O Concerto das Torcidas: Um tango nas Arquibancadas

Conheça a história de canções do Boca, River e San Lorenzo

Por: Alexandre Greco, CE

A Copa Libertadores está batendo à porta em sua versão mais longa. Teremos um ano todo para a competição mais original do mundo; cachorros em campo, times usando camisas de seleções, tapas e pontapés, zagueirada raçuda distribuindo hematomas, chuva de papel, drones lépidos sobrevoando estádios, torcedores rivais jogando toda sorte de objetos cortantes e perfurantes, gols nos acréscimos, buzinaços em hotéis, altitude ganhando jogo e, claro, as arquibancadas lotadas; arquibaldos do cone sul a machu pichu reafirmando um modo de torcer, uma construção de identidade que passa pelo futebol praticado no continente mais sincrético do mundo e que salta à sinfonia mais bonita do ludopédio; O Concerto das Arquibancadas!

Uma das coisas que todos nós sempre notamos na libertadores é a garra dos jogadores argentinos e uruguaios, a forma com que marcam, se dispõem em campo e se entregam nos certames disputados contra os times brasileiros. Batalhas épicas que parecem suspender os estádios no tempo e espaço; mitificam camisas, colocam pequenos homens na linha fundamental da história, transformam grandes craques em sujeitos descartáveis na temporalidade futebolística. Não jogam, se entregam num dois por quadro de um tango milongueiro que se dança triste e forte – como o Riquelme quando olha pra bola antes do apito inicial – regida pela orquestra mais completa do mundo, repleta de piazzollas e gardeis, que entoa a pleno pulmões os cantos mais epopeicos do futebol.

E é sobre isso que gostaria de falar, os cantos das torcidas de futebol, aqui, mais atento aos nossos vizinhos argentinos, que tem toda uma forma particular de torcer e chamam atenção pelos aspectos simbólicos e indenitários, alguns, completamente diferente dos nossos e por isso instigantes e carentes de olhares mais cuidadosos, como por exemplo, o San Lorenzo, que protagonizará um dos duelos mais interessantes da primeira fase, contra o Flamengo, e tem uma torcida muito apaixonada e uma história ligada ao bairro de Boedo (que mostramos aqui no post passado). Um de seus principais cantos é, justamente, o “Barrio de Boedo”:

Vengo de barrio de Boedo/barrio de murga y carnaval/Te juro que en los malos momentos, sempre te voy a acompanhar…

E aqui reside um denso extrato do que marca a construção da identidade do torcedor com seu clube; a relação se edifica, entre outras coisas, pela tragédia. Diferente de muitos cantos que exaltam o triunfo, as taças, conquistas, para nossos hermanos a tragédia é um dos fatores que consolidam sua conexão com o clube. Através dela o torcedor reafirma sua paixão, se despe da vaidade e constrói sua narrativa, mais baseada na parceria que se estabelece nas adversidades do que no momento de felicidade por alguma conquista. Sim, amigos, é como um tango mesmo; “um pensamento triste que se pode dançar”. O River Plate, outro argentino na Libertadores, traz, entre suas principais canções a “Yo soy de River porque el mundo me hizo así”:

Yo soy de River porque el mundo me hizo así/ no puedo cambiar…

Sim, a torcida do River é extremamente bem resolvida no que se refere ao sentido de existência, coloca as teses de Epícuro e Platão no bolso, faz um desdobramento astral na metafísica e crava em uníssono que a razão da vida deles é torcer para Los Millionários! É forte, trágico e extremamente exagerado, como deve ser! E não fica apenas no River, afinal, seu rival também é docemente acometido de exageros. O Boca Juniors, que infelizmente, em 2017, não estará na libertadores, tem um largo acervo de canções sensacionais, entre essas pérolas frases como “Boca sos la droga de mi corazón” e a lindíssima:

https://www.youtube.com/watch?v=cNR9byzG8tc 

Pasan los años, pasan los jugadores/ La “doce” esta presente y no para de alentar/ Por eso yo, te quiero dar, boca mi corazón/ Yo te sigo a todas partes, gracias por salir campeón.

E arremata, delicadamente, mandando uma provocada:

Vos, vas a cobrar, river sos un cagón/ Esos no son los borrachos, son los putos del tablón.

E segue o jogo!

Teríamos que construir uma série de textos pra dar conta do vasto repertório do cancioneiro futebolístico argentino, que tem suas particularidades, agora; imagine vasculhar o que salta da garganta dos Uruguaios? Tão trágicos quanto, mas de um exagero lúgubre, menos ruidoso. Ou quem sabe as hinchadas bolivianas, colombianas, venezuelanas, brasileiras… É preciso ouvir o que vem das arquibancadas, há política e cultura latente na poesia de quem grita e chora por algo que está muito além de uma camisa.

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