A modernização dos estádios implica na mudança de cultura das arquibancadas?

Criminalização corrente das torcidas em prol de um modelo europeizado padrão Fifa não nos representa

(Foto: AP Photo/PA, Owen Humphreys)

Saudações comunidade, olá torcedor, olá torcedora! Quais são os hábitos da sua torcida? Qual a cultura no seu estádio? Avalanche? Sinalizadores? Bandeirão? O assunto que trazemos para discussão é: a modernização dos estádios implica na mudança de cultura? Primeiro vamos pensar no que acontece nelas.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em parceria com as Polícias Militares, determina as regras do que pode e não pode ser feito nos estádios sob a justificativa de proteção ao que eles chamam de “verdadeiro torcedor”. Através de experiências anteriores, objetos são determinados como perigosos e tem sua entrada vetada no campo. Nem todas essas proibições são lógicas, construtivas ou chegam a fazer alguma diferença positiva para as torcidas. Como a onda de elitização dos estádios e criminalização das organizadas, sanções são impostas sem uma séria relativização do que é funcional para o espetáculo da torcida.

Para os que não entenderam ainda essa influência, vamos exemplificar: qual foi a última vez que você foi ao estádio e viu os famigerados sinalizadores? Sim, aqueles simples sinalizadores de festa junina que compramos com as cores dos nossos times e acendemos para dar uma pressão no oponente. Quantos de vocês já penduraram as bandeiras, sejam elas comuns, protestos ou das organizadas e tiveram suas flâmulas retiradas pela PM ou pela organização do estádio?

bandeirão

 Bandeirão de torcida (Foto: Reprodução/Organizadas do Brasil)

Vamos aos exemplos da realidade: em São Paulo não é permitido ir ao estádio com bandeira em mastro de bambu desde 1995. A justificativa é simples: os mastros (que tem em média cinco metros) poderão ser utilizados como uma arma no caso da eclosão de uma briga. Apenas os cadastrados juntos à PM podem, sob a pena de perderem o direito no caso de uma confusão que envolva os mastros. Em Minas Gerais, os mastros são permitidos, sem cadastro. Perceberam que não há uma consistência nas regras? E me digam: que graça tem torcida sem bandeira? No mesmo estado de Minas Gerais uma controvérsia muito grande foi instaurada durante a reinauguração do estádio Independência, no bairro do Horto. A BWA, empresa administradora do campo, inaugurou o estádio e proibiu que faixas e bandeiras fossem levadas para os jogos sob a justificativa de que iriam prejudicar a visibilidades dos torcedores nos jogos de Atlético, Cruzeiro e América-MG. Pergunto a vocês, confrades: em que mundo maravilhoso um jogo de futebol NÃO terá faixas bandeiras?

A maior controvérsia reside no uso dos sinalizadores, que são proibidos em todos os estádios. Todas as torcidas nas ruas usam os sinalizadores na passagem dos ônibus dos times, fazem a festa com o fogo. Há quem justifique que se toda a torcida acender os “foguinhos”, a fumaça atrapalhará o jogo. No último jogo do Palmeiras, o técnico Cuca reclamou que a paralização do jogo por causa da fumaça fez com que o time “esfriasse”. O São Paulo foi investigado durante a Libertadores no jogo contra o River Plate na fase de grupos por causa de sinalizadores. A torcida do Atlético Mineiro faz a famosa “Rua de Fogo” na porta do estádio para receber o time. Na porta do estádio, do mesmo jeito, e não pode ser dentro do estádio, pois é perigoso. Lá fora não é perigoso também?

A torcida deveria ter seu direito garantido de festejar e dar seu próprio show. Esta criminalização corrente das torcidas em prol de um modelo europeizado padrão Fifa não nos representa. A nossa cultura nunca assistiu jogos sentados, calados ou apenas gritando “uh” e aplaudindo timidamente para uma boa jogada. As nossas torcidas, modinhas ou tradicionais, moralizadoras ou modernas, numéricas e presente têm a característica da paixão e intensidade, e usamos bandeiras, sinalizadores e rodamos nossas camisas no ar! A proteção do estado não deveria nos limitar, e sim beneficiar o nosso entretenimento e paixão. Ao invés de sermos tratados como bichos perigosos que vão para o campo e sermos obrigados a nos comportamos como nós não somos, a nossa vontade e realidade deveria ser considerada e garantida. A nossa cultura é mais importante e deve ser pensada antes que essas decisões e proibições equivocadas sejam feitas!

Sinalizador-1

Torcedor com sinalizador em Curitiba (Foto: Cesar Greco/Divulgação)

Que deus perdoe as pessoas de má fé que fazem estas proibições ilógicas que tiram o charme de ir ao estádio.

 

Texto: Lucas Poeiras

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*