O futebol que não vemos: Espírito Santo

O futebol do Espírito Santo de A a Z

Desportiva Ferroviária, última campeã do Espírito Santo
Por Diego Giandomenico, PR

Brasil, o país do futebol. Terra de tantos craques que poderíamos – e deveríamos – falar horas a respeito de suas conquistas e feitos. Local onde tantos clubes movem milhares de corações em volta de suas pesadas camisas. Tradição, história, paixão, nervos à flor da pele. Tudo isso dita a vida de um torcedor de futebol. Seus jogos são transmitidos ao vivo para todo o Brasil ou ao menos para sua região. Seu time disputa competições nacionais com frequência, mesmo que seja de maneira figurativa. E volta e meia o nome de seu estado fica em evidência nos noticiários esportivos Brasil afora. A não ser que você more em Rondônia, Roraima, Amazonas, Acre, Amapá, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Distrito Federal e, o primeiro de nossa série, Espírito Santo.

São estados que não possuem representantes em uma das três principais divisões nacionais, que em alguns casos mal consegue montar um campeonato estadual, onde os seus habitantes torcem invariavelmente para times de outros locais. Como é ser torcedor de um time desse estado? Eles existem? E os clubes, como agem diante deste cenário? Como são seus campeonatos? Como as equipes tem se saído no cenário nacional? Como é a vida de um jogador de futebol nestes lugares? Foi com essas perguntas, que iniciei minha saga de pesquisas e agora convido a todos e ver um pouco sobre cada estado nesta série intitulada: O Futebol Que Não Vemos. Começando com o Espírito Santo.

Quem como eu cresceu vendo Esporte Espetacular todo santo domingo, se lembra da fase onde o futebol de areia era uma febre. Como os jogos da seleção brasileira estavam meio chatos e já não tinha mais que campeonato inventar para transmitir no domingo, começaram a ser transmitidos campeonatos entre as federações do Brasil ou mais conhecido como Campeonato Brasileiro de Estados. Com um nome muito incomum, a competição reunia o que havia de melhor na areia e cada estado chamava quem podia.

Espírito Santo é potência no futebol de areia (foto: globoesporte.com)
Espírito Santo é potência no futebol de areia (foto: globoesporte.com)

Entre astros como Júnior Negão, Júnior, Neném, Jorginho, Benjamin, Robertinho e diversos outros, o Espírito Santo tinha seus bons e fortes nomes como: Buru, Pierre, Joia, etc. Tirando São Paulo, o Espírito Santo é o estado com mais títulos (3) e mais vices (4). Ou seja, é uma potência. Mas quando vamos para o campo, a coisa não funciona bem dessa maneira.

Os clubes

O futebol no Espírito Santo conta com poucas equipes em atividades. Destas, vamos nos concentrar nas que em algum momento da história dominaram o estado e tiveram algum tipo de êxito nacionalmente falando. Comentaremos sobre Rio Branco, Desportiva Ferroviária, Vitória, São Mateus, Serra e Linhares.

Começando pelo Rio Branco, o Capa-Preta. O centenário clube de Vitória, já coleciona 37 títulos do Capixabão com sua última conquista em 2015. O clube já disputou todas as divisões nacionais de A a D. Além da Copa do Brasil e da outrora atraente Copa Verde. No Brasileirão, o Capa-Preta disputou 10 vezes a competição antes de 1971, já na era moderna foram duas participações: 86 e 87. No ano de 1986, o Rio Branco caiu no grupo C, enfrentando equipes como Vasco, Bahia, Cruzeiro, Santos, Guarani e Náutico. Foi muito bem e venceu 5 partidas, inclusive uma contra o Vasco (1 a 0), no estádio Kléber Andrade com recorde de público (50 mil pessoas). Fechou em 4º lugar e avançou para a próxima fase, onde ficou no grupo L com times, como: Corinthians, Vasco, Atlético-MG, Internacional e Criciúma.

Rio Branco, mais conhecido como Capa-Preta (foto: folha de vitória)
Rio Branco, mais conhecido como Capa-Preta (foto: folha de vitória)

Desta vez, o Rio Branco não foi tão bem e acabou em 7º, a frente de Nacional-AM e Sobradinho-DF, e livre do rebaixamento. Na bagunça de 87, pouco brilhou e se despediu em 7º lugar no módulo verde, jogando contra equipes como Atlético-PR, Guarani, Portuguesa e Atlético-GO. Desde então, jamais voltou a se estabilizar em competições nacionais, caindo para a Série B, depois para a C e desde então se alternando entre Série D e ano sem disputar nenhuma. Na Copa do Brasil são 5 participações, todas na primeira fase. O momento atual do Rio Branco não é dos melhores, já que acaba de ser rebaixado para a segunda divisão do Capixabão.

