O adeus de Montillo

Montillo pendura as chuteiras (Foto: Ricardo Moraes / Reuters - EXTRA)
Por: José Victor , RJ

Walter Damián Montillo é um cara que ao chamar de craque pode soar como exagerado, pois muitos que o acompanharam durante a carreira acham que ele não conseguiu alcançar feitos que o colocasse nesse patamar. Não alcançou? Quem pode afirmar o que é um craque? É um adjetivo completamente subjetivo e na minha concepção Montillo se encaixa. E opiniões positivas e negativas cercaram o precoce e surpreendente adeus de Montillo.

Montillo se encaixa no perfil de craque porque era um cara que não chamava só atenção pela habilidade, mas também pelo comprometimento e dedicação por qualquer camisa que tenha vestido e, na sua última camisa como profissional, não foi diferente, embora tenha sido criticado de maneira injusta pelos torcedores.

Após sequência de lesões, Montillo anuncia aposentadoria aos 33 anos (Foto: AFP PHOTO)
Após sequência de lesões, Montillo anuncia aposentadoria aos 33 anos (Foto: AFP PHOTO)

Sua trajetória merece ser contada com louvor por quem teve a oportunidade de acompanhar a sua carreira. O menino que começou no San Lorenzo ao lado de Romagnoli prometia demais na carreira e, devido a lesões, motivo que está se aposentado, demorou a engrenar pelo clube de Boedo. O que não significa que não tenha tido uma boa passagem pelo clube, apesar dos altos e baixos, afinal era um menino que vinha escrever uma história bonita no futebol.

Após um empréstimo para o futebol mexicano, Montillo voltou para o San Lorenzo e não ficou muito tempo. O destino o levaria a aceitar uma proposta da Universidad de Chile, que pagaria 1 milhão de dólares pelo seu passe e o tornaria uma das contratações mais caras da história do clube. Chegaria ao clube com a pressão de um ser uma referência no time chileno. Montillo, já maduro e pronto para brilhar, deu conta do recado e encantaria não só a torcida da La U como toda a América do Sul.

O argentino fez atuações de gala com a camisa do clube chileno. Impressionou o Brasil pela primeira vez, ao fazer grandes partidas contra o Fluminense em 2009 pela semifinal da Copa Sul-Americana. Mas mesmo assim acabaria eliminado pelo tricolor carioca.

Se Walter Montillo após a atuação contra o Fluminense passou a ser tratado como um nome perigoso de se enfrentar, no ano seguinte virou fatal após atuação fabulosa contra o Flamengo pela Libertadores em 2010. Ele fez o Império do Amor de Vagner Love e Adriano ruir, e assim entrou no radar de vários clubes brasileiros.

O Cruzeiro nos deu o privilégio de acompanhar Montillo mais de perto. Após gastar 3,5 milhões de dólares para tirá-lo da La U. O resultado foi ótimo, e o casamento foi perfeito. Ele jogou demais com a camisa celeste, colecionando algumas grandes atuações, e passou até a figurar em convocações para a seleção de Argentina de maneira merecida.

Em 2011, o Cruzeiro acabou fazendo uma péssima campanha no Brasileiro, mas conseguiu permanecer na série A. Se hoje o clube mineiro ainda ostenta o título de “incaível”, Montillo tem papel fundamental. O argentino teve uma passagem de respeito, e escreveu seu nome na história da Raposa, se tornando o maior artilheiro estrangeiro do clube. Figurou entre os melhores jogadores em atividade do país recebendo diversos prêmios individuais, além de ter conquistado o campeonato mineiro de 2011.

Chegou ao Santos em 2013, por 16 milhões de reais, sendo a contratação mais cara da historia do clube até então. Chegou para assumir a 10 e jogar ao lado de Neymar, que deixaria a equipe no meio do ano. Ficou apenas uma temporada no clube paulista antes de rumar ao futebol chinês.

