Mário Filho: O jornalista que dá nome ao Maracanã

Irmão de Nelson Rodrigues, Mário Filho revolucionou a crônica esportiva (foto: Reprodução)
Por: Cristóvão Vieira, SC

Emprestar o nome a estádios importantes é honraria para poucos. Já ser o nome da arena esportiva mais conhecida do planeta é a exclusividade de um dos maiores entusiastas do futebol. Mais do que um jornalista, o carioca Mário Rodrigues Filho, ou apenas Mário Filho, ajudou a difundir o esporte mais amado do Brasil, elaborou competições das mais diversas modalidades e participou do processo da construção do estádio que acabou por ser um homônimo seu, o popular Maracanã.

Apesar de seu trabalho como jornalista ficar à sombra da obra de seu irmão, o genial Nelson Rodrigues, a importância da sua contribuição para a crônica esportiva nacional é vital. Foi Rodrigues Filho quem saiu da zona de conforto do jornalismo tradicional e trouxe alma para a frieza do papel. Criou termos como Fla-Flu para o clássico carioca, deu início à romantização na transcrição das jogadas e fez desabrochar pencas de outros escritores que usariam de suas fórmulas para falar sobre o futebol.

Revolução no jornalismo esportivo

Se hoje o Fantástico faz graça com o futebol, os cronistas esportivos colocam o coração nos teclados de seus computadores e nas transmissões muito se deve à Mário Filho. Pode-se, inclusive, dividir o jornalismo esportivo entre antes de Mário e depois de Mário. Antes de Mário, o esporte era tratado como uma notícia de economia ou política. Resumia-se a trazer os resultados e os autores dos gols ou lances importantes.

Aí chegou o carioca no fim da década de 1920 e escreveu, entre tantas crônicas, preciosidades como essa, no Jornal dos Sports:

O Primeiro Fla-Flu

Valentim, o tratador do campo do Fluminense, um português de cara redonda e risonha, com bigodes orgulhosamente empinados, andava desde cedo, naquela manhã de 7 de julho de 1912, às voltas com o burro do Félix e a máquina de aparar grama. O burro do Félix — Félix Frias comprara-o e fizera presente dele ao Fluminense — era uma figura popular. Pacientemente, ele carregava a máquina de cortar grama enquanto o Valentim estalava a língua, como um chicote imaginário. O burro do Félix — embora os burros não sejam tão burros quanto se pensa — não entendia o resmungar do Valentim. Ele esticava as orelhas. E sons complicados alcançavam-lhe os tímpanos. Valentim falava sozinho. E, de repente, encarou o espanto do burro do Félix, para dizer: “É hoje, meu burrico, é hoje”.

Jornal dos Sports, 27 de setembro de 1936

 Mário Filho também foi conhecido como O Criador de Multidões (foto: Arquivo pessoal)

Mário Filho também foi conhecido como O Criador de Multidões (Foto: Arquivo pessoal)

Rodrigues Filho começou a atuar como jornalista principalmente no fim dos anos 1920. Começou no jornal do seu pai, o A Manhã, em 1926. Ele inicia a revolução da crônica esportiva no periódico A Crítica, pouco mais tarde. O segredo de sua criatividade era trazer o linguajar das ruas e das rodas de bar para dentro do jornal.

O sucesso e o gosto por escrever sobre futebol aumentava. Mário Filho começa, então, a fazer investimentos em publicações esportivas. Ele criou o diário Mundo Sportivo. Na sequência, é convidado por nada menos que Roberto Marinho para assumir a página esportiva do jornal O Globo, em 1931.

Contudo, foi mesmo com o Jornal dos Sports que o carioca deixou aflorar a sua criatividade. Ele comprou a parte de Marinho no periódico e começou a difundir de maneira impressionante a cultura do futebol. Mário Filho deu início à utilização de personagens, dando importância e voz aos jogadores de futebol – coisa a qual, hoje, o jornalismo não viveria sem.

Visionário, mesmo no início do século XX, discutiu e problematizou o racismo no futebol, principalmente no seu livro “O Negro no Futebol”, publicado em 1947. Na obra, ele destaca e enaltece o protagonismo dos descendentes de escravos no futebol brasileiro pré-Pelé, falando sobre Friedenreich, Leônidas da Silva e Domingos da Guia.

Foi a partir dali, também, que ele passou a investir na criação de eventos esportivos, como o torneio Rio-São Paulo e competições juvenis de futebol.

O nascimento do Maracanã

O maior palco do futebol mundial e onde grandes clubes e seleções do mundo já desfilaram suas técnicas teve grande influência de Mário Filho. No Brasil, já se planejava a criação de uma colossal arena esportiva para receber a Copa do Mundo de 1950, e Rio de Janeiro seria o município a receber esta obra. Restava saber o local.

Sem titubear, Mário Filho começou a advogar pelo bairro do Maracanã. Essa ideia era contrária ao que desejava um vereador influente da época, Carlos Lacerda, que defendia que o estádio deveria ser construído em Jacarepaguá. Mário Filho não apenas convenceu a opinião pública, ganhando a disputa, como também foi homenageada com o nome do estádio.

Vida e morte

A contribuição de Mário Rodrigues Filho, torcedor do Fluminense mas apaixonado por todos os clubes do futebol carioca, foi gigante. Até nos seus últimos momentos de vida – faleceu em 1966, aos 58 anos – ele trabalhou para que o futebol vingasse.

Apaixonado pelo popularismo do futebol e as coisas mais simples do esporte, com certeza se entristeceria se soubesse que um dia o estádio o qual recebeu seu nome destruiria o espaço do ‘povão’, a geral do Maraca. Sua influência ajudou para que o Brasil tivesse outro jornalista importantíssimo para a crônica esportiva, seu irmão, Nelson Rodrigues, que seguiu dando continuidade à obra do ‘homem do Maracanã’.

Referências:
ANTUNES, Fátima M. R. F. “Com brasileiro, não há quem possa!”: futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues. São Paulo: Editora da Unesp, 2004

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