Major League Soccer: como funciona o futebol do Tio Sam

A maior economia do mundo está se consolidando no futebol

O símbolo antigo e o novo da MLS (reprodução: Site Oficial da MLS)
Por Lucas Poeiras – MG

Os Estados Unidos tem uma cultura esportiva muito bem enraizada na sua sociedade. O seu apoio as mais diferentes modalidades em um sistema propício para aliar a educação com os jogos os fez crescer muito ao longo dos anos. O que faltava na terra de Jack Robinson e Martin Luther King era o esporte mais popular do mundo: o futebol. A antiga NASL (North America Soccer League) foi extinta em 1984 e os EUA ficaram mais de dez anos sem nenhum clube ou competição reconhecida pela FIFA. Este texto contará a história e o funcionamento do nosso amado esporte na terra da bola oval. Como será que o Tio Sam enxerga o futebol? Seria a MLS um fenômeno, ou a liga veio para ficar?

A Copa do Mundo de 1994 

A copa do mundo de 94 é extremamente marcante para nós brasileiros devido a vitória do Tetra. Romário, Tafarel e seus companheiros foram em direção a glória e assistiram Roberto Baggio bater uma das mais infames penalidades da história do esporte. Esta é a história que todos nós conhecemos e aprendemos a reverenciar desde sempre. Os EUA não tinham uma liga de futebol profissional até então. Mas há um motivo para o inexpressivo futebol norte-americano ter sediado uma copa.

Fomos tetra! (foto: Site História da Copas/Reprodução)
Fomos tetra! (foto: Site História da Copas/Reprodução)

O acordo que selou o destino da copa de 94 veio com a promessa de desenvolver uma liga profissional reconhecida pela FIFA na América do Norte. O modelo de Frachise extremamente rentável assim como o da NFL seria a escolha para atrair os investidores para o esporte. Então em 1996 a MLS funcionaria pela primeira vez com o reconhecimento da maior entidade do futebol.

O começo do novo futebol norte-americano

A primeira temporada teve como participantes dez franquias. Clubes empresa que são montados com a vontade empresarial e geridos através dos seus resultados econômicos. O sistema de franquia não permite que os clubes gerem dívidas e menos ainda façam loucuras administrativas para contratar jogadores. O modelo procura ser bastante equilibrado também esportivamente, com formas de melhorar os times ao longo do tempo.

As primeiras temporadas foram disputadas em estádios compartilhados com o futebol americano e baseball. Os campos eram menores e adaptados para serem multiuso. Ainda existem franquias que compartilham os estádios, como por exemplo o NY City que compartilha o Yankees Stadium com a famosa franquia do Baseball.

Yankees Stadium (Foto: MLS site oficial/Reprodução)
Yankees Stadium (Foto: MLS site oficial/Reprodução)

A primeira franquia a ser dona de um estádio de futebol foi o Columbus Crew que construiu seu templo na cidade de Columbus no estado de Ohio. A inauguração da casa nova veio em 1999 com grande público e uma vitória histórica por 2 a 0 em cima do New England Revolution. O MAPFRE Stadium sagrou-se como o primeiro estádio próprio para o futebol a ter uma partida profissional reconhecida pela FIFA em solo norte americano. A iniciativa pioneira estimulou outros clubes a construírem suas arenas.

Várias cidades propuseram a sua entrada e o investimento necessário para fazer parte da liga. Cidades como Salt Lake City, Chicago e Houston construíram estádios  ou tornaram suas arenas multiuso e passaram a fazer parte da MLS. Em 2007 a liga se tornou internacional com a entrada da cidade canadense de Toronto. A boa relação entre os dois países proporcionou a possibilidade deste investimento e fez a liga crescer em público também. Hoje, Montreal e Vancouver também fazem parte do torneio.

O estádio do Columbus Crew (foto: Site Oficial/reprodução)
O estádio do Columbus Crew (foto: Site Oficial do Columbus Crew/reprodução)

Teto salarial: um exemplo para a competitividade 

O sistema básico da MLS a respeito dos contratos foi baseado na experiência da NFL com o “salary cap” ou teto salarial. Os jogadores recebem contratos em pé de igualdade com mínimo e máximo nas categorias de sênior, reserva e designado. O valor total dos contratos é igual para todas as franquias. Se o valor total  a ser gasto por ano com os jogadores for 100 dólares por exemplo, todos os 22 times terão que adequar seus plantéis a caberem dentro desse teto. Essa distribuição igualitária serve para evitar a dominância de um clube mais rico.

– O jogador designado: a Lei de Beckham 

O astro David Beckham cumpriu seus cinco anos de contrato com o Real Madrid e estava livre para negociar com outros clubes. O teto salarial não permitia atrair craques desse nível que certamente teriam mercado em vários países e campeonatos bastante competitivos. Uma exceção a regra foi implementada para que essas estrelas pudessem ingressar e melhorar o mercado americano. Surgiu o contrato de jogador designado.

