Marco Etcheverry, o craque que não foi Deus

Alguns jogadores se tornam deuses para suas torcidas. para os bolivianos, etcheverry era el diablo

Etcheverry em campo pelo Club Bolívar
Por Lucas Oliveira, MG

Amigo leitor, o continente Sul-Americano, por toda sua extensão, está repleto de grandes personagens ao longo de sua história. Seja na literatura, na política ou até mesmo nas artes, esta terra que outrora foi colonizada pelos europeus viu o nascimento e a ascensão (e em alguns casos a queda, diga-se de passagem) de figuras notáveis. No futebol não é diferente, a ginga e o talento latino são reconhecidos ao redor do globo há bastante tempo. Argentina, Brasil e Uruguai são os maiores símbolos de excelência no que diz respeito a formar futebolistas do mais alto calibre. Entretanto, o raio da genialidade não é exclusivo dos campeões mundiais citados anteriormente. Vez ou outra um grande nome surge onde poucos esperam. Na década de 1990, o local escolhido foi Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, e o dito cujo era Marco “El Diablo Etcheverry.

Canhoto, habilidoso e veloz, Etcheverry foi um meia-atacante que, fazendo jus ao apelido, infernizou a vida dos defensores que tinham a missão de pará-lo. Seu primeiro clube profissional foi o Destroyers-BOL, time de sua cidade natal. Após três temporadas, El Diablo transferiu-se para o Bolívar-BOL, equipe pela qual viria a ganhar o Campeonato Boliviano de 1991. Após o destaque conquistado na capital La Paz, o modesto Albacete-ESP pagou para contar com Marco em seu plantel. As expectativas depositadas no boliviano estiveram longe de serem atendidas, sendo assim, Etcheverry estava de volta a América após um ano em terras ibéricas.

Novamente deste lado do Atlântico, Marco estava prestes a viver o momento que o consagraria como o maior jogador da história de seu país. O ano era 1993, a Bolívia contava com aquela que até hoje é tida como a sua melhor geração de todos os tempos. Liderados por El Diablo, a Seleção demonstrou um futebol sólido e bastante competitivo durante as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. Além de Etcheverry, o técnico Francisco Azkargorta contava com os bons Álvaro Peña e Erwin Sánchez em seu plantel. A campanha rumo ao Mundial começou com um acachapante 7×1 aplicado na Venezuela. Havia sido somente a primeira rodada das Eliminatórias, porém, o povo boliviano estava tomado pela euforia, afinal de contas, aquele escrete demonstrava que podia levar a La Verde de volta ao maior torneio esportivo do planeta após 44 anos de ostracismo.

El Diablo chamando o defensor pra xinxa

Após a histórica estreia diante da Venezuela, o maior desafio dos bolivianos naquela competição chegara. Era a prova de fogo para Marco e seus companheiros. Agora, o duelo era diante da Seleção Brasileira. Na altitude de mais de 3600 metros de La Paz, o território que já era considerado hostil o suficiente para os brasileiros se tornou um caldeirão moralizador, daqueles encontrados somente na América do Sul. Os comandados de Carlos Alberto Parreira pouco incomodaram, e viram Erwin Sánchzes e Etcheverry balançar as redes de Taffarel. A Seleção Canarinho conhecia sua primeira derrota em Eliminatórias. Em 25 de julho de 1993, a mítica atuação de Marco Etcheverry frente aos brasileiros lhe garantiu a alcunha de El Diablo. E para o povo boliviano, o Diabo foi Deus, ao menos naquela tarde. Os mortais que presenciaram seu feito em campo não poupam palavras para expressar o tamanho daquela peleja.

