Totti: o capitão estava certo

A LENDA DA CAPITA ITALIANA

A despedida de Francesco Totti (Foto: reprodução/Getty Images)
Por Jean Costa, RS

— Contra a Roma, eu não jogo.

Essa foi a frase de Francesco Totti, aos oito anos de vida, quando ficou sabendo que teria de jogar contra seu time do coração, a Roma, pelo Trastevere. E, realmente, contra a Roma ele jamais jogou. Passou a carreira inteira como profissional defendendo apenas o grená do principal time da capital italiana. Um total de 24 temporadas. O fim veio no último dia 28 de maio, na vitória emocionante, de virada, por 3 a 2 sobre o Genoa, que garantiu a Roma uma vaga na Liga dos Campeões de 2018/2019.

Aos 13 anos, Totti começou a jogar pelas categorias de base do clube. Por conta das boas atuações no time sub-14, foi recompensando. Pôde ser gandula, em maio de 1991, da final da Liga Europa. Ali, perto da arquibancada da curva sul, teve a sua primeira decepção. A Roma, no Estádio Olímpico lotado com mais de 70 mil pessoas venceu por 1 a 0, mas como havia perdido o primeiro jogo da decisão no San Siro para a Internazionale por 2 a 0, acabou ficando com o vice-campeonato.

Sua estreia no time profissional não demoraria para ocorrer. Foi em 1993, aos 16 anos de idade (tornou-se o jogador mais novo da equipe a entrar em campo em um jogo oficial), em uma partida contra o Brescia, pelo Campeonato Italiano — vitória do Roma por 2 a 0. A partir de então, acumulou recordes, títulos, gols e fãs.
Seu primeiro gol só foi ocorrer em setembro de 1994, no empate em 1 a 1 contra o Foggia, pelo Campeonato Italiano.

— Sonhei com este gol durante tanto tempo e, quando aconteceu, parecia não ser verdade — disse Totti, que, na temporada seguinte, tornou-se titular absoluto. Aos poucos, foi firmando-se como uma bandeira. Trata-se de um nome dado pelos italianos para jogadores como Messi e Puyol no Barcelona, Rogério Ceni no São Paulo, Maldini no Milan, Zanetti na Internazionale, John Terry no Chelsea, Marcos no Palmeiras, Ryan Giggs no Manchester United (entre outros) que fazem toda a sua carreira profissional dentro do time do coração. Jogadores que, literalmente, desceram da arquibancada para tentar fazer com que seu time fosse vencedor. Que, independente do dinheiro oferecido, fazem questão de defender apenas as cores do seu time.

Neste quesito, Totti também é recordista. Disputou 785 partidas oficiais pela Roma. Jamais um jogador participou de tantos jogos pelo time da capital italiana. Mesmo assim, está atrás de Maldini, que jogou 902 partidas pelo Milan, e Javier Zanetti, que esteve em campo por 858 vezes defendo a camisa da Internazionale.

Os números do ídolo da equipe romana ao longo de toda a sua trajetória pelo clube
Os números do ídolo da equipe romana ao longo de toda a sua trajetória pelo clube

Mas voltemos à carreira. E aos recordes.

Em 1998, com apenas 22 anos, tornou-se o capitão da Roma e o jogador mais novo na história do Campeonato Italiano a usar uma braçadeira. Com 42 jogos disputados, fez desta a segunda temporada em que mais entrou em campo pela equipe (atrás apenas da temporada 2006/2007, quando disputou 50 partidas). Neste momento, estava realizado o sonho do jovem torcedor romanista que se negara a enfrentar a Roma aos oito anos enquanto defendia o Trastevere, time centenário de nome homônimo ao bairro da capital italiana. Mas Totti queria mais. Queria devolver à Roma os títulos que Falcão conquistara na década de 80 e que seu pai tanto lhe contara.

Entre fases preliminares e as demais, Totti teve sua melhor média de gols em uma competição
Entre fases preliminares e as demais da Liga Europa, Totti teve sua melhor média de gols em uma competição

Para isso, teve ao seu lado a chegada do técnico Fábio Capello, que, na época de jogador, de 1967 a 1969 já havia atuado pela equipe da capita italiana em 62 partidas e marcado 11 gols (o que, convenhamos, para um volante, é um número expressivo). Ao lado de Antônio Carlos Zago (ex-técnico do Internacional), Cafu, Emerson (ex-Grêmio), Batistuta, Delvecchio e outros jogadores, tornou-se campeão da Série A desbancando as sempre favoritas e milionárias Juventus, Napoli, Internazionale e Milan. A coroação do ídolo veio com o primeiro gol da decisão contra o Parma, de Buffon, no Estádio Olímpico. Totti invadiu a grande área fuzilando o ângulo do futuro colega de Seleção. Em seguida, como um torcedor que desce da arquibancada para o campo, comemorou girando a camisa na curva sul com os fãs.

