Lugar de mulher também é no futebol

A luta histórica das mulheres para jogar futebol

Seleção Brasileira feminina de futebol na Rio 2016 (Foto: Reprodução/CBF)

O que você faria se quisesse jogar futebol e não lhe deixassem fazer isso? E se houvesse uma lei dizendo que o seu corpo não era apto ao futebol e a outros esportes que exigissem “virilidade”? E se até lhe deixassem praticar o esporte que você ama, mas sempre criticassem o seu comportamento por essa escolha? Se desde a mais tenra infância te fosse dito que a bola, o campo ou a arquibancada não é um espaço que te pertence? Isso tudo aconteceu e acontece em vários cantos do mundo, inclusive aqui no Brasil. Sabendo disso, acho que no mínimo você iria querer fazer uma revolução para que tudo isso mudasse, não é?

Bom, venho aqui te informar que desde o século XIX essa revolução está em curso. Mary Hutson, em 1894, já falava as seguintes palavras : “Eu fundei o British Ladies Football Club com o intuito de provar ao mundo que as mulheres não são as criaturas ‘ornamentais e inúteis’ que os homens têm pintado. Devo confessar que, sobre todos os assuntos em que os sexos estão tão divididos, minhas convicções são pela emancipação. Espero pelo momento em que as mulheres se sentarão no Parlamento e terão voz nas negociações, especialmente nas principais”.

Hutson foi a criadora do primeiro time de futebol feminino da história. A equipe em questão foi fundada na Inglaterra em meio a primeira onda de profissionalização que ocorria no esporte pelos homens.

British Ladies Football Club, primeiro time de futebol feminino da história (Foto: Reprodução/Trivela.com)
British Ladies Football Club, primeiro time de futebol feminino da história (Foto: Reprodução/Trivela.com)

No Brasil não foi diferente. Sempre as mulheres estiveram acompanhando ou próximas ao esporte. Querendo sempre jogar, mas impedidas pela mentalidade extremamente machista e conservadora de nossa sociedade do início do século 20. Eu realmente me referi somente ao começo do século? Não pareceu, eu sei. E é interessante notar que os primeiros torcedores à beira do campo eram mulheres. Sim, o termo torcer (que dá a alcunha a todos que acompanham futebol hoje) surgiu em decorrência das moças nervosas que torciam os lenços que carregavam enquanto assistiam os jogos. Foram as meninas que primeiro nos ensinaram a simplesmente fazer isso que tanto amamos: torcer.

Mas elas não ficariam satisfeitas somente com o papel de torcer, arrumariam maneiras de jogar futebol. Em 1926, o Circo “Irmãos Queirolo” anunciava em seu espetáculo um torneio de futebol feminino, demonstrando o quão pitoresco era para a sociedade da época ver moças jogando aquele esporte tão viril. Nos anos 30, as mulheres aprenderam as regras do jogo e enfrentaram o preconceito jogando para o público em alguns momentos. Equipes como o “Casino Realengo”, o “ Benfica FC” e o “Primavera EC” são expoentes da luta contra o machismo no Brasil, e até jogaram na inauguração do estádio do Pacaembu uma partida preliminar a Flamengo e São Paulo (1940).

No período do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 1941, as mulheres são proibidas de jogar futebol e praticar outras modalidades esportivas através de um decreto-lei (Nº 3199) que legalizava o caráter machista vigente na época. A legislação dizia que tais atividades esportivas não eram da natureza feminina, contando com o suporte inclusive biológico dos médicos, (“o esporte pode alterar o equilíbrio endócrino das mulheres”), religioso das igrejas que consideravam a prática como descaracterizadora do ideal de beleza feminino e da moral e cultura dos anos 40, aonde a mulher caberia somente ser dona do lar, amorosa, carinhosa e fiel ao seu marido e filhos. Ilegalmente várias mulheres continuaram jogando, mas a Ditadura Militar endureceu ainda mais esta proibição em 1965 através da resolução 7/65 do Conselho Nacional do Desporto.