Em junho de 1994, o técnico Azkargorta divulgou a lista final dos atletas que iriam aos Estados Unidos para a disputa do Mundial. Etcheverry, como era de se esperar, estava entre os 23 escolhidos do treinador. Entretanto, as circunstâncias em que o meia fora convocado estavam longe de serem as melhores. Sem jogar há mais de 6 meses devido a uma operação nos ligamentos do joelho esquerdo, a condição física de El Diablo preocupava a todos na Bolívia. Na estreia, a La Verde teria pela frente os últimos campeões do torneio, a Alemanha. Por estar longe de sua forma ideal, Marco entrou em campo somente aos 34 minutos da segunda etapa, e três minutos depois, após uma disputa com Lothar Matthäus, o árbitro Arturo Brizio expulsou o boliviano. Muito questionável esse cartão vermelho, verdade seja dita.

A Copa não foi aquilo que os torcedores, nem o próprio Etcheverry certamente esperavam. Entretanto, ao contrário do que muitos pensam, os aficionados pela Seleção de nenhum modo tentaram crucificar seu melhor jogador. O povo boliviano entende que um simples cartão é incapaz de mensurar o quão grande é a figura de El Diablo para o futebol nacional.

“Aquele vermelho não tem importância para os bolivianos, isso não tira o valor de Etcheverry” Alejandra Iñiguez, jornalista boliviana

Após a Copa de 1994, Marco teve passagens por Colo Colo-CHI e América de Cali-COL. Logo voltou a atuar no grande nível que lhe tinha garantido destaque no futebol continental pouco tempo atrás. Entretanto, seria com a Seleção que Etcheverry voltaria às principais capas dos jornais sul-americanos. Durante a Copa América de 1997, sediada na Bolívia, o povo boliviano teria a chance de assistir El Diablo de perto.

A Bolívia, de certo modo surpreendeu até o mais otimista de seus torcedores. Após vencer os três confrontos na fase de grupos diante de Uruguai, Peru e Venezuela, La Verde ainda passaria por Colômbia e México para chegar à tão sonhada final.

O povo boliviano novamente estava tomado pela euforia. Etcheverry e seus coadjuvantes demonstravam em campo que poderiam imortalizar aquela geração na história com um título continental. Todavia, tinha o Brasil no meio do caminho. No meio do caminho tinha o Brasil. A peleja final seria na cidade de La Paz. Curioso que, nessa mesma La Paz, contra a mesma Seleção Canarinho, a La Verde triunfou em 1993, naquele confronto que trouxe consigo a apoteose de El Diablo, por mais contraditório que isso soe.

Dez e Faixa com a La Verde

O bom futebol apresentado por Etcheverry e seus companheiros não foi suficiente para segurar o escrete brasileiro. Ronaldo, Edmundo e Zé Roberto marcaram os tentos da Seleção comandada por Zagallo. Para nós, aquela peleja é lembrada pela frase atemporal proferida pelo Velho Lobo: “Vocês vão ter que me engolir!”. Para os bolivianos, foi uma noite que possuía todos os ingredientes para ser um dos maiores, quiçá o maior momento do esporte nacional, que terminou com o amargo gosto do quase.

Mais tarde, Etcheverry desembarcou na terra do Tio Sam para defender o D.C. United, equipe da capital americana. Por lá, conquistou em três oportunidades a MLS Cup, principal torneio de futebol no país. Dali em diante a carreira de El Diablo entraria numa sequência de curtas passagens alternando sempre entre seu clube nos Estados Unidos e times da América do Sul como Emelec-EQU, Barcelona-EQU e Oriente Petrolero-BOL.

Em 2004, deixou a capital americana para retornar de vez à América do Sul. Marco havia acertado sua volta ao Bolívar, equipe pela qual foi campeão nacional e lançado ao futebol continental no início da década de 1990. Naquela altura, a carreira de Etcheverry tendia à fase em que a curva do brilhantismo já não ascendia como nos velhos tempos. O povo boliviano ainda teve a oportunidade de ver Marco Etcheverry atuar em jogos esporádicos nos torneios nacionais. Em 2006, El Diablo deixou os gramados para, enfim, assumir a posição mais alta no rol dos grandes jogadores produzidos pela Bolívia.

Fontes: GloboEsporte.com

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