O título italiano se tornou ainda mais importante porque a rival Lazio havia sido campeã na temporada anterior. Aliás, Totti também acumula recordes contra a rival da capital. Foi o jogador que mais disputou o clássico, com 44 aparições. E também o que mais marcou, com 11 gols. Mesmo sendo uma das maiores rivalidades do mundo, até mesmo os torcedores da Lazio fizeram questão de reverenciar o capitão romanista levando ao estádio uma faixa com os seguintes dizeres: “os inimigos de uma vida saúdam Francesco Totti”.

Em seguida, mesmo com o orçamento enxuto da Roma em comparação com as gigantes equipes do futebol italiano como Juventus, Milan e Internazionale, Totti levou a Roma à duas Copas da Itália (2007 e 2008) e à duas Supercopas da Itália (2001 e 2007).

Foram 57 jogos disputados por Totti na história da Champions, com 17 gols marcados
Foram 57 jogos disputados por Totti na história da Champions, com 17 gols marcados

Pela Seleção, disputou 58 jogos e marcou nove gols. Em 2006, tornou-se campeão mundial ao vencer a França nos pênaltis na Copa do Mundo da Alemanha.

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Como melhor jogador italiano em 2000, 2001, 2004, 2004 e 2007, recebeu o convite milionário de vários clubes. Entre eles o Real Madrid. Mas, segundo Gian Oddi, comentarista dos canais ESPN e torcedor romanista, “trocou o dinheiro e os títulos que poderia ter conquistado em um clube de maior expressão para entrar na história da Roma”. E assim o fez.

Na sua última temporada pela equipe, apesar de estar em boa forma física, Totti, aos 40 anos, foi reserva no time de Luciano Spalletti. Entrou em apenas 18 dos 38 jogos da equipe no Campeonato Italiano. Dentro de campo, somou um total de 377 minutos. Na única que vez que iniciou uma partida jogando, vitória por 4 a 0 sobre o quase rebaixado Crotone, que terminou a competição uma posição acima da zona do descenso.

Na sua temporada de estreia, no caso 92/93, Totti jogou por apenas seis minutos
Na sua temporada de estreia, no caso 92/93, Totti jogou por apenas seis minutos

Ao revelar que sairia da Roma, vários craques do futebol mundial começaram a prestar homenagem ao camisa 10. O primeiro foi o argentino Diego Armando Maradona, que afirmou que “Totti foi o melhor jogador que já viu na sua vida”. Colega de seleção italiana na conquista da Copa do Mundo de 2006 na Alemanha, Gianluigi Buffon também não poupou elogios:

— Ele (Totti) fez muitos gols em mim. Alguns foram tão bonitos que, se eu tivesse conseguido defender, teria arruinado obras de arte.

No seu último jogo, contra o Genoa, o meia-atacante entrou em campo aos oito minutos do primeiro tempo. Quase marcou um gol, emocionou, alegrou e divertiu a torcida com uma “dominada” de costas. Ao término do confronto, comemorou a classificação à Liga dos Campeões como normalmente celebra: correndo pela curva sul do Estádio Olímpico. O mesmo lugar que assistiu à Internazionale comemorar o título da Liga Europa como gandula. Só que, desta vez, ficou um ponto à frente do time de Milão, o suficiente para eliminá-los da próxima edição do maior torneio de clubes da Europa.

Após a partida, de forma extrovertida, característica que, entre os bastidores da Roma, dizem que sempre acompanhou Totti, o capitão se despediu. Após o duelo, mais de 70 mil pessoas, a maioria delas aos prantos, assistiu ao camisa 10 ler sua carta.

— É impossível eu reunir estes 28 anos que passei aqui dentro em algumas linhas. Eu gostaria de fazer um poema, ou uma música. Mas não sou capaz de fazer nada disso. Nesta semana, li várias coisas sobre mim. Chorei a cada dia sozinho. Desta vez, sou eu que preciso do amor que vocês sempre demonstraram por mim. Com a ajuda de vocês, serei bem sucedido para virar a página e mergulhar em uma nova aventura. Ser capitão deste time é uma honra. Não irei entretê-los mais com os meus pés, mas meu coração estará para sempre com vocês. Descerei como homem as escadas que pisei quando era criança. Me sinto honrado e feliz de ter dado a vocês 28 anos de amor. Eu amo vocês.

Emocionado, e com a sua família ao redor, Totti passou pela curva sul pela última vez. Seu futuro ainda é incerto. Não admitiu nem negou que continuará jogando. Uma coisa é certa. Quando tinha apenas oito anos, o torcedor romanista que desceu da arquibancada, vestiu a camisa do time para virar uma lenda acertou a sua previsão: jamais jogará contra a Roma.

Texto publicado primeiro aqui.

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