O Colorado voltou: cinco lições para manter o Inter na boa fase

(Foto: Ricardo Duarte/Internacional)
Por Ricardo Santos, RS

O Internacional terminou o primeiro turno na vice-liderança do Campeonato Brasileiro. Com 38 pontos, faz a melhor campanha de primeiro turno em sua história nos pontos corridos, superando os 37 pontos conquistados no ano de 2009. Não que uma vice-liderança, ainda mais de um turno tão somente, seja um feito grandioso, mas dada a realidade recente do clube, advindo da série B, com dívidas e uma série de problemas em toda a sua estrutura, há muito o que se comemorar. O torcedor está em festa, é verdade. Costuma-se dizer que o tempo é o melhor remédio. No caso do Internacional, essa sentença não poderia ser mais verdadeira. Ainda assim, é nos momentos positivos que a necessidade de voltar os olhares para trás se faz presente. É preciso aprender com tudo o que aconteceu e, assim, prevenir-se.

1 – Saber reconhecer a necessidade de melhorar ainda mais, em busca do melhor futebol possível

É fato que o Inter alcançou outro patamar, e com a boa campanha do primeiro turno, volta a ser respeitado e citado como candidato ao título. Também é fato que a equipe de Odair Hellmann apresenta um futebol de mais qualidade que a equipe do rebaixamento e ao longo da série B. Isso não significa, no entanto, que o Inter joga o melhor futebol que pode. É uma equipe melhor, mas com alguns problemas a se pontuar. A defesa é onde principalmente acertou Odair, não há duvida. A criação de meio de campo é que deixa a desejar.

O time colorado apresenta muita valência física, e alguns destaques individuais. A mistura desses dois fatores resulta em jogos nos quais o Inter consegue deslanchar a fazer gols, como em casos recentes contra Botafogo, no Beira-Rio, e Fluminense, no Maracanã. Contudo, quando é do Inter a responsabilidade de propor o jogo, criar oportunidades através de uma ligação mais efetiva do meio de campo com o ataque, apresentam-se as dificuldades. Patrick e Edenílson são jogadores de boa qualidade, mas não apresentam a característica do passe final, como seria o caso de D’alessandro, que vem sendo banco por alegação de uma série de lesões musculares.

O Internacional encaixou com a formação que vem jogando. Não significa que não possa render e criar mais. Ser ainda mais contundente. A vitória sofrida por 1×0 contra o lanterna Paraná, em casa, em um Beira-Rio abarrotado de colorados, mostra o porquê de Odair Hellmann ainda precisar pensar na mecânica do time na parte ofensiva.

É importante jogar o melhor futebol, sim. Uma liderança como a de Argel no comando, em 2016, não pode ser abraçada. O time tem que saber porque ganha. E estar no topo de cima da tabela provisoriamente não é garantia de sucesso.

A liderança do Inter de Argel em 2016 escondia uma série de erros. (Foto: Ricardo Duarte/Internacional)

2 – Em time que está ganhando, também se mexe

Seguindo a linha de pensamento do ponto 1, estar vencendo não representa, necessariamente, o melhor desempenho e escalação. É preciso continuidade, claro, e o treinador do Inter parece ter achado seu jeito de jogar no 4-3-3, com algumas variações no 4-1-2-3, 4-2-1-3, ou até 4-3-2-1. Enfim, para além do jogo de tabuleiro, há de se pensar nas peças, que são os agentes principais. A reflexão é: quais jogadores ainda não são 100% titulares na equipe?

Dos exemplos possíveis, temos a lateral-direita, que vem sendo ocupada por Fabiano. Vem dando algum resultado, com uma maior consistência defensiva. Entretanto, Zeca é um lateral de maior qualidade, campeão Olímpico, e estando recuperado deve voltar ao time. No meio, D’alessandro segue de fora, por lesões. Mas e recuperado? Tem como deixar um meia de tanta qualidade – camisa 10 escasso nos dias de hoje – de fora do time? Algo a se pensar também. E no ataque, temos Nico López em grande fase. Já o centro deve ser ocupado por Guerrero, e é na outra ponta que se faz ressalva. Pottker deve se manter titular?

O jogador é importante no sistema, pela capacidade de recomposição e o aspecto físico em que se destaca. No entanto, o jogador tem feito poucos gols e raramente se destaca nas partidas. No banco, o Inter tem D’alessandro, Rossi, Lucca, Wellington Silva, entre outros. Muitas opções para lapidar o time.

Não é uma obrigatoriedade, mas mexer em time que está ganhando é uma opção, com certeza.

