“Los Puros Criollos” – O timaço do Cartel de Medellin (Parte 2)

Em seu livro (“Pablo Escobar, Meu Pai”), Juan Pablo, filho do narcotraficante, diz que a maioria dos casos contados não passam de lendas, e ele ratifica, dizendo que falar de um morto a menos não melhoraria a reputação de seu pai. Ele conta ainda que muitas histórias serviam apenas para que alguns clubes justificassem suas derrotas, independente das penalidades mal batidas, gols perdidos ou qualquer outra coisa que fosse impossível ser creditada ao seu genitor – o Olimpia do Paraguai até hoje chora pela derrota na Libertadores de 89, em um jogo onde aparentemente não se percebe qualquer intervenção da arbitragem.
Segundo ele, Pablo era apenas um fanático, assistia e ouvia todas as partidas que pudesse, não importando o lugar. Escobar era mesmo apaixonado por futebol. Em uma de suas muitas fugas, algo cômico aconteceu. Ele carregava consigo um radinho de pilha colado ao ouvido, e, mesmo em um momento tenso junto ao seu principal “sicário”, ele conseguia manter a calma para ouvir uma partida:
-Pope, pope…
-Diga, Patrón.
-Gol de Colombia!!!

Esse “causo” foi contado pelo próprio Popeye, um dos principais guarda-costas do Senhor do Tráfico, no documentário “Los Dos Escobar” (Os Dois Escobar), onde a história do chefe do Cartel de Medellin se cruza com a do zagueiro Andrés Escobar, morto em 1994.

Documentário “Los Dos Escobar” (Imagem: divulgação)
Documentário “Los Dos Escobar” (Imagem: divulgação)

Eles não tinham nenhum parentesco, mas se conheciam, obviamente. Pablo Escobar morreu no dia 2 de dezembro de 93, durante uma perseguição policial, nas proximidades do Estádio Atanasio Girardot. Andrés foi morto no dia 2 de julho de 94, no estacionamento de um bar em Medellin, lugar onde ele havia ido para conversar com alguns amigos e tentar esquecer um pouco o gol contra que havia feito na Copa do Mundo, poucos dias antes. Esse mesmo lance foi o motivo da discussão com um dos guarda-costas dos irmãos Pedro e Santiago Henao: ambos supostamente teriam perdido dinheiro em uma aposta com a eliminação colombiana na Copa do Mundo.

O funeral do zagueiro marcou o fim de uma das épocas mais trágicas e vencedoras do futebol da Colômbia. Milhares de pessoas foram ao enterro do “Cavaleiro do Futebol”, um dos maiores ídolos da história do Atlético Nacional. A conexão das histórias entre o vilão e o atleta se destaca como um dos últimos capítulos daquela que foi uma das maiores gerações do futebol colombiano.

Muito antes disso, no começo da década de 80, o narcotráfico começou a se aproximar do povo menos favorecido, já que o poder público não chegava até a população mais carente, algo muito comum aqui pelo Brasil também. Pablo Escobar começou a financiar diversos projetos para os mais pobres. Construiu campos, bancava times, e até casas populares chegou a erguer – ele era uma espécie de Robin Hood latino. Desses campinhos de várzea, os talentos começaram a brotar. Muitos meninos que teriam o tráfico como seu único caminho, passaram a se dedicar ao futebol. Um projeto até meio contraditório, já que eles poderiam ser possíveis soldados do Cartel. Mas, vamos pensar por outro lado: com o apoio da população, o traficante ganhava a proteção necessária para encobrir suas atividades ilícitas, e ainda almejar seu projeto mais audacioso, ser político.

Pablo Escobar inaugurando mais um campo de futebol em Medellin (Foto: Reprodução)
Pablo Escobar inaugurando mais um campo de futebol em Medellin (Foto: Reprodução)

Em paralelo, o Club Atlético Nacional resolve resgatar suas raízes e contratar apenas jogadores colombianos para reforçar seu elenco, dispensando assim os estrangeiros que faziam parte do plantel, uma política parecida com a que o Athletic Bilbao já fazia na Espanha. Por toda a sua história, o clube sempre privilegiou essa ideologia nacionalista, mas teve que abrir mão durante um período, pois seus principais adversários se reforçavam cada vez mais com jogadores estrangeiros. Com o crescimento do futebol nas áreas mais humildes, os clubes começaram a receber e descobrir uma grande quantidade de jogadores talentosos. Foi nesse exato momento, mais precisamente em 1987, que o Nacional traz o técnico Francisco Maturana, e começa a nova era dos “Puros Criollos” (jogadores colombianos que atuavam pelo Nacional).

O clube alviverde já contava com uma base muito consistente. Tinha no gol o excêntrico René Higuita, o habilidoso Andrés Escobar na zaga, o cerebral meia Alexis Garcia e o centroavante trombador, mas artilheiro, John Jairo Tréllez. Além do treinador, também contaram com os reforços do zagueiro Luiz Carlos Perea, e os meias Gildardo Gómez e Leonel Álvarez. Assim nascia um elenco muito forte e capaz de quebrar a hegemonia dos seus adversários. Como todo bom trabalho, o resultado não chegou logo de cara. Na temporada de 87, o clube terminou na terceira colocação, e em 88 ficou com o vice campeonato, atrás do Millionarios, que conquistava o bicampeonato. Como consolação, o segundo lugar garantia uma vaga na Copa Libertadores do ano seguinte.

Continua…

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¡Dale dale, Atlético!
¡Hasta luego, amigos!

Texto: Wagner Ponce https://twitter.com/wagnerponce

Confira os outros textos da série:
Parte 1: http://cenaslamentaveis.com.br/los-puros-criollos-o-timaco-do-cartel-de-medellin-parte-1/
Parte 3: http://cenaslamentaveis.com.br/los-puros-criollos-o-timaco-do-cartel-de-medellin-parte-3/
Parte 4: http://cenaslamentaveis.com.br/los-puros-criollos-o-timaco-do-cartel-de-medellin-parte-4/

 

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