O eterno Palestra Itália pede: “respeite nossa tradição, e viveremos em harmonia”

Aglomeração de torcedores próxima ao antigo Palestra Itália está ameaçada por vizinhos e MP

Torcedores querem manter a essência nas ruas próximas ao eterno Palestra Itália, hoje Allianz Parque (Foto: FIFA )
Torcedores querem manter a essência nas ruas próximas ao eterno Palestra Itália, hoje Allianz Parque (Foto: FIFA )

A verdadeira torcida precisa se unir e não deixar que façam com que ela abra mão de um costume de décadas. Hoje é 12 de julho de 2016, noite de clássico entre Palmeiras e Santos. O Brasil estará de olho no jogo do líder do campeonato, que joga em seu estádio e terá casa cheia. Mais de 39 mil ingressos foram vendidos. A expectativa é de recorde de público em 2016. Desde os tempos de Parque Antárctica, faz parte da tradição de muitos palmeirenses curtir o pré-jogo na rua Palestra Itália, na entrada principal do estádio. Com sanduíches de pernil, isopores e bares, os torcedores chegam algumas horas antes do jogo e tomam conta da rua, festejam e cantam o hino do clube. No entanto, o costume não é visto com bons olhos pelo Ministério Público de São Paulo. Mas a tradição precisa ser respeitada.

Sede da abertura do primeiro campeonato oficial do Brasil em 1902, o Parque Antárctica passou a receber o Palestra Itália, hoje Palmeiras, como mandante em 1917. Três anos depois, foi comprado pelo clube. Atualmente, o Allianz Parque, reinaugurado em 2014, fomenta o comércio através de shoppings, hipermercados e empreendimentos imobiliários. Tudo isso para valorizar o status da região.

Os moradores do entorno do estádio estão insatisfeitos em dias de jogos e shows. Há algum tempo, um grupo se reúne para buscar soluções e sugestões. O caso foi levado ao Ministério Público. Segundo eles, a ampliação do estádio agravou inconveniências em dias de eventos na Arena. A venda e consumo de bebidas alcoólicas, uso de drogas ilícitas, barulho, sujeira, insegurança, tráfego intenso e bloqueio de ruas estão entre os problemas relatados pelo grupo, bem como a tradicional aglomeração de torcedores na antiga rua Palestra Itália na véspera dos jogos.

Incomodados enviaram a seguinte carta aos vereadores da cidade de São Paulo:

É preciso uma revisão na legislação atual e uma nova e específica legislação para locais onde há arenas e estádios de futebol que regule o que pode e não pode ser feito, normatize o acesso às regiões da cidade em dias relacionados a jogos e shows, que respeite o direito de ir e vir e o direito ao descanso dos moradores, e determine responsabilidades e punição rigorosa para quem desrespeitá-la.

O grupo diz ter entrado em contato com WTorre e Palmeiras, além da Polícia Militar e da organizada “Mancha Alvi-Verde”. Orientados a documentar os acontecimentos ditos inconvenientes que acontecem quando há eventos no estádio, registraram boletins de ocorrência, inclusive à respeito do clube social do Palmeiras. Segundo eles, o motivo é o recorrente barulho mesmo em dias sem jogos. Os moradores ainda negam que a construção da arena tenha trazido valorização aos imóveis residenciais da região.

O promotor público Paulo Castilho, que faz defesa aos clássicos com torcida única como forma de reduzir a violência nos estádios e arredores, é a favor do fechamento dos bares em volta do estádio do Palmeiras. “A grande maioria dos torcedores organizados não sabem se comportar civilizadamente, e nos obrigam a pensar em soluções para coibir sua violência. Temos que pensar em soluções para, por exemplo, fechar as sedes de torcidas no entorno do Allianz Parque. E também dar um jeito de não ter bares abertos por ali em dias de jogos. Os torcedores bebem, em garrafas de vidro, se concentram aos milhares ali, dificultando o controle e até a entrada na arena”, diz.

Outro lado

Segundo os palmeirenses, a concentração nas ruas do entorno do estádio é um tradicional costume desde os tempos de Parque Antárctica e não deve ser extinto. Na final da Copa do Brasil de 2015, por exemplo, a maior energia que empurrou os jogadores à superação e os conduziu ao título veio do lado de fora. Ali estava concentrada a maior quantidade de paixão por metro quadrado pela camisa de seu clube. Pepe Reale, torcedor do Palmeiras, de 39 anos, dá o seu relato.

Os dias de jogos no entorno do Allianz Parque são mágicos. Pessoas de todos os níveis sociais, etnias, religiões e crenças se amontoam para um ritual, quase sagrado, de se relacionarem socialmente com as outras que compartilham de uma mesma paixão: o Palmeiras. Em tempos em que as redes sociais tomaram espaço nesse convívio social, o que acontece na esquina da Rua Turiassu (sim, pra mim será eternamente Turiassu a despeito da mudança de nome para Rua Palestra Italia) com a Rua Caraíbas deveria ser visto como um espaço de resistência e não como um evento que incomoda vizinhos e comerciantes locais.