Em janeiro deste ano, chegou ao Botafogo com muita expectativa. Se o Alvinegro hoje é destaque pelo jogo coletivo, união e comprometimento, Montillo se encaixava no perfil do time. O Fogão precisava de alguém renomado para disputar a Libertadores deste ano e Montillo era esse cara. No clube, era difícil imaginar que o argentino não tivesse vaga logo de cara, mas o destino infelizmente não quis deixar o casamento fluir.

As lesões passaram a atrapalhar o meia, que sempre quis corresponder da melhor maneira possível os torcedores e a si mesmo. Montillo também mostrou que em tempos onde o dinheiro fala mais alto do que as glórias, ainda existe caráter, lealdade e vontade de vencer. Renunciou ao próprio salário após receber críticas injustas de “chinelinho”, “mercenário”, “acomodado” de pessoas que se, talvez tivessem essa oportunidade, jamais renunciariam a um mês, ou até mesmo um segundo de salário, de um clube que vive situação financeira delicadíssima. Esse argentino de 1,71m e nascido em Lanús fez isso. E se o número dos críticos injustos vinha crescendo, os de admiradores de sua atitude e garra dispararam, tendo uma torcida não só do Botafogo, mas de quem gosta do futebol de verdade pela sua recuperação e sucesso no retorno ao futebol brasileiro.

Montillo quis ajudar demais o Botafogo, quis vencer e provar para si mesmo que ainda era capaz de ser o grande jogador que encantou o Brasil, queria ter a chance de erguer o troféu mais importante do continente, de corresponder à expectativa de todos os torcedores que fizeram festa no aeroporto e em General Severiano. Mas o corpo não deixou. Depois da 5ª lesão consecutiva ficou difícil lutar. Não era só a dor muscular, a alma de jogador vencedor sentiu também o fato de não corresponder às mais altas expectativas criadas por ele próprio.

Se os filhos de Pirata Azul, alcunha carinhosa no qual é conhecido em seu país, choravam quando o pai não estava presente em campo, fica difícil conter as lágrimas ao ter que renunciar fazer o que tanto ama e, principalmente, o que traz felicidade pra dentro de seu próprio lar. Se depois das recentes atitudes eu passei a admirar mais ainda esse jogador, seus filhos e sua esposa, que são seus principais motivadores, têm sorte por terem presente um grande homem, que em meio a tanto descaso e indiferença aos românticos e eternos apaixonados por futebol, ainda mostrou que é possível ser leal, honesto e ter a humildade de reconhecer que não deu pra entregar aquilo que se esperava.

Não ter correspondido em campo com a camisa do alvinegro, não fez de você menor do que nenhum outro jogador que pode atuar a maioria dos jogos da temporada pelo Botafogo. Pela sua atitude, ficou claro que se tivesse a chance de dar 100% em campo, daria 101%. A quem te criticou de maneira leviana, fica a lição que na sociedade do espetáculo, todo dia é 1° de abril. Nenhuma dor ou angústia pode ser motivo de chacota, ainda mais por um cara como você, que nem precisou entrar em campo para dar uma grande lição entre tantas que aprendemos com o futebol.

Ser honesto, dedicado e aguerrido foi o maior exemplo que pode ter dado para todo mundo que acompanha o futebol. Em tempos que naturalizamos absurdos, estas características estão se tornando raras no meio do futebol e você lembrou que futebol também é sentimento, e sentimento não é algo com que se brinca. É como certa vez disse Paulo Roberto Falcão: “Jogador de futebol morre duas vezes, a primeira é quando para de jogar.” Pode ter certeza que estamos de luto e agradecemos todos os seus feitos pelo futebol.

Obrigado, Montillo!

Fonte: Globoesporte.com

1 Comentário em O adeus de Montillo

  1. Só corrige ai rapaziada…
    La U x Fluminense na Sula de 2009 foi pelas quartas de final
    nas semis foi Fluminense x Cerro Porteño, partida que terminou com CENAS LAMENTÁVEIS

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*