William Pottker precisa de mais atuações de alto nível. (Foto: Ricardo Duarte/Internacional)

3 – Soberania dentro de casa

Já dizia no folclore do futebol estrangeiro, um narrador britânico sobre Messi e Cristiano Ronaldo, os maiores do futebol: “quero ver eles fazerem isso tudo numa noite fria e chuvosa em Stoke”. A frase cômica diz respeito da força do pequeno Stoke City em casa, com as dificuldades do clima da região e o Estádio de proporções menores.

O exemplo satírico é para carimbar que independente do tamanho da equipe e dos adversários enfrentados – deixando muito claro que o Internacional é muito maior que o tal do Stoke – a soberania dentro de casa é precisa. O colorado estava perdendo isso, o respeito dentro de casa. Tanto em 2016, na péssima campanha do rebaixamento, contra os time da série B.

Agora, temos o resgate. Campanha invencível em seus domínios, até então. As 3 derrotas da equipe foram longe de casa, contra Palmeiras, Flamengo e América-MG. E é assim que tem que ser, sempre. O adversário tem que temer o jogo em seus domínios. O Beira-Rio voltou a rugir.

No Beira-Rio, o Internacional tem que ser soberano. (Foto: Ricardo Fabrello/Futura Press)

4 – Ganhar dos times mais fracos / ou em pior momento

O colorado sabe bem da sina do time interminável. Vou narrar a estorinha: “enfrenta o líder do campeonato fora de casa e consegue uma vitória incrível. Aí quando recebe o lanterna em seus domínios, perde”. Uma coisa incrustrada na “senda de vitórias” do Inter, a de reviver os desesperados.

Mas parece que nesse ano o colorado vem aprendendo a lição. Nos confrontos contra os 10 piores colocados do campeonato, os resultados foram bastante satisfatórios: 8 vitórias, 2 empates, 1 derrota.

Contra o Paraná, lanterna da competição, o Internacional parecia resgatar a velha sina. Cerca de 45 mil colorados assistiam a um melancólico empate em casa, até Camilo, no final do jogo, trazer o estádio a baixo com um belo gol de falta.

5 – Cuidado na avaliação (alô, imprensa e torcida)

É fantástico como o público geral do futebol é precoce. Eu não sei dizer muito bem o que atrai torcedores, ou jornalistas (como é o meu caso, portanto, um mea-culpa), a tentarem cravar opiniões definitivas a respeito de determinado jogador ou treinador.

O problema de se fazer isso é que o clube de futebol, dentro e fora de campo é um sistema complexo. Um ambiente ruim, um time ruim, o coletivo todo pode afetar e muito um trabalho individual. Isso não quer dizer que o trabalho individual seja definitivamente ruim. Bom, se está muito complicado, vou ilustrar com dois exemplos principais, no que diz respeito ao Internacional:

Odair Hellmann: primeiro eu tenho uma pergunta, você pediu a saída do Odair? Ali, no início do campeonato, com duas derrotas consecutivas e empate no GreNal. Ele era chamado de insuficiente e inexperiente, afinal, era antigo auxiliar técnico da equipe e nunca havia trabalhado com profissionais (fora da base). Ventilou-se a saída do treinador algumas vezes, por parte da imprensa também.

Veja bem, torcedor. Entendo claramente a vontade de resultados rápidos e a corneta em cima de determinado profissional. Na verdade, você pode, até certo ponto. Mas sempre tente ser um pouco menos imediatista, isso faz bem e muito. A imprensa é que peca constantemente nisso, por ter mais responsabilidade e o poder do microfone, do teclado, enfim. O certo é que a manutenção de Odair foi uma ótima escolha e ele ajeitou o time, o levando até a segunda posição.

Victor Cuesta: Falava sobre a responsabilidade da imprensa com o poder midiático. Não foram poucos os comunicadores que alfinetavam o zagueiro argentino. Recentemente, resgatou-se posts de jornalistas comparando Victor Cuesta a Paulão. Por que isso? Porque em um time desarrumado, Cuesta não rendia o seu melhor futebol e quem gosta de imediatismo o cravou como mau zagueiro. Atualmente, é um dos principais zagueiros do Campeonato Brasileiro. Não foi de uma hora para outra que ele passou de péssimo a ótimo zagueiro. Foi a partir de uma mudança em todo o sistema, com maior confiança e segurança que ele pôde mostrar o bom zagueiro que é. Avaliações erradas de imprensa e de torcida podem fazer com que seu clube perca bons jogadores, por isso, o alerta e a última lição.

Cuesta é um dos destaques do Inter. Faz parte do time da “Bola de Prata” da ESPN. (Foto: Ricardo Duarte/Internacional)

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