Não vou entrar no mérito de que os imóveis da região valorizaram com as obras no estádio e imediações, como melhorias no tráfego, melhorias no sistema anti-enchente e expansão da linha do metrô que passará pela Avenida Pompéia. Vamos falar daquilo que realmente importa: o convívio social, a fé e a paixão pelo seu clube de futebol. Ali, naquela esquina, chegam a se encontrar mais de 50 mil pessoas por jogo. Em casos extremos, como a final da Copa do Brasil de 2015, esse número chega facilmente a 80 mil. Grande parte dos que lá estão, não tem mais condições financeiras de pagar o ingresso para estar dentro do campo e a única saída para estar perto do time que ama é ali na esquina, no meio do povo, confraternizando e torcendo.

O futebol é e sempre foi um instrumento de inclusão social. Ele segue exatamente o comportamento que vimos na sociedade em geral. Não está livre de corrupção, violência, roubo e demais casos que vemos todos os dias nos noticiários e jornais. A função das autoridades é coibir e punir os infratores, e não privar de estarem nas ruas as pessoas que só querem se divertir, estando perto do seu time do coração.

M.N, de 39 anos, mora próximo ao estádio e também tem sua opinião sobre a mudança que querem implantar próximo ao palestra.

Desde que nasci moro próximo ao Palestra Itália, hoje Allianz Parque. Há pelo menos 34 anos frequento o estádio em praticamente todos os jogos. E afirmo, sem medo de errar, que não existe nenhum estádio do mundo que acolha tão bem seus torcedores. Os arredores do Palestra são como a extensão das nossas casas. Lá nos reunimos, bebemos, relembramos jogos marcantes, choramos, rimos, torcemos, amamos. Enfim, vivemos o Palmeiras.

Mas, nos últimos tempos, sempre que há algum jogo por lá, a imprensa notícia reclamações dos vizinhos e cunha termos como “barril de pólvora”, “ambiente sem lei”. De fato, há excessos, como em qualquer ambiente com grande ocupação de pessoas. Mas em nenhum momento é posto em debate como melhorar nossa convivência, como torcedores, com os vizinhos.

O Dr. Paulo Castilho, acredita que fechar os bares e sedes das organizadas resolverá o “problema”. Já disse isso inúmeras vezes: desculpe, promotor, mas seria como um marido traído vender o sofá onde flagrou a mulher com o amante.

Ao invés de proibições e mais proibições. Veja bem, não vamos lá por conta dos bares, vamos por conta do Palmeiras. Deveria ser pensado na construção de um grande Boulevard na esquina mais famosa do mundo: Rua Palestra Itália x Caraíbas. Transformar as ruas em grande espaço de convivência. Colocar banheiros químicos (já diminuiria em grande parte os problemas com os vizinhos), alterar o trânsito em dia de jogos, organizar a limpeza.

Aproveitem o prefeito Haddad, ele é adepto a essas ideias. Não acabem com nossa festa. Até mais tarde, amigos. Na nossa casa.

 

Tradição no Palestra Itália está ameaçada por reclamações de vizinhos (Foto: FIFA )
Tradição no Palestra Itália está ameaçada por reclamações de vizinhos (Foto: FIFA )

Texto: Josefh Flore

2 Comentários em O eterno Palestra Itália pede: “respeite nossa tradição, e viveremos em harmonia”

  1. Proibir, fechar, inibir, coibir, reprimir… São os verbos mais adorados por essa gente do Ministério Público. Eles não fazem o trabalho deles em outros setores da sociedade, e se aproveitam que o futebol é popular. Falar algo polêmico relacionado ao futebol, a torcidas, a clubes é FÁCIL! É mídia fácil! Publicidade fácil! É isso que eles querem. Exatamente o que o Fernando Capez fez e hoje é Deputado Federal. Bem mais tranquilo ser Deputado do que Promotor, né Capez? Não precisa trabalhar tanto ou fingir que trabalha… Aliás, cadê a merenda?

  2. Este promotor é um fanfarrão. Não podemos deixar que as suas decisões arbitrarias interfira no nosso modo de vida. Não somos criminosos, pagamos nossos impostos em dia, levamos inclusive dinheiro ao futebol e a região, seja a ambulantes que ganham a vida honestamente vendendo produtos nos arredores do estádio ou aos comerciantes locais, devemos ser respeitados como cidadão de bem que de fato somos e aos que estão fora da lei que sejam devidamente penalizados com base na lei (que se comece de cima) com os políticos corruptos que assolam os nossos governos e não com o povo.

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