A Desportiva Ferroviária é o outro time de grande fama nacional. Inclusive é a que mais tem simpatia Brasil a fora. A Tiva, como carinhosamente é conhecida, é o grande rival do Rio Branco e já conquistou 18 títulos estaduais. O clube recebia muito dinheiro da Vale do Rio Doce, isso fazia com que se destacasse regional e nacionalmente. Entre 1972 e 1982, a Tiva ficou entre os grandes do futebol nacional, sendo que, em 1980 teve sua melhor participação, terminando em 15º lugar. Voltou a disputar em 1985, mas foi rebaixada.

Último ano de um capixaba na divisão principal (foto: 3bp.blogspot)
Último ano de um capixaba na divisão principal (foto: 3bp.blogspot)

O ano de 1993 marcou o último ano da Desportiva Ferroviária na elite nacional e consequentemente, o último ano de um clube Capixaba na Série A. Na campanha, o clube de Cariacica ficou em último lugar no grupo D, uma espécie de grupo intermediário para definir quem avançaria de fase e jogaria com os “grandes” e quem cairia. Desde então, a Tiva passou por muita coisa. A começar pela privatização da Vale, que resultou no corte financeiro e que levou o clube a se tornar um clube/empresa, mudando até o seu nome para Desportiva Capixaba. Deu tão errado que entre 2005 e 2007, a Tiva ficou inativa, sem jogar nada. Em 2010, os acionistas do Grupo Villa-Forte não cumprem com suas obrigações e dão margem a Desportiva Ferroviária ser a acionista majoritária novamente.

Desde o ocorrido, foram 2 títulos estaduais, duas Copas ES e neste ano se livrou do rebaixamento na última rodada, deixando o seu rival amargar o próximo ano na segundona.

Clube homônimo a capital do estado e já centenário, o Vitória Futebol Clube não tem o charme da Tiva, nem a força do Rio Branco, mas já tem em sua conta 9 conquistas estaduais, algumas passagens pela Série A do Brasileirão e Copa do Brasil. O Vitoraço, como é conhecido, disputou a elite nacional naquela época em que a ditadura dava vagas a rodo para todos os estados brasileiros, na velha política pão e circo.

O tradicional Vitória disputou a Série A apenas uma vez em sua história (foto: vitoriafc.com.br)
O tradicional Vitória disputou a Série A apenas uma vez em sua história (foto: vitoriafc.com.br)

Como fora campeão em 76, o Vitoraço pôde participar da edição de 77. Num grupo que contava com Flamengo, Fluminense, Vitória, Bahia e América-RJ, ter terminado atrás da Desportiva Ferroviária foi o que deixou o Vitória mais decepcionado. Depois disso, foram insistentes participações na Série C durante a década de 90. O Vitória ainda participou de três da Copas do Brasil, em 2007, 2010 e 2011, sendo eliminado respectivamente por Ipatinga, Bahia e Goiás.

São Mateus é um dos clubes mais tradicionais fora da região de Vitória. Sua história passou a ser um pouco mais relevante a partir da década de 90, quando começou a enfrentar de igual para igual as grandes forças do estado. São dois títulos estaduais conquistados: 2009 e 2011.

Base do São Mateus na Copinha (foto: globoesporte.com)
Base do São Mateus na Copinha (foto: globoesporte.com)

É um dos times que mais levam torcedores ao estádio no Espírito Santo. Em competições nacionais, o máximo que conseguiu foi disputar a Série C de 95 e a Série D de 2011. Nesta, o Gigante do Norte terminou em último lugar do grupo A6 sem conquistar nenhuma vitória. Neste ano, o clube ficou de fora das semifinais do estadual.

A Sociedade Desportiva Serra Futebol, mais conhecida como Serra ou ainda como Cobra Coral, é um dos clubes com mais sucesso com 5 títulos estaduais e boas participações em competições nacionais. O clube alcançou primeiro título em 1999 e ele foi o estopim para a glória serrana.