O primeiro campeonato mundial feminino (ainda sem a chancela da FIFA) ocorreu em 1970 na Itália, tendo como vencedora a seleção da Dinamarca para um público de mais de 50 mil pessoas. O Brasil fora convidado, porém nunca respondeu o convite feito pela FIEFF (Federação Independente de Futebol Europeu Feminino). Somente em 1979 o decreto-lei foi derrubado, permitindo a partir deste período o envolvimento das mulheres com estes esportes e principalmente com o futebol. Em 1983 a modalidade foi regulamentada, sendo assim incentivada a criação de alguns pequenos campeonatos. A Seleção Brasileira foi criada somente em 1988 (sendo 16 jogadoras da equipe do Radar, expoente do futebol feminino da época) para a disputa do Torneio Internacional de Futebol Feminino da FIFA, que ainda não autorizava a alcunha de Copa do Mundo para o torneio das mulheres. O campeonato foi realizado na China – como um evento-teste para a criação de um possível torneio mundial nos moldes da Copa do Mundo masculina.  

Primeira seleção brasileira feminina de futebol em 1988 (Foto: Reprodução/observatorioracialfutebol.com.br)
Primeira seleção brasileira feminina de futebol em 1988 (Foto: Reprodução/observatorioracialfutebol.com.br)

Em 1991, ocorre um torneio oficial da FIFA, que ainda não aceita a nomenclatura que falamos acima e por isso dá o nome da competição de um dos seus patrocinadores: M&M’s Cup. Somente com o sucesso do torneio, em termos de renda e público, é que a nomenclatura “Copa do Mundo de Futebol Feminino” é implementada e aceita sob a chancela da FIFA. Desde os uniformes das atletas ao calendário das competições soa desafiador para os organizadores devido ao preconceito a prática da modalidade, os jogos ocorreram a cada 48 horas e não havia camisas próprias para os times (sendo reaproveitadas as das seleções masculinas dos países).

De lá para cá, nossas meninas ganharam 6 campeonatos Sul-americanos, 3 jogos Pan-Americanos, conquistaram 2 vice-campeonatos olímpicos, 2º e 3º lugar em Copas do Mundo (2007 e 1999, respectivamente), dentre outros torneios de menor expressão. Chama a atenção o ótimo retrospecto e o quanto elas chegaram longe com tão pouco apoio. Tendo em vista que a modalidade sempre passou e passa por constantes pedidos das atletas para um maior incentivo do público, das confederações e dos clubes, já que praticamente não há calendário para o futebol feminino brasileiro.

Há a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro, tudo sendo disputado em no máximo 4 meses, que ocorre com públicos pífios, pouca divulgação, condições extremamente degradantes em termos de estrutura para a ocorrência do jogo, poucos patrocínios e times “semi-amadores”, já que as transferências das jogadoras, por exemplo, não gera lucro aos times como no masculino. Em 2013, o Ministério do Esporte resolve apoiar o Campeonato Brasileiro (que não ocorria desde 2001) e a Caixa Econômica Federal patrocina com pouco mais de 10 milhões de reais o campeonato, muito pouco se comparado aos valores do futebol masculino. Há depois a iniciativa por parte da CBF de formar a Seleção Permanente de Futebol Feminino para não deixar algumas atletas da seleção sem treinar ou jogar pela falta de calendário, mas a confederação não cumpre com todas as suas responsabilidades e não assina a carteira das jogadoras.

Com o 4º lugar das meninas na Olimpíada Rio 2016, já se discute o fim da Seleção Permanente pela falta de resultados. Chega a ser ridículo com a história do nosso futebol feminino. E pensar que o mundo todo já nos chamou de “O país do futebol”. O Cenas Lamentáveis encerra este texto com a seguinte pergunta: futebol pra quem?

 

Texto: Victor Portto

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