corinthians e Bahia nas oitavas e quartas, respectivamente.

Em seguida, O Internacional surgia no caminho do Papo, mas acabou sucumbindo frente à força Jaconera. O primeiro jogo terminou sem gols em Caxias, mas algo maior estava por vir. Cerca de 70 mil colorados espremiam-se, ansiosos para ver o time chegar a uma final de competição nacional que não acontecia desde 92, mas não foi dessa vez. O Juventude aprontou… e como. O Alviverde da serra aplicou uma goleada avassaladora de 4 a 0 em pleno Beira-Rio, assim calando a torcida colorada e se garantindo na final.

Como se já não fosse bom o bastante, o destino ainda presenteou o time com algo a mais. A final contra o Botafogo era o último passo antes do paraíso. E os Deuses do futebol conceberam este desejo. Vitória dentro do Alfredo Jaconi por 2 a 1, na qual Lauro havia sido desfalque importante do clube, mas na volta ele estava presente. Um Maracanã com mais de 100 mil pessoas o esperava e a equipe da serra gaúcha conseguiu segurar o resultado e garantiu a maior conquista de sua história.

No segundo semestre de 99, após a conquista da Copa do Brasil, transferiu-se para o Paulista, de Jundiaí, onde ficou por uma temporada. Em 2003 teve breve passagem pelo Grêmio. E em 2004, jogou o primeiro semestre pela Ulbra, onde foi vice-campeão gaúcho. Depois, acertou sua volta ao Juventude, onde ficou até 2010.

Em 2003, iniciou o curso de Educação Física pela Ulbra, em Canoas. O calendário apertado de jogos, porém, dificultou a vida estudantil, mas não fez com que desistisse. O volante apenas teve seu sonho adiado.

O jogador fez parte da melhor geração da história, mas ele sequer imaginava que atingiria feitos históricos com a camisa da equipe. Quando ficou próximo da partida de nº 500, o clube lançou uma campanha comemorativa para a marca. Em cada jogo, Lauro utilizou uma camisa diferente como se fosse uma espécie de contagem regressiva para o momento único. Começou na 493. Infelizmente, o jogo de número 500 não guarda boas lembranças.

Era a final do Campeonato gaúcho de 2008 e o Juventude havia vencido a primeira partida por 1 a 0, mas o destino quis que a marca histórica de Lauro também agregasse outro acontecimento incrível. O internacional goleou o Juventude por 8 a 1 no duelo de volta e sagrou-se campeão naquele ano. Uma mancha irreparável para uma marca que poucos tiveram por onde passaram.

Ao longo de suas 571 partidas pelo clube, o volante encerrou sua passagem em um amistoso festivo contra o Grêmio, no dia 10 de julho de 2010. Com um empate de 2 a 2 da equipe alviverde contra o Tricolor, a cidade de Caxias do Sul via o ciclo de um símbolo do clube e até mesmo da cidade se encerrar. O jogador disputou apenas os primeiros 15 min do jogo e foi substituído com aplausos e festa da torcida local. Os torcedores acreditavam que era o fim da história e da carreira. Seria realmente maravilhoso se o atleta encerasse a carreira no clube onde começou, mas como a vida é uma caixinha de surpresas…

A despedida de Laurinho Guerreiro (Foto: O Caxiense Jornal)
A despedida de Laurinho Guerreiro (Foto: O Caxiense Jornal)

No dia 15 de dezembro de 2010, contrariando o que pensava torcida, diretoria e até quem mesmo não era torcedor da equipe alviverde, o volante que recém havia saído do clube que o transformou em símbolo foi contratado pelo Esportivo de Bento Gonçalves, onde atuou somente por 14 partidas, antes de pendurar as chuteiras, em 2011.

Assim que deu adeus aos gramados o ex-volante pôde retornar ao ensino superior e focar nos estudos que haviam sido temporariamente interrompidos. O ex-jogador era bem articulado, se dedicava aos estudos mesmo quando era profissional e apesar das dificuldades da vida corrida de um atleta, não deixou o sonho de lado. Tamanha dedicação resultou na sua formação em Educação Física pelo Centro Universitário da Serra Gaúcha – FSG em 2014 e, atualmente, é aluno à distância do curso de Preparação Física do Futebol, pela Universidade do Futebol, do Rio de Janeiro.

Mas um pouco antes, em 2013, uma surpresa. Com 40 anos, o Laurinho Guerreiro aceitou o desafio de retornar aos gramados depois de dois anos parado para defender o Garibaldi na terceira divisão do Campeonato Gaúcho. Veio como grande nome para conseguir o acesso, mas nem o volante e nem a equipe foram capazes de atingir o feito pretendido.

O bom filho a casa torna, mas dessa vez não é como jogador (Foto: Arthur Dallegrave / E.C.Juventude)
O bom filho a casa torna, mas dessa vez não é como jogador (Foto: Arthur Dallegrave / E.C.Juventude)

Atualmente, o Laurinho Guerreiro o é preparador físico da categoria sub-17 do Juventude. Se dentro de campo o seu ciclo como jogador e pelo clube se encerraram, fora das quatro linhas uma nova história começa para aquele que se tornou um dos maiores ídolos, se não o maior na história do clube.

Fontes: Terra.com.brUol.comClicrbs e Juventude.com

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