O dia em que Tuta silenciou a Baixada

O centroavante garantiu o título para o Coxa em 2004 nos quinze minutos finais do duelo

Tuta foi mais um exemplo do poder da Lei do Ex (Foto Arquivo - Tribuna do Paraná)
Por Dudu Nobre, PR

Recentemente, vimos as decisões dos campeonatos estaduais Brasil afora. Se o equilíbrio foi a tônica em alguns estados (MG e RS, por exemplo), no Paraná o Coritiba construiu uma vantagem elástica de 3 a 0 em cima do Atlético e encaminhou o título no Joaquim Américo, administrando um morno e formal 0 a 0 no Couto Pereira para levantar o trigésimo oitavo título regional.

Cenário bem diferente do que aconteceu no Paranaense de 2004, campeonato que prometia fortes emoções desde o início. O alviverde do Alto da Glória era o time a ser batido, já que chegou ao certame com o status de campeão invicto e vinha embalado por uma boa campanha no Brasileirão de 2003, um quinto lugar que rendeu a volta à Copa Libertadores após 16 anos de espera.

No entanto, o Coxa teve que se reestruturar para esse ano tão importante, já que o treinador Paulo Bonamigo e 19 jogadores deixaram a equipe, dentre eles os destaques Tcheco (que foi para a Arábia Saudita) e Marcel (contratado pelo futebol sul-coreano). Mas alguns jovens promissores seguiram no elenco, caso do zagueiro Miranda – hoje na Inter de Milão-ITA – e do lateral Adriano – ex – Barcelona-ESP, hoje no Besiktas-TUR.

A solução encontrada pela diretoria foi contratar o veterano Antônio Lopes para a casamata e apostar em atletas experientes. Por isso trouxe o meia Capixaba e  um trio de ataque tarimbado: Luiz Mario – campeão da Copa do Brasil pelo Grêmio em 2001 -, Tuta – com passagens por Flamengo, Palmeiras e pelo rival Atlético – e Aristizábal. O Colombiano havia acabado de conquistar a tríplice coroa pelo Cruzeiro e desembarcou no aeroporto Afonso Pena após o Coritiba desembolsar mais de 1 milhão de reais.

No mesmo ano, Washington foi artilheiro do Brasileirão com 34 gols (Foto: Reprodução - Site Oficial Atlético)
No mesmo ano, Washington foi artilheiro do Brasileirão com 34 gols (Foto: Reprodução – Site Oficial Atlético)

Se no Alto da Glória o dinheiro jorrava dos cofres alviverdes, pros lados do CT do Caju as contratações foram bem mais modestas. Após um início de século mágico coroado pelo título nacional em 2001, o Atlético não foi bem em 2003, terminando o Brasileiro daquele ano na décima segunda colocação – ficando de fora da Copa Sul-Americana de 2004.

A diretoria rubro negra priorizou a contratação de peças para o setor defensivo, que havia tomado 72 gols no Brasileirão anterior. Para o ataque, o nome mais expressivo foi o do centroavante Washington, um brasiliense com faro de gol, mas que tinha um problema: estava há 14 meses longe dos gramados por conta de problemas cardíacos.

Com isso os olhos do treinador Mario Sérgio se voltaram para a base. Mário promoveu ao time principal os jovens Dagoberto e Fernandinho, que haviam sido campeões mundiais Sub-20 em 2003 com a Seleção Brasileira. Junto com eles, deu um voto de confiança aos meio-campistas Jadson e Alan Bahia – que já haviam recebido oportunidades no Brasileiro do ano anterior.

Com receitas diferentes, a dupla Atletiba chegou à final do estadual de 2004 de forma consistente. Após caírem no mesmo grupo na primeira fase, rubro negros e alviverdes foram para chaves diferentes na segunda etapa da competição e as lideraram. Nas semifinais, passaram por diferentes forças do interior do estado. Enquanto que o Atlético superou o tradicional Londrina, o Coritiba eliminou a surpresa do certame, o Cianorte, comandado por um técnico promissor chamado Caio Júnior.

Foi esse o caminho trilhado pelas equipes até o primeiro jogo da decisão, disputado no Couto Pereira em um sábado de aleluia (10 de abril). A primeira final entre os rivais no século XXI. O Atlético vinha mordido, querendo retomar o posto de melhor do estado. Já o Coritiba estava pressionado pela campanha irregular no grupo 9 da Libertadores, precisando de um milagre para a classificação. Os dois precisavam do título.

Antonio Lopes foi com o que tinha de melhor, mas Mário Sérgio tomou uma decisão polêmica ao colocar Dagoberto no lugar de Washington, artilheiro da equipe no torneio com nove gols. Pra piorar, Vanderson deu uma cotovelada em Rodrigo Batata e foi expulso. O Coxa aproveitou a vantagem numérica e venceu por 2 a 1. Aristizábal e Luiz Mário marcaram para o alviverde, enquanto que Igor descontou para o rubro negro.

Toda essa contextualização – que é longa, eu sei – nos leva à Arena da Baixada no dia 18 de abril de 2004. O Atlético precisava vencer para levar o título por conta da melhor campanha, enquanto que o Coritiba tinha a vantagem do empate. Em meio a esse turbilhão, surge o personagem principal da história. Tuta, ex – Furacão, agora defenderia o verde e branco no gramado do Joaquim Américo.

