Nelson Rodrigues, muito além do fantástico

O Anjo Pornográfico

Altor de mais de 12 mil crônicas esportivas. (Foto: Site oficial do Fluminense)
Por: Daniel Bravo, MG

Amigo torcedor, amigo leitor. Dono de uma personalidade forte, Nelson Falcão Rodrigues nasceu no Recife, em 1912. Considerado, se não o maior, um dos maiores cronistas esportivos de todos os tempos, Nelson possui, segundo Ruy Castro, entre 12 e 15 mil crônicas esportivas. Como torcedor, era Fluminense, clube que, segundo ele, era o único tricolor do mundo, os outros eram apenas clubes de 3 cores. Apesar da paixão pelo time das Laranjeiras, sempre demonstrou enorme respeito e até mesmo carinho pelo Flamengo. Foi o responsável por definir a camisa rubro-negra como “Manto Sagrado”, dizendo ainda que um dia a camisa do Flamengo jogaria sozinha, sem precisar de jogadores, tamanha sua tradição.

Se Nelson Rodrigues fosse vivo, creio que o começo de um de suas crônicas poderia seguir assim: “O Brasil após o fatídico 7 a 1 vem voltando a ser Brasil. Jogadores sem nenhuma sensibilidade para com o seu povo, homens que não deveriam ser aceitos na seleção, ou até poderiam: — poderiam estar, caso beijassem a bandeira nacional aos prantos, são bípedes que tornaram-se quadrúpedes”.

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Nelson, torcedor do, segundo ele, único tricolor do mundo (Foto: Acervo O Globo)

Confrades, Nelson Rodrigues era um defensor do Brasil e da seleção, repudiava a humildade e o “espírito de vira-lata”. Segundo ele “O triunfo, na Suécia, em 58, foi para nós tão importante como a Primeira Missa. Começava o Brasil. Nós nos inaugurávamos. Tudo o que ficava para trás era o pré-Brasil. E basta comparar. Até 58, o brasileiro não ganhava nem cuspe à distância. O sujeito dormia enrolado na derrota como num cobertor. Ninguém acreditava no Brasil, nem o Brasil acreditava em si mesmo”.

Dono de uma forma única, Nelson Rodrigues via o jogo com olhos de torcedor. Para ele, se o futebol fosse só a bola seria simples, mas por trás do futebol havia o ser humano, a bola nada mais era que um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe. Valorizava o Fla-Flu como poucos e dava ao clássico a imensidão que o mesmo sempre mereceu. De acordo com Nelson, “O Fla-Flu não tem começo. O Fla-Flu não tem fim, o Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada, e aí então as multidões despertaram”. Dizia ainda que o Flamengo possuía mais torcida, mas o tricolor possuía mais gente.

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Apesar de Tricolor, Nelson sempre respeito e teve carinho pelo Flamengo (Foto: Globoesporte.com)

Para quem o acompanhou, Nelson anunciava também várias coisas, inclusive —seriamente — a burrice do videoteipe. Amigos, para ele o videoteipe era burro, se tratava de uma maquina que também errava. O futebol não era algo exato, mas humano, Nelson ao ver a seleção embarcar para a Copa de 1962, profetizou a participação de Amarildo, o Possesso, ao dizer que no saguão do aeroporto do Galeão se via uma luz rondar o jogador.

Além de Amarildo, não poupava elogias e definições ao Anjo das pernas tortas. “Todos nós dependemos do raciocínio. Não atravessamos a rua, ou chupamos um Chicabon, sem todo um lento e intrincado processo mental. Ao passo que Garrincha nunca precisou pensar. Garrincha não pensa. Tudo nele se resolve pelo instinto, pelo jato puro e irresistível do instinto.” E foi Nelson a tornar Pelé, Rei, reverenciando o jogador, por vislumbrar no jovem gênio da bola “plenitude de confiança, de certeza, de otimismo”, e escandalizava os mais contidos ao dizer que a maior virtude de Pelé era “a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos”.

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“Para se escrever sobre política, religião ou Futebol é preciso ser um canalha” (Foto: Reprodução/ Jornalismo literário)

Pois bem confrades, Nelson Falcão Rodrigues, o maior cronista esportivo de todos os tempos, um verdadeiro representante da CL, um mau caráter de extremo caráter. Jornalista, cronista esportivo, autor de peças de teatro e um dos responsáveis por valorizar o futebol e o povo brasileiro, por mostrar que a copa do mundo não era um torneio gentil, mas uma guerra de foice no escuro. Que esse cronista que aqui escreve não seja um idiota objetivado e nem uma unanimidade, afinal como ele mesmo dizia “A unanimidade é burra”.

Pesquisa: Crônicas de Nelson Rodrigues: Futebol e Paixão e Nelson e as Crônicas

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