Em 2007 Beckham assinou pelo La galaxy (fonte: The Guardian/Reprodução)
Em 2007 Beckham assinou pelo La galaxy (fonte: The Guardian/Reprodução)

O jogador que possui o contrato designado são os mais bem remunerados em toda a franquia e em toda a MLS. Cada clube poderá ter até três jogadores sob esses termos, sendo que o terceiro custará 150 mil dólares a mais para a liga. Isso possibilitou a contratação de estrelas como Kaká, David Villa, Pirlo entre outros, e ajudou a manter o talento local na liga com craques como Dempsey, Tim Howard e Landon Donovan.

Superdraft: a chance de dar a volta por cima 

O sistema chamado superdraft é um dos mais interessantes modos de trazer equilíbrio ao esporte. O esquema é largamente usado no EUA e está presente em praticamente todos os esportes, sendo que o destaque vai para o Draft da NFL, evento assistido mundialmente. Seu funcionamento é muito importante para a reconstrução dos times que falharam na temporada.

Atletas que tenham se graduado nos programas esportivos ou universitários através da NCAA estão elegíveis para participar das escolhas dos clubes. Os melhores jovens jogadores das ligas espalhadas pelo país são convidados a fazerem os testes físicos e olheiros de todos os times avaliam as possibilidades.

O Draft acontece anualmente em cidades do EUA (fonte: Site Oficial da MLS/Reprodução)
O Draft acontece anualmente em cidades do EUA (fonte: Site Oficial da MLS/Reprodução)

– Os últimos serão os primeiros: a lista do Draft

A ordem do Draft é muito importante para as escolhas. Obviamente o primeiro a escolher tem todo o talento disponível para observar e a possibilidade de selecionar o melhor jogador possível. Não há garantias sobre o futuro se o atleta se consolidará como uma estrela, mas há grande chance de melhorar o plantel da franquia.

O pior time do ano anterior será o primeiro a tomar as ações de seleção, o segundo pior será o segundo no draft e assim sucessivamente. O grande campeão será o último da lista a escolher os jovens vindos das universidades. O esporte americano ao invés de ter o rebaixamento e a diminuição das receitas e patrocínios dos perdedores, investe nos times derrotados para dar competitividade ao esporte.

A MLS é o futuro do futebol? 

Há uma grande chance da Major League Soccer se tornar uma das mais competitivas ligas de futebol do mundo. Mesmo com todo protagonismo europeu, os norte-americanos tem uma cultura de apoiar os esportes. O modelo de franchise é extremamente rentável que dá solidez econômica para que os times continuem atuando. Não é por acaso que várias estrelas como David Villa e Pirlo citam a MLS como exemplo de organização e competitividade, mesmo que tenha um nível técnico ainda inferior.

Uma grande demonstração que os americanos estão em sintonia com o futebol são os seus modernos estádios. Antes arenas apenas para o futebol americano ou compartilhadas com outros esportes, os empresários já pensam em arenas próprias para a bola redonda, ou criam seus estádios de forma que sejam facilmente adaptáveis as dimensões corretas. O passar do tempo impediu que a MLS continuasse sendo jogada em campos menores adaptados.

A liga conta com 22 times atualmente e existem planos para sua expansão onde o Los Angeles FC irá ingressar na liga em 2018 e o Miami FC em 2019. A cidade Nashville no Tennesse junto dos seus empresários fez uma investida para ter a sua franquia com um estádio ultra moderno em 2022 que ainda está sob análise. A  MLS não dá nenhum sinal de retração até então. As cidades de Atlanta e Minneapolis que recentemente inauguraram estádios novos, também  começaram seus times  de futebol.

O Mercedes Benz Arena é o estádio do Atlanta United e comporta 70 mil torcedores (foto: Site oficial do Atlanta UTD/Reprodução)
O Mercedes Benz Arena é o estádio do Atlanta United e comporta 70 mil torcedores (foto: Site oficial do Atlanta UTD MLS/Reprodução)

O teto salarial ainda é um proibitivo para que grandes craques saiam do centro europeu em direção à América. Mas não é impossível imaginar que com o aumento do interesse na liga e o aumento das receitas, que os salários base sejam suficiente para reter muito talento nos EUA. Não podemos esquecer que a força da economia da América do Norte e o grande mercado disponível podem incentivar ainda mais o crescimento do esporte no continente. Mesmo que seja um processo lento, a perspectiva é que a Major League Soccer seja uma das grandes ligas do mundo da bola em longo prazo.

Fontes: MLS, MLS Brasil, MLS, The Guardian, História das Copas

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