Mário Sérgio, o Rei do Gatilho

Ganhou o apelido de "rei do gatilho" após esvaziar o pente de seu .380, dando tiros para o alto para assustar torcedores do São José, no Vale do Paraíba.

(Foto: Divulgação/Fox Sports)
Por: Pedro Portugal, MG

Mario Sérgio Pontes de Paiva, também conhecido como Vesgo, nunca ficou em cima do muro. Como futebolista, era o motivo da insônia de treinadores, cartolas e adversários. Sempre sincero e explosivo, nunca mediu palavras para expor aquilo que lhe agradava ou não. Era um verdadeiro motor de meio-campo: clássico, mágico e sagaz. Ao aposentar as chuteiras e se transformar em técnico, e posteriormente em comentarista, o estilo se manteve. Não tinha meias palavras, desafiava estrelas e xodós da torcida. Prezava sempre pelo bom futebol e utilizava seu apurado olhar tático como poucos no mundo.

(Foto: Divulgação/Internet)
(Foto: Divulgação/Internet)

Mas sua história não se resumiu a isso. Guardava dentro de si uma profunda melancolia. Nunca chorou a morte do próprio pai, que lhe batia quando criança e que abandonou a família após jogar tudo pela janela em corridas de cavalo. Foi o jovem que um dia andou nu pelas ruas de Salvador, arquitetando épicos MIM ACHER em um decreto que parecia não ter fim. Mas foi também o marido dedicado, que nutriu um profundo e verdadeiro amor por Dona Mara, amor da sua vida, no qual foi casado durante seus últimos 25 anos.

Seu início no futebol deu-se como atleta na equipe de futsal do Fluminense. Segundo o próprio, ”Joguei futsal uns 7 anos e fui bicampeão brasileiro com a Seleção Carioca”. Após terminar o Ensino Médio, ingressou em um curso superior de Processamento de Dados. Como o esporte ainda não lhe dava dinheiro, decidiu abandonar a carreira e foi trabalhar numa empresa de computadores. Mal sabia Mário que o futuro lhe reservava algumas surpresas.

(Foto: Divulgação/ El Pais)
(Foto: Divulgação/ El Pais)

Em 1969, após ser levado por amigos, fez um teste no Flamengo e foi contratado. Sua grande habilidade, derivada do futsal, foi motivo de preocupação para os treinadores das categorias de base do time da Gávea, que tiveram muito trabalho para lhe tirar o vício de “fominha”. Foi campeão dos aspirantes, e no ano seguinte, mais por imposição da diretoria do que pela vontade do técnico do time principal, Yustrich, foi profissionalizado.

Yustrich, que era um forte adepto do futebol força, não gostava dos cabelos longos e das roupas coloridas que Mário Sérgio usava. Era o auge da curtição hippie, coisa que o técnico, obviamente, não entendia. Costumava provocar Mário Sérgio chamando-o de boneca.

(Foto: Acervo Estadão)
(Foto: Acervo Estadão)

Até que um dia, durante um coletivo, cansado das broncas do técnico, Mário fez embaixadinhas e depois encheu o pé na bola. Em seguida, largou o treino e disse que no Flamengo não jogava mais.

“Yustrich era adepto do futebol força e tinha seus métodos rígidos e absurdos de preparação. Um dia, joguei mal e ele me tirou do time. Achei injustiça, mas continuei a treinar entre os reservas. Num coletivo, querendo me mostrar, recebi uma bola longa, me esforcei, alcancei a bola a um palmo da linha e parti para o gol; já dentro da área, quando ia marcar o gol, ele apitou dizendo que a bola saiu. Ah, peguei a bola e zuei. Dei um chutão para o alto, e disse que ali não jogava mais”

Mario transferiu-se, então, para o Vitória, onde obteve destaque no futebol brasileiro. Começou a jogar pelo clube em 1971, mas o destaque veio no ano seguinte com a conquista do Campeonato Baiano. No clube rubro-negro, segundo a revista Placar, Mário Sérgio formou, ao lado de André Catimba e Osni, o melhor trio de ataque da história do clube. Brilhante no Vitória, onde passou quatro temporadas,tornou-se rei na Bahia e caiu nas graças do torcedor baiano.

(Foto: Acervo Estadão)
(Foto: Acervo Estadão)

Após passagem pelo Botafogo, onde fez parte do carinhoso time apelidado de “Time do Camburão” pelo jornalista Roberto Porto e pelo Internacional, campeão brasileiro invicto de 1979, onde foi a referência após a saída do genial Falcão para o futebol italiano, Mário desembarcou no São Paulo e protagonizou um dos eventos mais CL de toda a história do futebol brasileiro.