Dia histórico para o Serra (foto: Gazeta Online)
Dia histórico para o Serra (foto: Gazeta Online)

Conseguiu o acesso à Série C no mesmo fatídico ano que o Fluminense foi campeão. Inclusive, ganharam do tricolor no Maracanã, realizando um feito único para o futebol capixaba – até hoje nenhum outro clube conseguiu essa façanha novamente. Devido ao caso Sandro Hiroshi e a bagunça que se perpetuou no ano seguinte, mesmo terminando em terceiro lugar, atrás de Fluminense e São Raimundo-AM, o Serra ganhou sua vaguinha para o Módulo Amarelo, que corresponderia à Série B em 2000. Ficando no grupo B da competição, o Serra não fez feio e terminou em 9º lugar, mas não o suficiente para garantir vaga às oitavas de final. Em 2001, o clube continuou na Série B e ao lado do seu conterrâneo, a Desportiva, fez a pior campanha e ambos terminaram rebaixados à Série C. Neste ano a Cobra Coral Serrana disputa a segundona do Capixaba.  

O Linhares Esporte Clube surgiu de uma tentativa de fusão entre os clubes da cidade de Linhares: Industrial e América. Apesar de ter nascido e morrido cedo, o Linhares está nesta lista de principais clubes pelos feitos atingidos em pouco tempo. Nascido em 1991, conquistou 4 títulos capixabas na década de 90 e em 94 fez a melhor campanha de um clube capixaba na Copa do Brasil.

Linhares EC entrou para a história como a melhor campanha de um capixaba na Copa do Brasil (foto: o curioso do futebol)
Linhares EC entrou para a história como a melhor campanha de um capixaba na Copa do Brasil (foto: o curioso do futebol)

O Linhares enfrentou na primeira fase o Fluminense, o eliminando com dois empates, mas fazendo mais gols fora de casa (2 a 2 e 1 a 1). Na segunda fase eliminou o São José do Amapá. Nas quartas de final eliminou o Comercial-MS e chegou às semifinais contra o Ceará. Empatou no Castelão por 0 a 0, mas na volta perdeu em casa por 1 a 0 e deu adeus a competição. Hoje em dia o clube não existe mais profissionalmente e o Linhares que disputa o Capixabão nada tem a ver com este que fez a história.

O Campeonato    

Como já dissemos anteriormente, o Rio Branco é o maior vencedor com 37 conquistas. Na sequência temos a Desportiva Ferroviária (18), Vitória (9), os extintos América e Santo Antônio (6), Serra (5), Linhares (4), São Mateus e Alegrense (2) e outros 10 clubes com uma conquista. A maioria destes títulos ficou naturalmente na região de Vitória, se estendendo às cidades de Cariacica e Serra. No interior, a principal força ficou com a cidade de Linhares.

O Capixabão tem uma fórmula bem simples de disputa. São apenas 10 clubes que se enfrentam em turno único, os quatro melhores vão para às semifinais e consequentemente os vencedores vão à finalíssima. Tudo muito simples. Por ser um campeonato de tiro curto e pela disparidade econômica e técnica não ser tão grande entre os clubes, os mais tradicionais frequentemente visitam a segundona. Recentemente, Vitória, Rio Branco, Desportiva tiveram essa amargo gosto. E disputando a Série B neste ano temos o Serra.

No campeonato que teve sua fase encerrada a pouco, o Rio Branco foi vítima novamente do descenso. Diferente dos campeonatos de maior destaque, aqui no Espírito Santo os grandes sofrem com quedas constantes, o que deixa tudo sempre muito aberto.

Em 2017, os quatro semifinalistas nunca foram campeões. Tupy, Atlético, Doze e Espírito Santo lutam para ter seu primeiro título, a vaga para a Série D e também para a Copa do Brasil. Vale muito tanto para times que começaram a pouco – Espírito Santo (2006) e Doze (2014) – quanto para times mais tradicionais – Tupy (1938) e Atlético (1965).

O Público

Sabemos que viver próximo aos dois maiores centros do futebol não deve ser simples. Ainda mais se seu estado não tem lá grande representatividade nacional. Não à toa o estádio Kléber Andrade foi utilizado inúmeras vezes pelo Flamengo no Brasileirão do ano passado. Aliás, segundo pesquisas a torcida do Flamengo é a maior do Espírito Santo, seguida por Vasco e Fluminense. E uma pesquisa de 2010, feita pela Futuranet, mostrou que os capixabas não são lá grandes fãs do seu futebol. Apenas 13% dos entrevistados acompanham o que rola no Capixabão contra 84% que sequer sabe o que está acontecendo.

Torcida da Desportiva (foto: plano tático)
Torcida da Desportiva (foto: plano tático)

Entre os entrevistados, 10% se declararam torcedores do Rio Branco, 7% da Desportiva, 5% do Serra e 2% do Vitória e Vilavelhense. Isso vai ao encontro dos números de torcedores presentes no Campeonato Capixaba de 2017, que contou com uma média de 320 pagantes. No total, 12.802 ingressos foram vendidos em 40 partidas da competição. A torcida do Rio Branco foi a mais presente com uma média de 849 torcedores.

