Machadão: Um templo de memórias e afetividades

SAUDADES ETERNAS DO MACHADÃO

Foto: Templos do Futebol
Por Dannilo Lins, RN

Escrever sobre o Machadão é uma tarefa extremamente difícil. É impossível resumir ou encontrar as melhores palavras para descrever a força e a representatividade daquele estádio para o futebol nordestino. Tomado por emoção e nostalgia, grafo essas linhas em forma de homenagem ao eterno João Machado.

Em 2009, Natal foi escolhida para ser uma das sedes da Copa do Mundo (2014). Diante do contexto de oportunidades para a Cidade do Sol, o Governo do Estado em parceria com a Prefeitura de Natal elaboraram um plano de reformas para que a capital se adaptasse às normas exigidas pela Federação de Internacional de Futebol (FIFA). Dentre tais reformas, sublinhou-se a demolição do estádio João Machado – o Machadão – e o início da construção do Arenas das Dunas.

Inaugurado em 1972, o Machadão começou a ser erguido na década de 1960, envolvido por questões políticas e para satisfazer as aspirações da população que, na época, clamava por um espaço de esportes para a cidade. Segundo constam os registros históricos, o primeiro nome dado ao Estádio foi Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, ou Castelão, mesmo título dado à arena de Fortaleza. Apenas em 1989 teve seu nome alterado para Estádio João Cláudio de Vasconcelos Machado, em homenagem ao ex-presidente da Federação Norte-rio-grandense de Futebol.
De acordo com Pablo Eduardo da Rocha Souza, em sua dissertação de mestrado sobre a história do João Machado, o estádio foi peça fundamental para o desenvolvimento do futebol natalense. Com ele, o esporte foi popularizado, profissionalizado e comercializado, transformando o Machadão em um ativo modernizante para a cidade. O “poema de concreto”, como ficou conhecido por muito tempo, devido à beleza de suas formas, impulsionou os clubes potiguares, aglutinou novos torcedores e serviu como templo para materialização das emoções e momentos marcantes do futebol no RN.

Foto: Tribuna do Norte
Foto: Tribuna do Norte

No Machadão, gênios da bola como Pelé e Alberi, desfilaram sua classe e elegância. Este encontro, inclusive, rendeu o recorde de público do estádio: 56.320 pessoas com mais de 50.000 pagantes, sendo aproximadamente 30 mil pagantes do lado Santista e 20 mil do lado do Mais Querido.

A demolição do Machadão carrega uma aura pesada de desrespeito à história e à cultura da cidade. Além disso, nos faz refletir de maneira profunda sobre a mercantilização do esporte. A construção da Arena das Dunas é um exemplo, ao passo que revela o verdadeiro significado da obra: atrair novos negócios para empresários, investidores e grandes corporações que aliaram sua imagem ao “projeto de estádio”. Piada do destino: atualmente, a Arena é tida por muitos como um “elefante branco”, crônica de fracasso anunciado desde sua especulação.

Certamente o futebol potiguar perdeu força com a demolição do Machadão. A falta de planejamento dos clubes e a negligência de dirigentes devem ser colocadas no montante de erros que corroboram para regressão dos clubes do RN. No entanto, o fim do João Machado é um componente decisivo deste cenário. Muitos torcedores se afastaram do estádio após a demolição do Machadão, resultado de uma decisão autoritária e desconectada com os causos, sentimentos e histórias vivenciadas naquele espaço.

O gramado do Machadão, seu concreto, seu entorno pulsante e tantos outros elementos icônicos, se misturam com as memórias e afetividades dos torcedores e clubes Potiguares. Títulos, comemorações, decepções, jogadas e elencos inesquecíveis, as escadas escuras de acesso que desembocavam nas arquibancadas fervorosas, os gritos da torcida, os portões, a geral. Tudo naquele estádio tinha uma história para contar. Uma relação de amor ao concreto passada de pai para filho-filha, uma espécie de escola onde se aprendia a torcer e amar o futebol.

Referências: SOUZA, Pablo Eduardo Rocha. O Campo e o Jogo: uma história do Estádio Castelão (1963-1991). 2012. 

1 Comentário em Machadão: Um templo de memórias e afetividades

  1. Não é verdade que a maioria no recorde de público do estádio era santista. Tamanha desinformação do autor do post. Pode-se dizer que muitos foram por admirar Pelé, mas a grande maioria torcia pelo ABC, até pq em Natal tem pouquíssimos – ou quase zero – santistas.

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