O ‘American Way of Life’ de Ibson: um bate-papo direto de Vancouver com o atleta brasileiro

Ibson pensa em voltar para o Brasil?

Ibson em ação pelo Minnesota United contra o Whitecaps, em Vancouver (Foto: Divulgação / MLS)
Por Gabriel Rigoni, RS

Ibson, 33 anos, dono de um marcante reconhecimento pela torcida do Flamengo e com passagens importantes por Corinthians, Santos, Porto e Spartak-RUS, não é mais o mesmo. Ainda se dedica intensamente ao futebol. Como de costume, é o jogador mais cerebral da equipe onde atua. Mantém a vontade de vencer cada partida. Mas Ibson respira ares diferentes.

Longe do Brasil e da Europa, o meio-campista brasileiro desempenha a profissão nos Estados Unidos, mais precisamente em Minneapolis, no estado de Minnesota. É onde encontrou privacidade, segurança e melhor qualidade de vida. É de onde não quer mais sair.

Disputando a Major League Soccer (MLS) pelo Minnesota United – equipe recentemente criada -, Ibson tem raras chances de disputar os playoffs da competição deste ano. O elenco é carente e o time sofre pela falta de entrosamento. Terá férias prolongadas para aproveitar com a família e mais tranquilidade para acertar a renovação de contrato por mais dois anos com o clube.

Em Vancouver para enfrentar o Whitecaps, líder da Conferência Oeste da liga – a equipe de Ibson foi derrotada por 3 a 0 -, o atleta recebeu o Cenas Lamentáveis para um papo franco e elucidativo sobre esse mundo inexplorado chamado futebol norte-americano.

Confira a conversa na íntegra abaixo:

Ibson em bate-papo com o Cenas Lamentáveis no hotel onde se hospedou com a equipe em Vancouver (Foto: Gabriel Rigoni)
Ibson em bate-papo com o Cenas Lamentáveis no hotel onde se hospedou com a equipe em Vancouver (Foto: Gabriel Rigoni)

Cenas Lamentáveis: Como é a organização da MLS? 

Quem comanda a MLS é um dono. Ele é quem paga o salário dos jogadores, não o clube. Para você entrar na Liga, tem que pagar 80 milhões de dólares, construir um estádio, ter um CT padronizado da forma que a Liga quer. O vestiário é de primeiro mundo, e tudo o que você imaginar tem no nosso CT. Tem que ter uma logística. Não é só comprar uma franquia e entrar. Tem que ter um estádio com capacidade para 25 mil pessoas, ser bem localizado, de fácil acesso. Ano passado, a gente estava em outra liga. Onde a gente jogava, que era um pouco mais distante, é onde a gente treina hoje.

Cenas Lamentáveis: E os investimentos, como são?

Cada clube tem a mesma pré-determinada quantidade de dinheiro para dividir entre todo o elenco, sendo que três jogadores podem ganhar acima desse teto. Você pode garantir alguns jogadores para a Liga não trocar de time. Com o restante do grupo, pode acontecer de você chegar para o treino e te avisarem que a Liga te transferiu de time.

Cenas Lamentáveis: Como é o comportamento do torcedor norte-americano?

Jogamos no estádio da faculdade, que é bem grande. A média de público é de cerca de 20 mil torcedores por jogo. A cidade que eu vivo só tem americano mesmo. É uma educação que até no resto dos Estados Unidos você não vai encontrar. É muito tranquilo. Às vezes, você até é reconhecido, mas eles são muito tranquilos. Por isso, tem muito jogador querendo vir para cá para poder ter essa tranquilidade. Poder jogar, fazer o que você gosta, mas poder criar os filhos com segurança, possa viver, sair para a rua, para os restaurantes. Tem pressão? Tem, mas é diferente. Você perde uma partida, e a torcida te aplaude. Você vai para o outro jogo pensando em trazer alegria para eles. No Brasil, você se cobra muito, mas também é muito cobrado. Aqui, você tem a cobrança interna, você quer dar mais para dar alegria para eles porque dentro do campo você não vê a cobrança deles. Aplaudem por 90 minutos. A cultura é muito diferente.

Cenas Lamentáveis: Como é a rotina? E o calendário?

Treinamos uma vez por dia, às vezes duas. É tranquilo. O calendário é mais curto. Normalmente, voltamos em 23 de janeiro. Temos fevereiro para treinar. O campeonato começa em março, e o último jogo antes dos playoffs é em 22 de outubro. Se você não classificar, você tem novembro, dezembro e praticamente janeiro inteiro de férias.

Cenas Lamentáveis: Fale um pouco sobre a campanha do Minnesota United

Nosso time foi todo reformulado. Do ano passado, ficou apenas 5 ou 6 jogadores. Eram 5 brasileiros, e esse ano só eu fiquei. O campeonato é muito equilibrado. Você não briga nem para subir, e nem para cair, porque não tem rebaixamento. A competitividade é para entrar nos playoffs. Classificam seis de cada conferência. Uma coisa que me intriga é que teve equipe que jogamos contra apenas uma vez. Com outras, jogamos apenas uma. Não sei como é essa definição. Também calha de às vezes ter três ou quatro jogos seguidos fora. É surreal, muito diferente, mas é uma Liga que está crescendo, acredito que ainda vai melhorar nessa questão.

Cenas Lamentáveis: Como se dá a comunicação com o elenco e a comissão técnica?

Meu inglês está mais ou menos, mas consigo me virar. E tem muito latino no elenco também. A língua do futebol é muito fácil, na verdade, é fácil de se comunicar. O auxiliar é americano, e meu treinador é inglês. Para entender ele, é um pouco mais difícil por causa do sotaque diferente, mas entender é mais fácil do que falar. Ele veio do Orlando, onde ficou 4 ou 5 anos. O problema é que enquanto no Brasil os elencos têm mais de 30 jogadores, aqui, a maioria dos times tem no máximo 25 jogadores no elenco, e quem comanda é a Liga. Também não existe a base. Eles estão querendo crescer para esse lado, mas é muito diferente. O treinador chegou agora e pegou uma equipe muito nova. No meio do campeonato, a Liga troca muito jogador de time.

Cenas Lamentáveis: Pensa em voltar para o Brasil? 

Tenho 33. Não penso em voltar agora não. Ainda não penso. Quando eu parar, não sei o que vou fazer, mas no momento não penso em voltar. Se eu voltasse para o Brasil, poderia ganhar muito mais dinheiro do que ganho aqui, mas a tranquilidade que tenho com a minha familia, meus filhos, pesam. Pego meu filho na escola e levo para jogar futebol, levo minha filha para a ginástica, levo eles para a escola. Posso ir ao shopping tranquilo, largar meus filhos na rua, que eu sei que eles vão voltar para a casa. A segurança que eu tenho aqui, eu não trocaria. Se fosse pelo aspecto financeiro, estaria em outro lugar, mas minha vinda aconteceu pela qualidade de vida.

Cenas Lamentáveis: E o futuro? 

Tenho contrato até o fim do ano, mas estamos conversando para permanecer por mais dois anos. Minha vontade é de ficar no mesmo time, na mesma cidade. Fiz bastante amizade na cidade onde eu estou. Você acha que não vai encontrar brasileiros, mas tem em todo o lugar.

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