O êxodo pernambucano da Liga do Nordeste

A Copa do Nordeste pode perder sua força com a saída dos grandes de Pernambuco

Copa do Nordeste (Foto: Divulgação)

Por: Pedro Pereira, MA e Diego Borges, PE

A Copa do Nordeste segue cada vez mais firme e valente. Melhor ainda, mostra que resiste bem às dificuldades que encontra pela frente, assim como é característico do povo nordestino, povo forte antes de qualquer coisa. A edição de 2018 vai acontecer, independente de quem queira ou não participar. Uma espécie de ‘nova revolução pernambucana’, que pode ser chamada de primeira grande ameaça a esta nova versão do Nordestão, acabou se resumindo ao grito solitário de um dos gigantes da região. Ainda que tão grande, não chega a se equiparar ao tamanho da força dos outros gigantes juntos que dividem a mesma terra.

Mas antes de entender os motivos que levaram o Sport Club do Recife a abrir mão da competição – e quase levar mais gente grande consigo -, é preciso entender o contexto da competição cujo sucesso regional é tão inegável quanto exponencial. A CL traçou um panorama histórico pra te fazer entender bem o quanto a ‘politicagem da bola’ faz clubes defenderem interesses das TV’s, quase como faziam os jagunços aos seus coronéis.

O DNA da Lampions

A Copa do Nordeste teve sua primeira edição realizada em 1994, inspirada no modelo da Copa do Mundo, com o estado de Alagoas como sede. O sucesso foi imediato. Com base na rivalidade bairrista, logo de cara os clubes e os torcedores abraçaram a novidade, que teve o intervalo de três anos para retornar. Mas voltou com tudo. Entre 1997 e 2002, o crescimento foi gradual, tendo seu ápice nas duas últimas edições, quando os 16 clubes jogavam entre si e os quatro primeiros decidiam o título nas finais, somando 19 datas no total. O Nordestão cresceu demais – e passou a incomodar.

A derrocada começou em 2003 e não é coincidência que seja justamente no ano da instituição do modelo de pontos corridos na Série A, que elevou seu número de datas de 31 para 46. Lógico que o futebol nacional não havia se preparado o suficiente – a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), muito menos. A CBF, então, se comprometeu a manter o torneio em execução. Mas alguém teria que pagar a conta, e ela foi enviada às federações estaduais. Diante do sucesso da Copa do Nordeste, da bilheteria à transmissão, seis dos sete estados participantes (encabeçados por Bahia, Ceará e Alagoas) admitiram a ideia e abriram mão de datas locais para poupar o regional. Só Pernambuco não aprovou a ideia.

Sport, o primeiro campeão do Nordeste (Foto: Diário de Pernambuco)
Sport, o primeiro campeão do Nordeste (Foto: Diário de Pernambuco)

A 1ª revolta pernambucana

O presidente da Federação Pernambucana de Futebol (FPF), à época, era Carlos Alberto Oliveira. O típico estereótipo de um coronel: homem durão, sisudo e convicto das duas ideias. Entre elas o sonho de presidir a CBF e o desejo de organizar um campeonato estadual robusto, da capital ao interior. A segunda, conseguiu com grandes méritos. O Campeonato Pernambucano também vivia seu auge e não podia se submeter à Copa do Nordeste – ao menos, na opinião de Carlos Alberto. Conta o folclore que até uma arma foi empunhada pelo mandatário, enquanto bradava com sua voz rouca que Náutico, Santa Cruz e Sport deixariam o torneio. E deixaram. Sem o Trio de Ferro recifense, o torneio perdeu força e mergulhou num longo hiato a partir do ano seguinte.

A volta triunfal

O torneio acabou, mas a CBF ainda estava em débito com o futebol nordestino. Tanto que em 2010 resolveu bancar a competição de forma inesperada, tendo o canal Esporte Interativo como parceiro investidor. O último modelo foi resgatado, mas não com o mesmo êxito, uma vez que o Nordestão acabou relegado pelos clubes que disputavam o Campeonato Brasileiro em paralelo. O sucesso ressurgiria com a volta às origens, na divisão por grupos. Pouco a pouco, os estádios voltaram a lotar e a Lampions League – como ficou conhecida na internet -, pela primeira vez, abriu as portas para Piauí e Maranhão. Com 20 clubes, a Copa nunca fora tão Nordestina.

River, representando o futebol piauiense na Copa do Nordeste (Foto: Ascom/River)
River, representando o futebol piauiense na Copa do Nordeste (Foto: Ascom/River)

A 2ª revolta pernambucana

O Nordestão cresceu de tamanho e deu muito lucro a quem nele investiu. Começou a faltar espaço para tanta gente que queria uma fatia dos generosos retornos financeiros. Paralelo ao torneio, outro movimento também cresceu: o G7. Composto por Bahia, Ceará, Fortaleza, Náutico, Santa Cruz, Sport e Vitória, o grupo formava uma aliança forte para negociar benefícios junto à Liga do Nordeste, mas não havia tanta unidade. Bastava um clube tropeçar, que era deixado de lado. Com isso, cresceu a união entre os pernambucanos. Descontentes com a distribuição de cotas e de vagas após a redução de 20 para 16 vagas, Timbu, Cobra Coral e Leão caminharam de encontro aos anseios da TV Globo, enquanto os demais enveredaram pelo acerto com o Esporte Interativo – já mais robusto e consolidado no mercado de transmissões esportivas.

O estopim veio no início de julho de 2017. O presidente do Sport, Arnaldo Barros, anunciou que não teria interesse em participar do torneio em 2018, tendo ao seu lado o até então mandatário do Náutico, Ivan Brondi – que pouco se pronunciou na ocasião -, e afirmando que o Santa Cruz também estaria inclinado a seguir o mesmo caminho. A intenção era criar uma nova liga, mais seleta. Era a exibição do mesmo filme de 2003, porém com novos personagens e intenções por trás da trama.

Bahia, campeão de 2017 (Foto: Divulgação/CBF)
Bahia, campeão de 2017 (Foto: Divulgação/CBF)

A força da Lampions League

Aos poucos, o cerco foi afunilando. Com receitas adiantadas junto à TV Globo, o Sport não poderia simplesmente romper com o grupo. O Santa Cruz optou por permanecer na competição e herdou a vaga direta na fase de grupos. O Náutico, vendo a possibilidade de participar da edição de 2018, resolveu dar uma ‘pausa’ na revolta e ganhou o direito de disputar o mata-mata classificatório, sob a premissa de não romper com os ideais dos companheiros rubro-negros.

E foi assim que o Sport acabou isolado e a Copa do Nordeste demonstrou mais força que nunca. O clube que se apoiou na possibilidade de voltar a disputar a Taça Libertadores, mirando para cima e esquecendo de enxergar onde pisa, hoje se vê andando em terreno perigoso, sem a perspectiva do futuro estável que o Nordestão oferece. Pior ainda. Como se não bastasse perder o apoio dos clubes parceiros, perdeu também o apoio do torcedor rubro-negro, que ainda hoje custa a acreditar que o Sport foi capaz de abrir mão de uma competição onde é o segundo maior vencedor em troca de uma aposta tão pouco convidativa e incerta.

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  1. Todos nós temos um pouco do futebol nordestino - Cenas Lamentáveis

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