O caos do futebol maranhense

Amadorismo, má organização e muitas polêmicas são marcas da federação.

Por Pedro Pereira, MA

As federações de futebol são entidades que em tese deveriam proporcionar um melhor desenvolvimento do futebol no estado que representam, porém, como estamos cansados de saber, isto não ocorre na prática. Em alguns casos, elas até cumprem minimamente esse papel com um campeonato organizado de forma simples. A questão é que muitas vezes tais federações são lembradas, principalmente, por seu desserviço com o futebol, inventando regulamentos confusos e indo na contramão de seu principal objetivo anteriormente citado.

O futebol maranhense passa por uma grave crise que se estende há muitos anos e dificulta a prática do esporte no estado. A confusão da vez foi o regulamento do campeonato de 2017 que em seu Artigo 11 afirma que:

Art. 11 – Na disputa da fase Semifinal as Associações que obtiverem o melhor índice
técnico, na soma dos pontos ganhos na Primeira Fase, realizarão as suas partidas na condição de mandantes, com a vantagem de jogar pelo empate.

O grande problema é que esse artigo abre brecha para interpretação. O Moto Club, que terminou em primeiro lugar do Grupo A com 6 pontos enfrentaria o Sampaio Correa, que terminou em segundo do Grupo B com 8 pontos. A vantagem do empate em tese deveria ser do Moto Club, o que não ocorreu. A equipe rubro-negra se apoia no fato da mesma situação ter ocorrido no campeonato de 2016, onde o time Imperatriz se encontrava na mesma situação mas teve a vantagem. Em contrapartida, o Tubarão acredita no que está no regulamento e confia no mesmo. Toda essa situação ocasionou a suspensão das finais do segundo turno até que esse e outros casos pendentes no TJD sejam julgados.

Essa é apenas uma amostra da desorganização do futebol maranhense causada pela federação. A crítica se estende a outros pontos que contribuem para o desinteresse e desvalorização do futebol local. A falta de divulgação dos jogos do campeonato e os horários destes afastam a maior parte dos torcedores e acabam por gerar a falta de identificação com as equipes locais. É terrível, por exemplo, ver o Superclássico, como é conhecido o jogo entre Sampaio e Moto, o principal do estado, com apenas 5 mil pessoas – na melhor das hipóteses. Um exemplo absurdo que aconteceu neste ano foi durante a primeira rodada do campeonato no jogo de estreia. A Federação Maranhense decidiu fazer uma cerimônia de abertura e chamou um grande jogador de cada time da capital. Porém, a grande surpresa foi a presença de Roberto Dinamite, ídolo do Vasco, do Rio de Janeiro, para dar o pontapé inicial. Nada contra o grande jogador que ele foi, mas qual sua identificação com o futebol maranhense? O que fez pelo mesmo? É algo a se questionar em uma terra que formou Juca Baleia, Kleber Pereira entre outros bons jogadores.

Estádio Correão lotado em jogo do Bacabal EC, tradicional time do interior maranhense (Foto: Reprodução/ http://manonetoesportebacabal.blogspot.com.br)
Estádio Correão lotado em jogo do Bacabal EC, tradicional time do interior maranhense (Foto: Reprodução/ Manonetoesportebacabal.blogspot.com.br)

Outro problema que torna o futebol maranhense precário é a falta de calendário para as equipes que não participam de campeonatos nacionais. A maioria dos clubes do interior montam seus elencos em janeiro com certeza de apenas 4 meses de competição confirmada. A entidade só realiza duas competições durante todo o ano: a Serie A com 8 clubes e, quando possível, a Série B com variação de 4 a 6 clubes. A existência de campeonatos no decorrer do ano é fundamental para a existência destes times e a profissionalização do futebol no estado. Como exemplo, temos o Bacabal Esporte Clube, tradicional equipe do interior que se preparava para disputar a segunda divisão em 2016 quando foi notificada que a mesma havia sido cancelada. O motivo foi a desistência de dois times que não cumpriram com algumas determinações que viabilizavam a participação deles.