Torcida do Rio Branco (foto: folha de vitória)
Torcida do Rio Branco (foto: folha de vitória)

Em seguida vieram São Mateus (834), Desportiva Ferroviária (407), Atlético (275) e Vitória (259). Na rabeira vem o Doze, equipe recém fundada da capital, com média de 74 torcedores. O jogo com maior público foi o grande clássico entre Rio Branco e Desportiva com 2039 torcedores. O jogo com o pior público foi entre os caçulas Doze e Espírito Santo com 33 torcedores.

A Situação do Estado

Ouvimos e vimos a pouco tempo atrás a crise que se instaurou na cidade de Vitória após a greve da Polícia Militar. Foi uma onda de caos que teve de tudo: toque de recolher, assaltos, assassinatos, comércio de portas fechadas. Horrível. Porém, a situação do estado não é tão ruim. Tem um dos melhores IDHs do Brasil, possui o 5º maior PIB do país e tem na exportação uma das suas principais fontes de recursos. Ou seja, não é a situação econômica que compromete o estado no esporte. Tem outros fatores que pesam muito mais na conta do porquê que o futebol no estado simplesmente é um dos piores do país: 23º de 27 federações.

Conclusão

O futebol do estado nitidamente sofre com a proximidade de Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, o que acabou criando a cultura de torcer para os “grandes”. Além disso, o baixo rendimento de suas equipes ajudou neste cenário. Em momento algum, equipe alguma do Espírito Santo deu suas caras no cenário nacional. O mais próximo disso foi o caso do Linhares na Copa do Brasil de 1994. E com o passar do tempo, as equipes parecem estar ainda mais vulneráveis. Faz muito tempo que um time capixaba não passa da primeira fase da Copa do Brasil. Na Copa Verde apenas uma vez o Rio Branco conseguiu avançar. No Brasileirão da Série D, o feito raramente acontece. Ou seja, seja contra times da Região Sul e Sudeste (Série D) ou Norte e Centro-Oeste (Copa Verde), as equipes do Espírito Santo parecem estar um passo atrás.

O que é triste se vermos que no futebol de areia, ocorre o contrário. Esperamos que assim como Dead Fish cante na música Vitória, o futebol de lá possa “Permanecer de pé! Focar, competir, vencer!”.

Fontes: Globoesporte.com (Público ES), Wiki, Futuranet, Rsssfbrasil, CBF, Globoesporte.com (Tabela Capixabão)

11 Comentários em O futebol que não vemos: Espírito Santo

  1. Excelente matéria, nem a imprensa esportiva capixaba está tão atualizada como vcs.

    e pra não esquecer dá-lhe tivaaaa!!!!

    Ooo toma no cu Branco!

  2. Faltou o Estrela do Norte! Clube centenário de Cachoeiro de Itapemirim, terra do Roberto Carlos! Tem 1 título do Capixabão, conquistado em 2014.

    • Muito bom, Leonardo! Acabei optando por clubes que se destacaram nacionalmente em algum momento. Não consegui falar de todos. Mas podemos usar a história do Estrela do Norte numa outra oportunidade. Obrigado por acompanhar a gente.

  3. O Vitoria Futebol Clube é a unica equipe capixaba q possui um Titulo internacional e a Desportiva é a terceira equipe do Brasil q possui a maior sequencia de invencibilidade

  4. Excelente matéria! Ótima iniciativa, mostrando nosso futebol esquecido, e que, apesar de fraco nacionalmente, significa tanto para nós, os poucos torcedores que sempre apoiam nossos times, tanto nos bons quanto nos maus momentos… que possamos futuramente voltar a aparecer nacionalmente!

    E tivemos até citação do Dead Fish!!! Por isso CL é a melhor página!!

    • Henrique, acabei baseando o texto em equipes que tiveram êxito no âmbito nacional em algum período de sua história. Infelizmente não conseguiríamos falar de todos os times de maneira completa. Mesmo assim, mencionamos que o Alegrense já foi duas vezes campeão estadual. Obrigado por acompanhar a gente.

  5. Belíssima matéria. Brilhante iniciativa. Faço questão de deixar registrado o meus parabéns para o site e sua equipe. Sucesso e que venham as próximas.

1 Trackbacks & Pingbacks

  1. O futebol que não vemos: Roraima - Cenas Lamentáveis

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*