Com todos esses elementos, o jogo não poderia ser de outro jeito: eletrizante. Após faltas duras e reclamação atleticana de pênalti em Washington nos primeiros 15 minutos, o Coritiba saiu na frente aos 17’. O lateral Jucemar mandou um arremate semelhante ao feito pelo quase xará Josimar na Copa de 1986, um canhonaço no ângulo esquerdo.

Mais do que nunca o Atlético precisava fazer gols. Empurrado pela massa rubro negra, o time precisou de três minutos e duas bolas paradas para ultrapassar o rival na corrida pela taça. Aos 24’, Jadson cobrou escanteio da esquerda; a bola rasteira pererecou na área e Rogério Corrêa colocou na rede. Aos 27’, Magic Jadson apareceu novamente: mandou pro gol uma falta de longa distância, contando com a saída atabalhoada de Fernando Prass (à época simplesmente Fernando).

Vantagem assegurada… Por oito minutos. O lateral Adriano  saiu do globo central, passou por dois atleticanos, entrou na área e cruzou para Tuta empatar a partida. Euforia, mas sem provocações ainda. Parece que o centroavante previa o desenrolar do jogo. Nos acréscimos da etapa inicial, o Atlético fez mais um. A receita? Bola parada de Jadson. Dessa vez Igor deu uma casquinha pra conferir. Cinco gols e três mudanças de rumo no campeonato. E olha que faltavam 45 minutos.

No segundo tempo cada time teve uma baixa. Adriano e Washington saíram lesionados. Como ninguém suporta o ritmo intenso dos 45’ iniciais o jogo todo, a partida ficou mais estratégica, nem por isso morna. O Furacão catimbava e mantinha a bola no campo ofensivo. O Coxa vinha em velocidade, tanto que Luiz Mário reclamou uma penalidade – tal como o Coração Valente fez no início da peleja.

O delegado Antônio Lopes fez a alteração que definiria o título estadual (Foto: O Globo)
O delegado Antônio Lopes fez a alteração que definiria o título estadual (Foto: O Globo)

Um detalhe definiria o campeão. A decisão veio nas alterações. Enquanto que o delegado pôs sangue novo no setor de criação colocando Rodrigo Batata, Mário Sérgio tirou Jadson – principal atleta atleticano – e colocou o lateral André. Com fôlego e sem a principal ameaça no lado oposto, o Coxa foi à luta.

A recompensa veio aos 31 minutos. Após escanteio da direita, cinco jogadores rubro negros olhavam a bola. Não viram Tuta, que correu e testou pro fundo da rede. Confiante na conquista, o centroavante eternizou aquele momento com um gesto. A torcida atleticana, que vibrou com os gols de Moacir Bastos em 1998, agora teria de ficar em silêncio.

Os 14 minutos protocolares passaram voando para os mandantes e lentamente para os visitantes. O alviverde também sabia catimbar, prova disso foi a cena de Antônio Lopes após ser atingido por um pedaço de PAPELÃO vindo das arquibancadas. Não havia tempo para novas mudanças. Após um belo espetáculo de futebol proporcionado por Atlético e Coritiba, o alviverde deu a volta olímpica.

O Coritiba espetacular de 2003 teve seu último momento glorioso ali. O Furacão vice-campeão brasileiro de 2004 começava a encantar sua torcida já naquela época. O ponto de encontro entre esses dois esquadrões rendeu um jogo memorável para o futebol paranaense.

Ficha Técnica: Atlético 3 x 3 Coritiba (final do Paranaense 2004)

Local: Estádio da Arena da Baixada, em Curitiba (PR)

Juiz:   Marcos Tadeu da Silva Mafra (PR)

Público: 19.970

Renda: R$ 270.650 (o preço médio do ingresso era de aproximadamente R$ 13, 50)

Atlético: Diego; Alessandro Lopes, Rogério Corrêa e Igor; Fernandinho, Alan Bahia, Ramalho, Jadson (André Luiz) e Marcão; Ilan e Washington (Dagoberto). Técnico: Mário Sérgio.

Coritiba: Fernando; Jucemar, Miranda, Reginaldo Nascimento e Adriano (Ricardinho); Márcio Egídio (Pepo), Ataliba e Capixaba (Rodrigo Batata); Luiz Mário, Tuta e Aristizábal. Técnico: Antônio Lopes.

Gols: Rogério Corrêa aos 24min, Jadson aos 27min e Igor aos 47min do primeiro tempo (Atlético); Jucemar aos 17min e Tuta aos 35min do primeiro tempo e aos 31min do segundo (Coritiba).

Amarelos: Alessandro Lopes, Alan Bahia, Washington e Fernandinho (Atlético); Luiz Mário, Aristizábal, Márcio Egídio, Ataliba, Ricardinho, Pepo e Miranda (Coritiba).

Poster presente na Edição dos Campeões de 2004 da revista Placar (Foto: Dudu Nobre)
Poster presente na Edição dos Campeões de 2004 da revista Placar (Foto: Dudu Nobre)
Fontes: Doentes por Futebol, Folha de Londrina, Globoesporte.com, Revista PlacarTerraTribuna do ParanáUOL.

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