Em teoria, a melhora do futebol estadual pode ocorrer de forma simples, visto que um fator influencia diretamente o outro. O problema é que as federações, não apenas do Maranhão mas de outros estados que penam para ter um futebol decente, são comandadas por pessoas que não apoiam os times da região e sequer são apaixonadas por futebol. Desta forma, a questão política interfere na escolha dos cidadãos irão comandar as entidades máximas do futebol estadual.

O custo do amadorismo

A displicência da federação com o futebol do estado afeta diretamente a maneira como os clubes encaram o campeonato estadual e, assim, acaba prejudicando o planejamento para outras competições que ocorrem no início do ano. Ao perceber o campeonato maranhense como uma competição de nível técnico baixo, os clubes, em especial os grandes, acabam por fazer da competição um laboratório para teste de elenco. A questão é que o time que disputa o estadual é o mesmo que disputa a Copa do Nordeste e Copa do Brasil, por exemplo, contribuindo assim para campanhas pífias nas competições, como as dos clubes em 2017, principalmente na competição regional.

A culpa não se limita apenas à federação. A mídia local colabora com esse amadorismo, já que não se preocupa com o futebol maranhense e realiza um trabalho no mínimo preguiçoso. Coberturas curtas, falta de matérias e a indiferença das emissoras ao tentar transmitir jogos do estadual ou brasileiro contribuem para esse problema. Um exemplo: em 2017, duas emissoras brigavam pelo direito de transmitir o estadual. A emissora que conseguiu os direitos recebeu verbas do governo mas até o momento, transmitiu apenas um jogo.

Apesar de muitas criticas e dificuldades, por que acreditar no futebol maranhense?

sampaio_titulo_d
A grande campanha do Sampaio em 2012 alavancou ainda mais a rivalidade no estado (Foto: Reprodução/ Globo Esporte MA)

A grande verdade é que o povo maranhense abraça a maior parte das propostas e novidades. Sendo assim, o empenho da população em uma eventual melhora no futebol local seria realmente notória. O grande exemplo foi a campanha do Sampaio Corrêa de 2012 a 2014, que fez a mídia brasileira voltar seus olhares para o estado. Outro bom exemplo é a recente promoção do Moto Club à Série C, que fez com que a rivalidade entre os times crescesse. O envolvimento do povo com os clubes proporciona um aumento do público nos estádios e acirra ainda mais a rivalidade estadual.

A extensão, ou criação, de mais campeonatos voltados principalmente para as equipes do interior, que não têm calendário, certamente movimentaria as cidades que receberiam as torcidas de outros locais. Um exemplo de como funciona é a cidade de Barra do Corda, que abriga o Cordino, campeão do primeiro turno. As torcidas de Moto e Sampaio se deslocam em grande quantidade para a cidade e acabam aproveitando o clima acolhedor e toda a tranquilidade que interior tem.

Enfim, a situação que atravessa o futebol maranhense pode ser presenciada em outros estados que têm a total falta de compromisso com o futebol. É visível para um apaixonado por futebol, como este que escreve o texto, a grande capacidade que o estado tem para ter boas competições e revelar grandes jogadores. Outro ponto perceptível é a paixão do maranhense pelo esporte. São invejáveis as rivalidades em estados próximos ao Maranhão, como Pará e Ceará, onde os times lotam estádios e criam todo um clima antes dos clássicos. Acredito que um dia poderemos chegar a algo próximo.

Porém, enquanto o futebol for comandado por pessoas que ignoram o quão grande é esse esporte e prefiram usá-lo como trampolim político, situações como essas se tornarão comuns.

Fontes: Imparcial, Globo Esporte MA

3 Comentários em O caos do futebol maranhense

  1. O clássico daqui entre Sampaio x Moto é conhecido como Superclássico. É o único que não é uma aglutinação dos nomes dos times, caso do Samará (Sampaio x Maranhão) e Maremoto (Maranhão x Moto). Independente disso, o regulamento era claro quanto à vantagem a quem fizesse mais pontos, não ao primeiro lugar dos grupos. A própria FMF admitiu o erro do ano passado.

1 Trackbacks & Pingbacks

  1. Estádio Governador João Castelo, o Gigante do Outeiro - Cenas Lamentáveis

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*