Mitotônio – O ídolo alvinegro que morreu em decorrência de uma panelada

Jogador comeu uma panelada e foi pro direto para o jogo

Mitotônio com a camisa alvinegra (Foto: Reprodução/memoriafutebolcearense.blogspot.com.br/)
Mitotônio com a camisa alvinegra (Foto: Reprodução/memoriafutebolcearense.blogspot.com.br/)

Era 1 de abril de 1951. O Ceará entrava em campo às 16 horas contra a equipe do Gentilândia, precisando vencer. Vitória necessária para decidir o título do Campeonato Cearense daquele ano – a decisão viria a acontecer contra a equipe do Ferroviário na semana seguinte (o Vovô perderia por 1 a 0). Seria mais um dia normal para o ponta esquerda, craque e ídolo, Mitotônio, em meio a sua história de 10 anos vestindo a camisa alvinegra. Bastava se alimentar adequadamente, descansar e ir para o jogo, no Estádio Presidente Vargas, agraciar a todos com mais uma bela exibição sua.

Entretanto, naquele período, reinava o desconhecimento sobre o que seria a melhor dieta para um atleta, os métodos de prevenção e tratamento para lesões específicas da prática do futebol. Só a partir da década de 70, principalmente por toda a disputa, que também chegava ao esporte de uma forma geral, entre Estados Unidos e União Soviética pela hegemonia mundial e a grana que começava a valer com os campeonatos, que a Nutrição e a Medicina foram se aproximando das modalidades esportivas. Hoje, conhecemos bem os efeitos de nos alimentarmos mal e ir jogar bola, mas naquela época Mitotônio não tinha ideia disto.

Mitotônio com o time do Ceará em 1945, o último agachado da esquerda pra direita (Foto: Reprodução/verminososporfutebol.com.br)
Mitotônio com o time do Ceará em 1945, o último agachado da esquerda pra direita (Foto: Reprodução/verminososporfutebol.com.br)

Mitotônio comeu no almoço um grande prato de panelada (isso mesmo que você está lendo) e foi para o jogo achando que nada lhe faria mal. Não havia departamento médico nos clubes, muito menos nutricionistas, então Antônio, seu verdadeiro nome, não se preocupou em avisar a ninguém o que havia comido. Começa o jogo, Mitotônio demonstra não estar bem fisicamente, segundo relato do pesquisador e ex-jogador, Airton Monte, que foi o responsável por marcá-lo naquele dia. Mesmo assim, estando pesado e sentindo-se mal, aos 6 minutos de partida ele faz o primeiro gol do jogo. Aos 14 e depois, aos 29, Pretinho faz outros dois gols para o Ceará, fazendo o placar terminar 3 a 0 na primeira etapa.

Como não eram permitidas substituições naquele período, Mitotônio tentou continuar no jogo. Na volta do intervalo, Airton o vê do lado de fora do campo e o pergunta se ele vai tentar voltar ao jogo. O ídolo alvinegro diz que não ia, porque vomitara demais. Seriam as últimas palavras do jogador no estádio, o Ceará jogaria com 10 em campo, ainda faria o quarto gol e o placar terminaria 4 a 1.

Mitotônio foi levado direto para a Assistência Municipal, hoje Instituto José Frota, durante o início do segundo tempo. Sendo atendido e diagnosticado com congestão estomacal aguda, que por si só não o mataria, por isso foi liberado para retornar a sua casa. Seu estado piorou e em sua residência ele teve uma hemorragia, por conta da refeição muito pesada e ter ido jogar logo depois. Airton Monte, o seu marcador, foi acusado por algum tempo de ter provocado a morte de Mitotônio. Conhecido por marcá-lo duro nos confrontos entre os dois e não aliviar para o alvinegro, houve insinuações por toda a cidade de Fortaleza que as pancadas dadas por Airton teriam ocasionado a morte do ídolo. Algo que não é verdade, mas só torna a história ainda mais interessante.

Notícia do jornal da época sobre o falecimento do jogador (Foto: Reprodução/Marcos Campos/Banco de dados/memoriafutebolcearense.blogspot.com.br)
Notícia do jornal da época sobre o falecimento do jogador (Foto: Reprodução/Marcos Campos/Banco de dados/memoriafutebolcearense.blogspot.com.br)

Morria então na noite de 1º de abril de 1951, de forma precoce, aos 35 anos, o primeiro ídolo da história do Ceará. De maneira incomum e totalmente lamentável.

 

PERFIL DE MITOTÔNIO

Nome: Antônio Edgar da Silveira (Mitotônio)
Posição: ponta-esquerda
Nascimento: 22/2/1916
Falecimento: 1/4/1951

Times que defendeu: Fortaleza (1938-41); Ceará (1941-45; 1946-51) e Náutico (1945) – Ceará não jogou o Campeonato Cearense de 45 por brigar com a Federação Cearense de Futebol, por isso Mitotônio foi para o Naútico com outros atletas e depois retornaram ao Vovô.
Títulos: quatro vezes campeão cearense (1938, pelo Fortaleza; e 1941, 42 e 48, pelo Ceará); Campeão pernambucano (1945, pelo Náutico).

 

Ficha técnica do jogo:

CAMPEONATO CEARENSE – 1950
CEARÁ 4×1 GENTILÂNDIA

 

Data: 31.3.1951 (o jogo valia pelo Estadual do ano anterior)
Local: Estádio Presidente Vargas
Público: aproximadamente 2 mil pessoas
Árbitro: Raimundo Cunha Rola (Rolinha)
Gols: Mitotônio (6min 1ºT), Pretinho (14min e 29min 1º T) e Pipiu (42min 2ºT), para o Ceará; Luiz (8min 2ºT), para o Gentilândia.

CEARÁ: Juju; Valdemar e Pedro Matos; Julinho, Marciano e Oxigenado; Mauro, Pipiu, Alencar, Pretinho e Mitotônio.

GENTILÂNDIA: Assis; Airton Monte e Zemilton; Deim, Otávio e Luizinho; Carlos, Aldo, Dedé, Gilson e Luiz.

 

Texto: Victor Portto

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