Foi lá que ele ganhou o apelido de “rei do gatilho” após esvaziar o pente de seu .380, dando tiros para o alto para assustar torcedores do São José, no Vale do Paraíba, que se manifestavam na saída da delegação são-paulina do Estádio Martins Pereira. Na partida de volta, o placar do Morumbi anunciava “nº 11 Mário Sérgio, o Rei do Gatilho!”.

(Foto: Divulgação/ Internet)
(Foto: Divulgação/ Internet)

Pelo Grêmio, alcançou a máxima glória. A pedido do técnico Valdir Espinosa, foi contrato apenas para a disputa do Mundial Interclubes. Segundo Espinosa, a técnica e habilidade de Vesgo seriam o fiel da balança perante os alemães.

“Ninguém queria o Mário Sérgio no Grêmio. Eu que insisti. Na primeira vez que falei, todo mundo pipocou: ‘Ah, ele é isso, aquilo, é bagunceiro…’. Mas eu conhecia ele. Joguei com ele, morei com ele. Eu reconhecia nele a sua qualidade extraordinária. Jogar contra alemão só com força não adianta. Tem que ter técnica para contrapor. Precisávamos do Mário Sérgio”.

Mário Sérgio encantou durante os 120 minutos. Como um maestro, ele regeu o time gremista, através de passes e lançamentos desconcertantes. Os alemães ficaram atônitos diante de tamanha habilidade. Mas mesmo colocando o time do Hamburgo no bolso, não teve seu vínculo prolongado.

(Foto: Luiz Ávila/Agência RBS)
(Foto: Luiz Ávila/Agência RBS)

No Palmeiras, Mario jogou em 1984 e conduziu o time ao tão sonhado título de campeão Paulista de 1984 até ter sido flagrado em um exame antidoping, realizado num clássico contra o São Paulo, que o deixou suspenso durante seis meses.

Sobre esse evento polêmico ainda paira nuvens bastante nebulosas. O Palmeiras realizava um campeonato sólido sob a batuta do técnico Mario Travaglini. Durante a partida, ocorreu uma briga entre os jogadores, e após os ânimos se acalmarem, ainda dentro do campo, vários jornalistas presenciaram o Dr. Marco Aurélio Cunha, do São Paulo, oferecendo um refrigerante ao Mario Sergio. Depois, no exame antidoping, foi constatado cocaína na urina do jogador, e o Palmeiras perdeu os pontos no Campeonato Paulista. Mesmo com toda repercussão da imprensa sobre o refrigerante oferecido pelo médico do São Paulo, nenhuma providência a respeito do fato foi tomada e o caso foi encerrado sem punição ao Dr. Marco Aurélio Cunha.

(Foto: Divulgação/Internet)
(Foto: Divulgação/Internet)

Em 1987, Mario Sergio sentia que o momento do adeus estava próximo. Na quinta rodada do Brasileirão daquele ano Mário Sérgio recebeu a camisa 10 do técnico Orlando Fantoni e foi a campo. Jogou os primeiros 45 minutos de maneira épica, mostrando aos torcedores ali presentes como o futebol brasileiro é algo único e mágico, impossível de ser imitado. Ao ouvir o apito do árbitro finalizando a etapa inicial, desceu para o vestiário, apresadamente, sob inúmeros aplausos pela atuação fantástica e vitória parcial por 1 a 0 sobre o Goiás. Quando o restante da equipe adentrou o recinto, uma curiosa revelação foi feita, segundo o meia Bobô:

“Quando chegamos ao vestiário, Mário Sérgio já estava trocado, perfumado. Fez um pronunciamento muito educado, agradeceu a todos nós e disse que não voltaria para o segundo tempo. No vestiário, ele anunciou o fim de sua carreira”

Durante os dezoito anos como jogador, Mario Sergio foi alvo de elogios e criticas de igual intensidade. Muito antes de Ronaldinho Gaúcho, O Bruxo, olhar para um lado e tocar para o outro, Mário Sérgio já o fazia, daí o iconográfico apelido de Vesgo. Foi refinado, e senhor de inestimável técnica. Teve a carreira conturbada, afinal de contas sua destreza com a pelota, era a mesma para sua língua afiada.

(Foto: Youtube)
(Foto: Youtube)

Mário nos deixou no dia 28 de novembro de 2016, no trágico acidente aéreo que vitimou grande parte da equipe da Chapecoense. Um grande vazio nos foi deixado, uma dor da qual iremos demorar a digerir. Pelo seu refinado estilo de jogo, excelente trabalho como técnico e perspicazes análises como comentarista, foi um autentico Gênio da Bola e merece essa pequena homenagem de nós, amantes do bom futebol e apreciadores da arte do MIM ACHER. Descanse em paz, gênio Mário Sérgio Pontes de Paiva, nos lembraremos de todos vocês, hoje e sempre!

Fontes: Terceiro TempoSambafootFolhaEspnIbahia, Placar

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