Machismo no futebol: da “piada” do impedimento à falta de patrocínio

Uma reflexão para ajudar a cessar o machismo no esporte que a gente tanto ama

Pra começo de conversa, respeita (Foto: ESPN)
Pra começo de conversa, respeita (Foto: ESPN)
Por Lola Ferreira, RJ

“Se você gosta de futebol, explica a lei do impedimento aí” ou “escala teu time pra eu ver se tu sabe mesmo!” são frases que 100% das mulheres que curtem e acompanham futebol escutam. Com pegada de piada e presente em várias rodas de amigos, estas frases apenas são a ponta de um iceberg que só cresce ao longo da História: o machismo no futebol. E ele é responsável não só por situações constrangedoras, mas também pela marginalização do futebol feminino profissional, da falta de investimento e de espaço na mídia para ele. 

Não há como negar que vivemos em uma sociedade machista, que espera que as mulheres se encaixem apenas nos padrões pré-determinados. Quando criança, brincar de boneca e casinha. Quando adolescente, falar de garotos e maquiagem. Quando adulta, gostar de sapatos e novelas. Em nenhuma etapa da nossa vida, até hoje, naturalizaram o futebol. Na infância, nunca ganhávamos um jogo de videogame com o tema, na adolescência não rolava convite pra fechar no time da escola, e na fase adulta acham que sentamos no bar em plena quarta-feira só para atrair homens. Majoritariamente, a sociedade acredita que mulher gostar de futebol não é genuíno, e isso é um ciclo.

Um decreto-lei de 1941, no Brasil, dizia que “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. E qual é a nossa natureza, se para jogar futebol nos basta dois pares de membros saudáveis? O que nos impede de acompanhar e gostar de futebol, se temos, nós, o mesmo cérebro e capacidade cognitiva que qualquer amigo/namorado?

Apesar de tantos anos depois, e não haver mais lei similar, acredita-se, ainda, que a “natureza feminina” pode ser barreira para qualquer coisa que se queira. Isto não é só com futebol. Automobilismo, ciências, cinema, lutas: as mulheres ainda brigam por equidade de direitos em todas elas. Por conta desse preconceito que já existe desde o nascimento, muitas mulheres se afastam do futebol e de outras áreas a elas negadas, e se reservam apenas o direito de cumprir o papel que se espera.

Quantas mulheres competentes estão por aí, com receio de expor ao mundo seu conhecimento ou aptidão para o esporte? Quantas Martas já não perdemos pelas dificuldades impostas a uma menina sonhadora?

As mulheres têm muito a ensinar (Foto: Reprodução)
As mulheres têm muito a ensinar (Foto: Reprodução)

Ela própria, inclusive, teve de lutar contra muita coisa para chegar aonde chegou, no topo do mundo. E o machismo, sim, foi uma delas. Em entrevista à BBC Brasil, a rainha do futebol conta que teve de ir para Suécia perseguir seu sonho, já que após jogar três anos no Vasco da Gama, o time feminino foi cancelado. E isto é muito comum. A estrutura oferecida às equipes femininas, bem como cota de patrocínio, não se mostra sustentável a longo prazo. Sem contar o velho preconceito de que falamos.

– “Menina jogando bola? Lugar de mulher é em casa, cozinhando, lavando roupa. Não é no campo de futebol”, dizem. Até hoje a gente vê como é difícil achar uma escolinha de futebol para meninas.

“Se eu tivesse ficado no Brasil, talvez eu tivesse chegado num ponto em que eu teria pensado que realmente era impossível continuar jogando” afirmou a rainha.

Ou seja, há 70 anos era impossível jogarmos futebol, e hoje temos Marta, que junto com Formiga e Bárbara, por exemplo, se mostra como uma das provas de que urge a necessidade da equidade no esporte, para eliminarmos de vez os episódios machistas que vemos.

Em agosto de 2016, Milton Neves falou que futebol feminino “não tem graça nenhuma”, ignorando todo o peso histórico de uma frase como esta, e o impacto dela para crianças e adolescentes que se espelham em atletas hoje reconhecidas para alcançarem um objetivo. Não discutirei gosto. Cada um tem o seu. Mas temos de ter responsabilidade, o que passou longe do jornalista neste caso.

Além disto, jornalistas mulheres, bandeirinhas e gandulas costumeiramente são resumidas somente como mulheres bonitas (realmente são!) e ignora-se todo o histórico e competência profissional delas. Como se as mulheres que lidam com futebol diariamente só estivessem em tal lugar para exibição dos corpos – o que não é verdade.

Em janeiro deste ano, a torcida do Lyon fez o inacreditável: ergueu bandeiras nas quais se lia que lugar de mulher era na cozinha, e não no estádio. Em pleno 2017.

Em pleno 2017, torcida do Lyon protagoniza episódio ridículo no estádio (Foto: Canal+)
Torcida do Lyon protagoniza episódio ridículo no Parc OL (Foto: Canal+)

O mais assustador deste caso é pensar que a equipe feminina do Lyon, por exemplo, é tricampeã da Champions League. É uma equipe que alcança resultados grandiosos, mas nem um pouco reconhecidos. O machismo cegou a própria torcida que, dentro do Parc OL, se manifestou contra mulheres responsáveis por grafar o nome do Lyon na história do futebol feminino de forma tão excepcional.

O machismo cega homens comuns, diariamente, que se recusam a conversar sobre futebol com mulheres por achar que elas não entendem ou gostam verdadeiramente do esporte. O machismo cega homens que têm poder e dinheiro para investirem no futebol feminino e, a partir disto, romper o ciclo preconceituoso que define a categoria no país, mas não o fazem. O machismo cega a publicidade, que somente associa a mulher ao esporte quando é para exploração do corpo dela, e pouco dá espaço para atletas e profissionais mulheres do ramo. A reprodução do machismo cega mulheres que, infelizmente, dizem que gostar de futebol não é coisa de mulher. Passou da hora de acabarmos com isto.

Não há “coisa de mulher” ou “coisa de homem”. Na vida, há coisas. E todas e todos nós podemos e temos o direito de gostarmos do que bem entendermos, praticarmos o que quisermos e termos os mesmo direitos e possibilidades garantidos para tal.

Aos homens, um pedido: não nos subjugue. Às mulheres, um apelo: não tenham medo. E isto quem fala é a única mulher presente numa redação (esta mesma, da CL!) com 35 homens. Ou seja: a gente pode ser o que quiser mesmo! 😉

Fontes: BBC Brasil, Governo FederalMetropolesOndda e Trivela.

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