O expresso coral de volta aos trilhos

A volta aos trilhos do Ferroviário eleva o futebol cearense e resgata a verdadeira história do estado no esporte bretão

Mota, nome mais conhecido do elenco, comemorando o gol no primeiro jogo [Pedro Chaves/Canal da Bola CE]
Por Honorato Vieira, CE

Para quem gosta de relembrar esquadrões que marcaram época e times que um dia foram uma força do futebol, o Ferroviário é um grande exemplo. Fundado no dia 9 de maio de 1933 por operários ferroviários, o clube foi um dos precursores na democratização do futebol e no profissionalismo do esporte bretão no estado do Ceará.

Por muito tempo, o Tubarão da Barra, como é conhecido, foi a segunda força do futebol cearense, principalmente entre as décadas de 40 e 50. Nesta época, conquistou três títulos cearenses, disputou a Taça Brasil e fez ótimas campanhas nos regionais da época. O Ferroviário já participou por seis vezes da Série A do Campeonato Brasileiro, sendo a última delas em 1984, quando terminou em 33º lugar. Seu melhor resultado foi o 27º em 1981.

Após um hiato de 16 anos, o clube voltou a levantar um troféu de campeão estadual em 1968. O Ferrão tem nove títulos do Campeonato Cearense, sendo o último em 1995 quando foi bicampeão do certame local.

Depois dessa conquista, até hoje, apenas Ceará e Fortaleza conquistaram os títulos e monopolizaram o futebol cearense. Durante esse período, após algumas esporádicas boas campanhas, o Ferroviário decaiu com as más administrações e chegou ao fundo do poço ao ser rebaixado para a Série B do Campeonato Cearense em 2010. Mas com algumas irregularidades do Crateús, o clube coral se safou. Entretanto, em 2014, o pesadelo se confirmou: pela primeira vez em sua história o time é rebaixado. Também foram para a série B do estadual Tiradentes e Crato

Hora de se reinventar

Com o rebaixamento, a diretoria foi completamente remodelada e investidores apareceram do nada com inúmeros projetos que nunca saíram do papel. E assim, a torcida estava cada vez mais cabisbaixa.

Em 2015, o Ferroviário disputou, pela primeira vez em sua história, a Série B do Campeonato Cearense. Depois de uma péssima campanha, terminou a classificação em 6º lugar, ficando longe de conquistar o acesso.

Com um investimento mais baixo que no ano anterior, em 2016 o Ferroviário disputou, pela segunda vez em sua história, a segundona do estadual, mas com uma diferença: sem dinheiro. Então resolveu apostar na categoria de base e em jogadores em formação de outros clubes, junto com a experiência de Erandir e outros mais. Após um começo arrasador, inclusive com uma goleada por 10 a 0 diante do Campo Grande, a equipe teve uma queda que custou o acesso. Após vários ‘WOs’, a competição foi ficando ainda mais complicada. Bem mais regulares, Horizonte e Alto Santo conquistaram o acesso. O Ferrão terminou a competição em 3º lugar.

O retorno à elite 

Com a desorganização do futebol cearense e a falta de profissionalismo de grande parte dos dirigentes, os dias que antecederam o início do campeonato foram nos tribunais. Com a nova regra que os clubes devem estar sem dívidas fiscais e regularizados no PROFUT (Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro), o Guarany de Sobral não apresentou a documentação no prazo e foi rebaixado para a Série B. Com isso, o Ferroviário, clube melhor colocado da competição anterior sem o acesso, conquistou a vaga na elite. Durante esse processo, o Bugre Sobralense até regularizou a documentação, mas o Alto Santo (campeão da segunda divisão estadual durante a temporada de 2016) desistiu de disputar o torneio por falta de patrocinadores.

Com a vaga garantida, o Ferrão só teria duas semanas para se preparar para o certame estadual e montar todo um elenco. Entretanto, tudo isso começou errado. Há poucos dias de estrear na competição, o até então presidente Nilton Ramos, ficava mais em São Paulo do que em Fortaleza. Assim, o conselho deliberativo do clube resolveu afastá-lo para continuar com o planejamento para a Série A.

O expresso coral de volta aos trilhos

Em três jogos na temporada, o Ferroviário não perdeu para o Fortaleza [Pedro Chaves/Canal da Bola CE

Desta forma, a cúpula coral agiu rápido e trouxe o renomado Marcelo Vilar para comandar o projeto. Com muitos jogadores jovens, o técnico teve a responsabilidade de agir como diretor de futebol e contactar atletas para seu plantel.

Essa tomada de decisão foi a ideal para que o Ferroviário voltasse aos caminhos do sucesso. Vilar acertou a vinda do renomado atacante Mota, ídolo do Ceará; Assissinho, jogador com ótimas passagens pelos dois grandes da capital; além do atacante Vitinho e da volta do jovem Valdeci. Estas peças aliadas à experiência do treinador fizeram com que o pouco tempo de preparação não fosse obstáculo. Logo na estreia, um empate em 2 x 2 no Clássico das Cores mostrou que o Ferroviário não estava como mero figurante na competição.

Com um início bem regular com Marcelo Vilar no comando, a equipe sofreu um baque com a ida do treinador para o Moto Club. Assim, a diretoria anunciou a volta de Vladmir de Jesus, que havia sido demitido do Uniclinic. Com o novo técnico, o Ferroviário sofreu algumas oscilações e terminou a primeira fase em sexto lugar.

Nas quartas de final, a equipe enfrentou o Horizonte, que havia ficado em terceiro colocado, e vinha crescendo em produção após Leandro Campos assumir na beira do campo. Como zebra, o Tubarão atuou em casa no primeiro duelo e empatou por 1 x 1. No segundo confronto, no Domingão, a partida teve o mesmo placar e foi para os pênaltis. Nas cobranças da marca da cal, os corais levaram a melhor e avançaram para a próxima fase.

Na semifinal, o Clássico das Cores era o protagonista após muito tempo sem decidir nada relevante. Na primeira partida, o Ferroviário surpreendeu e com gols de Toni Belém e Mota venceu o Fortaleza de forma contundente.

No segundo duelo, num jogo pegado, típico de clássico, o Fortaleza até abriu o placar, mas o Ferrão não desistiu. Com um a menos, o meia Mimi pegou de primeira e empatou o duelo aos 48 minutos da segunda etapa. No terceiro e último embate, o time proletário segurou o ímpeto tricolor e empatou em 0 a 0, assim garantindo uma vaga na final após 19 anos.

A representatividade é muito maior do que todos pensam. A volta aos trilhos do Ferroviário eleva o futebol cearense e resgata a verdadeira história do estado no esporte bretão. Com a vaga na final, o Tubarão da Barra garantiu um calendário cheio. Além do estadual, os corais jogarão a Copa do Nordeste, Copa do Brasil, Série D e a Taça Fares Lopes. Que o clube aproveite os bons fluídos e figure mais vezes entre os personagens principais. Que a Vila Olímpica Elzir Cabral volte a receber jogos e a estrutura física seja melhorada para que o trabalho tenha sequência em melhores condições e novos jogadores sejam revelados.

Fontes: Futebol CearenseCanal da Bola CE e Arena 303

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